sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

De médicos e escritores todos temos um pouco



             De médicos e escritores todos temos um pouco

João Guimarães Rosa, Dráuzio Varela, Moacir Scliar, João Gilberto Rodrigues da Cunha, Pedro Franco, Pedro Nava, José Nivaldo Barbosa de Souza,... e muitos outros, antigos e atuais, nacionais e estrangeiros, foram tantos os que atuaram na Medicina e na Literatura que encheriam páginas e páginas. Todos eles foram além de médicos do corpo, pesquisadores da mente do Homem.  Usaram a pena e o papel como instrumentos de trabalho. Nas receitas tratando doenças, na literatura escrevendo tratados, desvendando segredos da matéria e da alma humana.   Médicos e escritores desenvolveram as atividades de acordo com suas vocações e sensibilidades. Para alguns, quando a crueza da matéria machucava, a ideia de sublimar as dores através das palavras se aguçava, assim era mais fácil entender e suportar as mazelas da nossa frágil natureza. Colocar no papel as suspeitas, as percepções, as determinações e conclusões, distanciava sentimentos, amenizava sofrimentos. Dizem que Guimarães Rosa era tão sensível que não suportava ver as dores do seu semelhante, passou então a descrevê-las, como uma forma de sublimá-las. Chegou a dizer que de fato para médico não tinha queda, preferia as letras, talvez por serem mais facilmente manipuladas.  Outros há como o Dr. Dráuzio Varela, que de uma forma moderna e inteligente, numa fala mansa, profissional, dá o recado seguro a uma população que preferencialmente vê TV.
A Ciência e a literatura desde sempre andam a par. São pontos de vista diferentes que se fundem na percepção do médico-escritor. Vence a que tiver mais repercussão no espírito do interlocutor.  O Homem e seu destino como alvos da pesquisa e da Ciência ou os sentimentos Dele transplantados em ensaios, contos, histórias, poemas, como fonte inspiradora. 
Como aqueles que fazem de tudo um pouco, e que em certo tempo da vida, já mais acomodados, encontram na escrita uma fonte de prazer ou uma forma de viver, deixo as sugestivas palavras do Dr. José Nivaldo :
“Não tenho medo da morte, mas faço de tudo que é possível para ir vivendo, inclusive escrever...”.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 04/01/13

                            UM DIA SEM NOITE
Da janela do quarto, que dava para a rua, os sons da noite chegavam como uma alegoria.  Podia até identificar os donos daqueles passos, noctâmbulos que na escuridão se mostravam tão perceptíveis. Era o fatigado, lento, arrastando os sapatos. O apressado, com passos rápidos, tirando das pedras de calçamento antigo um som metálico, alto. Vez por outra, vozes sussurradas, denunciavam a passagem de um casal. Ela num tic-tac de salto alto, miúdo, rápido, tentando acompanhar o passo largo e cadenciado do companheiro.  Ou então era o descompasso, o vozerio irreverente de algum cachaceiro que cambaleante atravessava a rua. Inquieta, na cama, procurava relaxar, descansar, esquecer as tribulações que agitavam meu espírito.  
Fora um dia cansativo, triste, daqueles que a gente quer logo esquecer. Após atender as pacientes agendadas, prestes a ir embora para casa, chegou da roça Marta, uma jovem mulher, mãe de uma menina que há anos trás havia nascido comigo. Pálida, tonta, suando frio, queixava-se de dores no baixo-ventre e hemorragia.  Ali mesmo no ambulatório fiz o diagnóstico. Estava em choque, era um descolamento de placenta de feto morto. Internei-a e mediquei-a urgente.
Apesar dos procedimentos de praxe, das medicações, soros e transfusões sanguíneas, Marta não resistiu. Não sabia que estava grávida e longe, na fazenda, não valorizou os sintomas que se apresentavam há dias. Quando resolveu procurar ajuda o processo de coagulação intravascular disseminado já havia tomado conta do seu organismo. Fiquei arrasada. Suas queixas e aflição não saiam do meu pensamento. Custei a arranjar forças para dar a triste notícia à família.
Já era muito tarde quando voltei para casa.  Todos dormiam. Tomei um banho, bebi um copo de leite e fui para cama, inutilmente. O relógio da matriz deu meia-noite, uma hora, duas horas,... E eu ali, me virando e revirando, tentando ignorar as inquietações, ouvindo os barulhos da noite. Eram os transeuntes que passavam, os gatos que miavam, escandalosos nos telhados como carpideiras chorando um defunto. Os cães, atentos aos menores barulhos ou movimentos, latiam insistentes, lembrando que estávamos numa pacata cidade do interior. Era cerca de 5h da madrugada, quando os galos começaram a cantar, anunciavam o nascer de um novo dia. O telefone tocou. Atendi, cansada, com a voz pastosa, corpo moído, a enfermeira da maternidade. Era mais um bebê que estava prestes a chegar a este louco mundo. Tinha que me apressar, a mãe, multípara na sua  sexta gravidez, era boa “parideira”, se eu não corresse a criança não me esperaria...
Apressada, troquei de roupa, acordei as crianças para a escola, e saí de carro para o hospital, que ficava a poucas quadras de casa. Cheguei a tempo de aparar a Maria Eduarda, que abrindo os pulmões, num grito vigoroso, deu boas vindas à vida.  Era mais um dia, sem noite, que começava, mas desta vez de alegria.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 03/01/13
 

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