quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

OSVALDO CABRAL O JORNALISMO HOJE

OSVALDO CABRAL, JORNALISTA

Jornalistas têm de se unir
e falar a uma só voz


O jornalista Osvaldo Cabral defende que a comunicação social açoriana tem que refletir em conjunto e unir-se nas reivindicações para ultrapassar a crise, caso contrário, o setor ficará fragilizado.
A comunicação social privada nos Açores vive tempos difíceis. "A União" encerrou e outros jornais ameaçam fechar, as redações estão reduzidas aos mínimos, as rádios investem cada vez menos na informação... Este ambiente de incerteza, em que os jornalistas estão em condições precárias, está a prejudicar a qualidade da informação?
Claro que está. Menos jornalismo é menos democracia, menos debate de ideias, menos pluralidade. Se há menos jornais e menos jornalistas, se os investimentos são cada vez mais reduzidos, a mobilidade e o poder de intervenção dos jornalistas ficam prejudicados. Logo, a qualidade da informação agrava-se. Basta olhar para as edições dos jornais no último ano ou ouvir as gravações da comunicação social falada para se constatar que nunca foram transcritas tantas notícias da Lusa e do GAGS como agora. Isto é o resultado da falta de recursos profissionais nas redações.

Escreveu recentemente num artigo de opinião que este ambiente que se criou nos últimos anos foi propício a uma espécie de "censura matreira". A liberdade de imprensa nos Açores é uma ilusão? Não é uma ilusão. Existe liberdade de imprensa nos Açores, mas é uma liberdade condicionada pela falta de recursos. Quando um determinado poder, como é o governo, possui uma poderosa central de distribuição de informação que inunda as redações, em que o trabalho já vem todo feito por ex-jornalistas recrutados nas próprias redações da nossa comunicação social, é muito difícil aos editores recusar tal material. É verdade que os jornais poderiam não publicar ou aproveitar o material para investigar mais e redigir a notícia com a sua perspetiva, mas a tal falta de recursos obriga as redações a aceitar o que lhes enviam. Os gabinetes que produzam essa informação já perceberam o mecanismo. Daí que estejam proliferados de assessores e conselheiros de comunicação. Crescem como cogumelos. É uma luta desigual. Naturalmente que alguns jornais e jornalistas tentam dar a volta a esta realidade, mas quando as páginas têm que ser preenchidas com notícias e não há recursos suficientes para enchê-las, como se reage?


O que é que deve ser feito e por quem para invertermos este cenário? É uma boa pergunta que devia ser feita aos próprios responsáveis editoriais e aos empresários da comunicação social. O jornalismo nos Açores está muito de costas voltadas. Os seus profissionais não se juntam para refletir, não falam uns com os outros para criarem sinergias, não se associam, pelo que o setor fica mais fragilizado. É importante que a comunicação social açoriana crie uma rede forte entre si, para que possa falar a uma só voz e fortaleça a sua posição junto das instituições a quem deve pedir apoio. O PROMEDIA, por exemplo, devia ser um instrumento de apoio à imprensa muito mais forte e abrangente. Mas se a comunicação social não fizer as suas reivindicações em conjunto, dispersando o seu poder, é lógico que a resposta vai ser consoante o poder de cada um. A imprensa açoriana, que está a enfrentar os mesmos problemas do jornalismo nacional, agravado pela dimensão do nosso mercado, devia juntar-se com regularidade e refletir mais em conjunto. Nestes tempos de crise, precisamos de um jornalismo mais interventivo, mais próximo dos cidadãos, mais crítico e sempre rigoroso. A credibilidade fica mais fortalecida e os leitores agradecem.

Acha que corremos o risco de evoluirmos para uma sociedade sem órgãos de comunicação social?Acho que não. Uma sociedade aberta e moderna jamais dispensará a comunicação social. Os modelos é que se podem alterar. E acho que se estão a alterar com o novo jornalismo. As novas plataformas e os novos hábitos de consumo estão a provocar um novo paradigma no jornalismo tradicional. Se a comunicação social não se adaptar a estes novos tempos, vai ter enormes problemas.

Disse também que a visão romântica do jornalismo foi "esmagada" pelo imediatismo do digital e pelo lucro das empresas. O jornalismo de investigação está condenado?Não está se houver capacidade de resistência por parte dos jornais e jornalistas. O problema, como já descrevi, é que a tal falta de recursos está a retirar tempo, mobilidade e capacidade para a investigação. Nos Açores está praticamente inexistente e a nível nacional muito poucos é que resistem.

As redações começam a exigir os "Mojo" (Mobile journalist), ou seja, jornalistas que produzem para várias plataformas. Isto também vai prejudicar a qualidade da informação? Pois pode prejudicar se o jornalista estiver demasiado pressionado pelos editores e não lhe for dado espaço para um trabalho mais elaborado. O escrever para várias plataformas não é nenhuma desgraça. Até dá mais visibilidade ao jornalista e maior poder de cidadania. Eu passei por vários choques tecnológicos na imprensa açoriana, desde há 35 anos, e soubemos sempre resistir e adaptar aos novos conceitos. Na verdade, sou do tempo em que o jornalista tinha como base apenas o seu talento e uma dedicação exclusiva à notícia para o jornal impresso. Hoje há uma geração diferente. A minha filha, por exemplo, licenciou-se em jornalismo e está no "Expresso", onde escreve a notícia para o jornal, edita-a para a edição on-line, grava som se for caso disso e até imagem em vídeo. É o novo jornalismo. Saber desempenhar os novos modelos com eficácia é importante, porque só assim resta então tempo para a investigação, sem que seja prejudicada pelo imediatismo. Mas como a concorrência é forte, a pressão na redação torna-se imperiosa e isso leva a cometer erros. Veja-se o caso recente do burlão António Baptista, que enganou meio mundo da comunicação social. Ninguém teve tempo para investigar o seu passado.

Como é que vê este passar da batata quente entre Governo da República e Governo Regional sobre o financiamento da RTP-Açores?Lá está. Quanto mais arrastarem o problema, mais prejudicam a qualidade da RTP-Açores. Sem recursos, não se vai a lado nenhum e já vão sendo há muitos anos que estão a retirar recursos ao canal regional. Congratulo-me com o facto da região, finalmente, querer assumir o seu próprio canal. Embora julgando que o processo está a ser muito lento, tenho esperança que nasça um canal regional novo, moderno, assumidamente açoriano, onde todas as ilhas se revejam e que se estenda ao continente e à diáspora. Custa caro, é verdade. Mas a nossa identidade, a nossa cultura e o conhecimento não têm preço.

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