quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

RAMOS HORTA E GUINÉ-BISSAU

DO JORNAL I

Entrevista a Ramos-Horta.“Os nossos irmãos da Guiné-Bissau são vítimas da droga”

Por Sérgio Soares, publicado em 10 Jan 2013 - 11:40 | Actualizado há 31 minutos 16 segundos
“Deus quis que eu sobrevivesse. Mas deixou-me com cicatrizes e algum desconforto, dor permanente, como um pequeno calvário, para o resto da minha vida [...] A vida é tão curta, frágil, porquê desgastar a vida em zangas e ódios?”

DO JORNAL I

Entrevista a Ramos-Horta.“Os nossos irmãos da Guiné-Bissau são vítimas da droga”

Por Sérgio Soares, publicado em 10 Jan 2013 - 11:40 | Actualizado há 31 minutos 16 segundos
“Deus quis que eu sobrevivesse. Mas deixou-me com cicatrizes e algum desconforto, dor permanente, como um pequeno calvário, para o resto da minha vida [...] A vida é tão curta, frágil, porquê desgastar a vida em zangas e ódios?”

O ex-presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, assume em Fevereiro, “com serenidade”, o cargo de representante especial de Ban Ki-Moon na Guiné-Bissau. Uma missão que muitos consideram quase impossível dada a ausência de um Estado forte e funcional no país, que cedeu à influência da corrupção e ao controlo dos traficantes internacionais de droga. Nada que desmotive o Prémio Nobel da Paz, que quer ajudar o país a sair do “ciclo de instabilidade e de não paz” e que considera que a Guiné-Bissau “não é uma causa perdida”.

