quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

memórias lusófonas retorno de Dulce Maria Cardoso

in diálogos lusófonos



  • Memórias Lusófonas

  • "O Retorno" de Dulce Maria Cardoso entre os melhores livros de 2012 no Brasil

    Por Agência Lusa, publicado em 28 Dez 2012
  • Dulce Maria Cardoso
O livro "O Retorno", da portuguesa Dulce Maria Cardoso, lançado em 2012 no Brasil, entrou para a lista dos melhores livros de 2012, na seleção do jornal brasileiro O Globo.
A seleção anual, feita pela equipa do suplemento literário de O Globo, apresenta 15 títulos, que incluem obras de ficção e não-ficção de autores brasileiros e estrangeiros.
Entre os brasileiros estão "Solidão Continental", de João Gilberto Noll, "Formas do Nada", do poeta Paulo Henrique Britto, "Um útero é do tamanho de um punho", de Angélica Freitas, e "Barba Ensopada de Sangue", de Daniel Galera.
Além do livro de Dulce Maria Cardoso, apenas três títulos não são de autores brasileiros.
A norte-americana Jennifer Egan, com "A visita cruel do tempo", o poeta sírio Adonis, com a coletânea "Poemas", e o britânico Julian Barnes com "O Sentido de um fim" são os outros autores estrangeiros incluídos na seleção do jornal.
"O Retorno", editado pela Tinta da China, foi lançado no Brasil em julho passado, durante a participação de Dulce Maria Cardoso na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

*Este artigo foi escrito ao  abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela agência Lusa


http://www.ionline.pt/portugal/retorno-dulce-maria-cardoso-entre-os-melhores-livros-2012-no-brasil


O Retorno - Dulce Maria Cardoso, por Andreia Moreira

Publicado por copyright texto: Andreia Moreira


Tenho quinze anos. O meu pai foi levado, de mãos presas atrás das costas, por um grupo de homens armados. Nada pude. Parto amanhã com a minha irmã e a minha mãe, para um país que desconheço, onde teimam afirmar que retorno. Nunca mais volto a esta terra quente, que é a minha. Deixamos cá tudo. Até a Pirata. Não sei se, se apercebeu que era para sempre que partíamos. Correu tanto atrás de nós…
Inimaginável? Aconteceu em 1975 a muitas famílias portuguesas, aquando da descolonização. A escritora, Dulce Maria Cardoso (1964), viveu esses amargos dias e veio agora, contar-nos uma versão da história (não a sua) pela voz de Rui. Miúdo expedito e travesso que relata o que lhe acontece com uma leveza crua que magoa. Sai de Angola rapaz, chega a Portugal chefe de família. Rui, Milucha e dona Glória são encaminhados pelo IARN – Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais – para um hotel de cinco estrelas no Estoril. Um edifício de luxo a abarrotar de pessoas desoladas, onde tem de dividir o quarto com as duas mulheres, célere se transforma em prisão que asfixia Rui.
Repete amiúde, talvez para se consolar: «Um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa.»
Faltavam-lhe o pai, os melhores amigos Lee e Gégé, a cadela Pirata, inclusive as vizinhas coscuvilheiras que maldiziam a mãe. As referências de outrora foram-lhe arrancadas à pressa e não houve tempo para se habituar ao frio, ou às pessoas que os acolheram desconfiadas. Algumas hostis. Era, todavia, tão vulnerável quanto resiliente e acompanhamos o seu recomeçar ao longo do período, que excedeu 365 dias, em que se encontrou naquelas circunstâncias. Cruzamo-nos com novos amigos, com pessoas que o intrigam, com as paixões que alimenta. Somos cúmplices nas transgressões. Na inocência também. Ouvimos-lhe o léxico à moda de lá. - Geleira, cacimbo, ginga-ginga, dar maca, são exemplos. - Conhecemos os hábitos que os desterrados trouxeram procurando, como podiam, reproduzi-los em parcos metros quadrados. Ser-vos-ão apresentadas inúmeras personagens. Apaixonante(s). Trata-se de viagem no tempo. Estamos em 1975. Temos quinze anos. Escrita magistral de quem sabe sair de si e ver pelos olhos de outrem.
O Retorno (Tinta-da-China, 2011) é livro imperdível para se saber mais sobre a história recente de Portugal. Despido de juízos de valor, ou preconceitos. Testemunho de sobrevivência ao sofrimento, à maldade, à violência, ao medo, na perda maior de uma (tantas) existência(s).

http://www.geracao-c.com/conteudo.aspx?lang=pt&id_object=7453&name=O-Retorno---Dulce-Maria-Cardoso,-por-Andreia-Moreira

Sem comentários:

Enviar um comentário