Acaba de ser escolhido pelo secretário- -geral da ONU para liderar a missão das Nações Unidas na Guiné-Bissau. Os Estados Unidos e muitas organizações internacionais dizem que aquele país já é praticamente um narco-Estado. A sua tarefa não está comprometida à partida?
A produção da droga não é na Guiné-Bissau. O consumo da droga não é na Guiné-Bissau. Portanto a comunidade internacional deve encontrar formas de cercear este mal na origem e no destino. Os nossos irmãos guineenses são afinal vítimas da produção e da comercialização ilícita da droga. Claro, o problema da Guiné-Bissau não está apenas na questão da droga. Ela resulta em parte da crise do Estado e das suas instituições democráticas. Mas a Guiné-Bissau não é a Somália, o Congo, a Síria. Felizmente. Estou convencido que, com boa vontade, um apoio maior da União Europeia e dos Estados Unidos, uma melhor parceria, um maior alinhamento de pensamento e políticas com a União Africana, a CEDEAU e a CPLP, a ONU poderá ter êxito. Não será uma missão fácil. Óbvio que não.
Conhece bem muitos dos actores políticos e militares da Guiné-Bissau. Como avalia o conflito permanente latente no país? É uma questão de rivalidades, ambições pessoais, questões étnicas? E o seu mandato como representante especial do secretário-geral da ONU vai permitir-lhe fazer o quê
no terreno?
Não vou, nem devo, adiantar muito em relação ao que poderei fazer no terreno. Primeiro tenho directivas a ouvir em Nova Iorque, do Departamento de Assuntos Políticos, que gere o dossiê da Guiné-Bissau. Com os meus colegas em Nova Iorque, ouvindo a CEDEAO, a União Africana, a CPLP, a União Europeia, teremos um pensamento comum. Mas acima de tudo serão os nossos irmãos guineenses a dizer e a decidir do seu futuro. A ONU não se substitui aos líderes nacionais.
Parte com apoios internacionais variados, até na própria Guiné-Bissau. Mas dado o passado histórico do país o que o levou a aceitar uma missão em que tantos outros já falharam? Aborrecia-o não exercer nenhum cargo oficial?
Eu já estava plenamente activo com uma nova organização não estatal regional, o Asian Peace and Reconciliation Council (Conselho Asiático para a Paz e a Reconciliação), lançada em Setembro passado e sedeada em Banguecoque, envolvendo líderes muito respeitados de toda a Ásia, vocacionada para o diálogo e a mediação de conflitos na Ásia. Além disso já tinha convites e projectos no Japão, na Alemanha e na Suíça. Tenho também o projecto de um livro/tese sobre a Ásia – “Os Desafios do Século XXI para a Ásia”. Pedi aos meus amigos e colegas do grupo dispensa por um ano e eles anuíram e encorajaram-me a aceitar a missão na Guiné-Bissau. Dada a história de Timor-Leste com a Guiné-Bissau, eu não poderia dizer não a um convite da ONU. Timor-Leste muito deve à ONU e, pela minha experiência, a organização pode ajudar os líderes e o povo da Guiné-Bissau a sair do ciclo de instabilidade, de não paz...
Como sabe, Portugal e a comunidade internacional não reconhecem o governo em exercício em Bissau. Acha que essa situação pode complicar a sua tarefa?
Não. Havemos de encontrar uma solução.
Enquanto Presidente da República condecorou o primeiro-ministro deposto, Carlos Gomes Júnior. Este gesto é agora um obstáculo?
Não o vejo assim.
De que meios dispõe para fazer aplicar as resoluções da ONU e exercer o seu mandato no terreno?
A ONU disponibiliza os recursos humanos e técnicos necessários para cada situação, nem sempre óptimos, mas temos de saber agir e gerir a situação com os recursos que temos e não com os recursos com que sonhamos. Às vezes exagera-se nos recursos, recursos a mais, complicam-se as coisas, passamos demasiado tempo a gerir a situação interna da missão, em vez de prestar atenção à situação no terreno, para a qual fomos mandatados.
Como encara a sua primeira prova de fogo, com as eleições na Guiné-Bissau?
Com serenidade.
Falemos do seu país. Timor-Leste é hoje muito diferente do que era há uma década. Acha que a democracia e as instituições democráticas já estão convenientemente consolidadas?
Há sempre necessidade e espaço para melhorar. As nossas instituições são jovens, logo frágeis. Mas a cultura democrática está enraizada.
Que balanço faz do papel de Portugal desde na independência de Timor-Leste?
Timor-Leste estará para sempre grato e endividado com Portugal, pelo papel central que Portugal desempenhou com coragem e dignidade na acção diplomática. Mas não poderíamos nunca minimizar o papel dos países irmãos, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o Brasil, que foram a nossa retaguarda segura na frente diplomática. Aliás, antes de Portugal pegar a sério na questão de Timor-Leste, e isto só veio a acontecer a partir de 1991, eram esses irmãos da África que cada ano, na ONU e no Movimento dos Não-Alinhados, asseguravam que a questão de Timor-Leste não fosse varrida da agenda internacional.
Em que ponto se encontra o diferendo sobre o petróleo timorense com a Austrália?
Não há propriamente um diferendo entre a Austrália e Timor-Leste nesta matéria. O consórcio de investidores na área do Greater Sunrise é um consórcio multinacional de australianos, americanos, japoneses, etc. O diferendo, para usar a sua expressão, reside apenas em saber qual a melhor tecnologia, a melhor forma de explorar aquela região, se por via de um gasoduto para a costa sul de Timor-Leste, se pelo sistema flutuante (FNLG – Floating Liquidfied Gas). O diálogo está em curso, e as várias partes vão encontrar uma solução técnica e comercial com vantagens para todos.
O petróleo também pode transformar- -se na maldição de Timor-Leste, como aconteceu noutras partes do mundo?
O petróleo e o gás estão a contribuir para a modernização da nossa economia, a redução da pobreza, a melhoria da saúde, da educação, a segurança alimentar. Mas vai levar mais tempo.
O contributo de Portugal para o Orçamento do Estado timorense foi significativo, com incidência no ensino e na difusão da língua e na consolidação das forças armadas. Mas Portugal atravessa uma profunda crise económico-financeira. Em que pé está a promessa de ajuda na compra de dívida portuguesa com verbas do fundo soberano do petróleo?
Houve consenso em Timor-Leste para se investir na dívida soberana, mas houve mudança de governo em Portugal, a vinda da troika a Portugal, houve eleições em Timor-Leste, etc. O que propus na altura seria uma iniciativa conjunta de Timor-Leste com Angola e Brasil para investimos na compra da dívida soberana portuguesa, com vantagem para todos.
Em Timor-Leste, o presidente Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão ensaiaram de certo modo o modelo seguido na Rússia, de alternância de cargos. Isso não foi um sinal de fragilidade das instituições?
Bom… eu já não estou no poder em Timor-Leste.
Como encarou a derrota nas últimas eleições presidenciais? Não achou que era chegada a hora de parar? O que tem feito desde que perdeu essas eleições? Politicamente deixa um legado aos seus sucessores, ou assiste-se a um apagamento da sua passagem pela administração do país?
Ao soar da meia-noite de 19 de Maio de 2012 realizou-se a cerimónia de transferência de poderes do presidente cessante para o novo presidente, seguindo as regras constitucionais, o calendário constitucional, etc. Foi um acto solene, bonito. Legado? Se algum legado fica da minha passagem pela presidência, que seja de uma presidência simples, aberta, acessível, sem arrogância e sem opulência.
Olhando para trás, foi melhor ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro ou presidente? Arrepende-se de alguma coisa que tenha feito ao longo da sua vasta carreira política?
Deus deu-me algumas qualidades, virtudes, uma dose mediana de inteligência. Não me fez um Einstein. Portanto fiz tudo medianamente bem.
Na qualidade de presidente fez em tempos uma afirmação de apoio à China muito contestada, ao declarar que reconhecia “legitimidade à soberania chinesa em relação ao Tibete”. Um Nobel da Paz defender tal ideia causou-lhe alguns amargos de boca? Sente alguma responsabilidade especial por ser Nobel da Paz?
Não esqueçamos que não há um único país no mundo que não reconheça a soberania chinesa sobre o Tibete.
Recentemente disse a um jornal indonésio que a língua portuguesa recupera pouco a pouco a sua força em Timor-Leste, graças ao plano de ensino primário apoiado por Portugal e Brasil. Qual o seu balanço da extensão desse programa?
O português está a ganhar espaço, cada vez mais. Mas o esforço tem de continuar por mais uma ou duas décadas, para que o português ganhe raízes irreversíveis em Timor-Leste.
Como timorense, nos confins da Ásia, como diplomata, qual a sua visão efectiva da CPLP e do seu papel na lusofonia?
Não devemos ver uma língua apenas pela sua influência geopolítica. Língua e identidade, cidadania, história. Timor-Leste formou-se pela colonização portuguesa. Não subestimemos a CPLP – o Brasil, Angola e Moçambique vão emergir como grandes determinantes políticos e económicos dadas as enormes riquezas que possuem. Dentro de 10 a 20 anos, estes três países influenciarão as suas regiões de forma determinante, portanto a CPLP no seu todo sairá reforçada.
A sua longa carreira política granjeou-lhe seguramente amigos e inimigos. No deve-haver destes dois grupos, qual é o mais numeroso?
Por mim não tenho inimigos. Aos que porventura digam que sou seu inimigo responderei são meus irmãos! Se lhes fiz mal, rogo o seu perdão, pois sou um simples ser humano que peca e falha. Cristo ensinou-nos a amar e amar significa saber perdoar os que nos fazem mal. A vida é tão curta, frágil... Porquê desgastá-la em zangas, ódios?
Que memórias ainda retém do atentado que sofreu em 2008?
Deus quis que eu sobrevivesse, mas deixou-me com cicatrizes e algum desconforto, dor permanente, como um pequeno calvário permanente, para o resto da vida. Levo essa dor todos os dias, agradecendo a Deus por me ter dado a vida, por me impor esse sofrimento, para melhor saber apreciar a dádiva da vida.


O ex-presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, assume em Fevereiro, “com serenidade”, o cargo de representante especial de Ban Ki-Moon na Guiné-Bissau. Uma missão que muitos consideram quase impossível dada a ausência de um Estado forte e funcional no país, que cedeu à influência da corrupção e ao controlo dos traficantes internacionais de droga. Nada que desmotive o Prémio Nobel da Paz, que quer ajudar o país a sair do “ciclo de instabilidade e de não paz” e que considera que a Guiné-Bissau “não é uma causa perdida”.

Acaba de ser escolhido pelo secretário- -geral da ONU para liderar a missão das Nações Unidas na Guiné-Bissau. Os Estados Unidos e muitas organizações internacionais dizem que aquele país já é praticamente um narco-Estado. A sua tarefa não está comprometida à partida?
A produção da droga não é na Guiné-Bissau. O consumo da droga não é na Guiné-Bissau. Portanto a comunidade internacional deve encontrar formas de cercear este mal na origem e no destino. Os nossos irmãos guineenses são afinal vítimas da produção e da comercialização ilícita da droga. Claro, o problema da Guiné-Bissau não está apenas na questão da droga. Ela resulta em parte da crise do Estado e das suas instituições democráticas. Mas a Guiné-Bissau não é a Somália, o Congo, a Síria. Felizmente. Estou convencido que, com boa vontade, um apoio maior da União Europeia e dos Estados Unidos, uma melhor parceria, um maior alinhamento de pensamento e políticas com a União Africana, a CEDEAU e a CPLP, a ONU poderá ter êxito. Não será uma missão fácil. Óbvio que não.
Conhece bem muitos dos actores políticos e militares da Guiné-Bissau. Como avalia o conflito permanente latente no país? É uma questão de rivalidades, ambições pessoais, questões étnicas? E o seu mandato como representante especial do secretário-geral da ONU vai permitir-lhe fazer o quê
no terreno?
Não vou, nem devo, adiantar muito em relação ao que poderei fazer no terreno. Primeiro tenho directivas a ouvir em Nova Iorque, do Departamento de Assuntos Políticos, que gere o dossiê da Guiné-Bissau. Com os meus colegas em Nova Iorque, ouvindo a CEDEAO, a União Africana, a CPLP, a União Europeia, teremos um pensamento comum. Mas acima de tudo serão os nossos irmãos guineenses a dizer e a decidir do seu futuro. A ONU não se substitui aos líderes nacionais.
Parte com apoios internacionais variados, até na própria Guiné-Bissau. Mas dado o passado histórico do país o que o levou a aceitar uma missão em que tantos outros já falharam? Aborrecia-o não exercer nenhum cargo oficial?
Eu já estava plenamente activo com uma nova organização não estatal regional, o Asian Peace and Reconciliation Council (Conselho Asiático para a Paz e a Reconciliação), lançada em Setembro passado e sedeada em Banguecoque, envolvendo líderes muito respeitados de toda a Ásia, vocacionada para o diálogo e a mediação de conflitos na Ásia. Além disso já tinha convites e projectos no Japão, na Alemanha e na Suíça. Tenho também o projecto de um livro/tese sobre a Ásia – “Os Desafios do Século XXI para a Ásia”. Pedi aos meus amigos e colegas do grupo dispensa por um ano e eles anuíram e encorajaram-me a aceitar a missão na Guiné-Bissau. Dada a história de Timor-Leste com a Guiné-Bissau, eu não poderia dizer não a um convite da ONU. Timor-Leste muito deve à ONU e, pela minha experiência, a organização pode ajudar os líderes e o povo da Guiné-Bissau a sair do ciclo de instabilidade, de não paz...
Como sabe, Portugal e a comunidade internacional não reconhecem o governo em exercício em Bissau. Acha que essa situação pode complicar a sua tarefa?
Não. Havemos de encontrar uma solução.
Enquanto Presidente da República condecorou o primeiro-ministro deposto, Carlos Gomes Júnior. Este gesto é agora um obstáculo?
Não o vejo assim.
De que meios dispõe para fazer aplicar as resoluções da ONU e exercer o seu mandato no terreno?
A ONU disponibiliza os recursos humanos e técnicos necessários para cada situação, nem sempre óptimos, mas temos de saber agir e gerir a situação com os recursos que temos e não com os recursos com que sonhamos. Às vezes exagera-se nos recursos, recursos a mais, complicam-se as coisas, passamos demasiado tempo a gerir a situação interna da missão, em vez de prestar atenção à situação no terreno, para a qual fomos mandatados.
Como encara a sua primeira prova de fogo, com as eleições na Guiné-Bissau?
Com serenidade.
Falemos do seu país. Timor-Leste é hoje muito diferente do que era há uma década. Acha que a democracia e as instituições democráticas já estão convenientemente consolidadas?
Há sempre necessidade e espaço para melhorar. As nossas instituições são jovens, logo frágeis. Mas a cultura democrática está enraizada.
Que balanço faz do papel de Portugal desde na independência de Timor-Leste?
Timor-Leste estará para sempre grato e endividado com Portugal, pelo papel central que Portugal desempenhou com coragem e dignidade na acção diplomática. Mas não poderíamos nunca minimizar o papel dos países irmãos, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o Brasil, que foram a nossa retaguarda segura na frente diplomática. Aliás, antes de Portugal pegar a sério na questão de Timor-Leste, e isto só veio a acontecer a partir de 1991, eram esses irmãos da África que cada ano, na ONU e no Movimento dos Não-Alinhados, asseguravam que a questão de Timor-Leste não fosse varrida da agenda internacional.
Em que ponto se encontra o diferendo sobre o petróleo timorense com a Austrália?
Não há propriamente um diferendo entre a Austrália e Timor-Leste nesta matéria. O consórcio de investidores na área do Greater Sunrise é um consórcio multinacional de australianos, americanos, japoneses, etc. O diferendo, para usar a sua expressão, reside apenas em saber qual a melhor tecnologia, a melhor forma de explorar aquela região, se por via de um gasoduto para a costa sul de Timor-Leste, se pelo sistema flutuante (FNLG – Floating Liquidfied Gas). O diálogo está em curso, e as várias partes vão encontrar uma solução técnica e comercial com vantagens para todos.
O petróleo também pode transformar- -se na maldição de Timor-Leste, como aconteceu noutras partes do mundo?
O petróleo e o gás estão a contribuir para a modernização da nossa economia, a redução da pobreza, a melhoria da saúde, da educação, a segurança alimentar. Mas vai levar mais tempo.
O contributo de Portugal para o Orçamento do Estado timorense foi significativo, com incidência no ensino e na difusão da língua e na consolidação das forças armadas. Mas Portugal atravessa uma profunda crise económico-financeira. Em que pé está a promessa de ajuda na compra de dívida portuguesa com verbas do fundo soberano do petróleo?
Houve consenso em Timor-Leste para se investir na dívida soberana, mas houve mudança de governo em Portugal, a vinda da troika a Portugal, houve eleições em Timor-Leste, etc. O que propus na altura seria uma iniciativa conjunta de Timor-Leste com Angola e Brasil para investimos na compra da dívida soberana portuguesa, com vantagem para todos.
Em Timor-Leste, o presidente Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão ensaiaram de certo modo o modelo seguido na Rússia, de alternância de cargos. Isso não foi um sinal de fragilidade das instituições?
Bom… eu já não estou no poder em Timor-Leste.
Como encarou a derrota nas últimas eleições presidenciais? Não achou que era chegada a hora de parar? O que tem feito desde que perdeu essas eleições? Politicamente deixa um legado aos seus sucessores, ou assiste-se a um apagamento da sua passagem pela administração do país?
Ao soar da meia-noite de 19 de Maio de 2012 realizou-se a cerimónia de transferência de poderes do presidente cessante para o novo presidente, seguindo as regras constitucionais, o calendário constitucional, etc. Foi um acto solene, bonito. Legado? Se algum legado fica da minha passagem pela presidência, que seja de uma presidência simples, aberta, acessível, sem arrogância e sem opulência.
Olhando para trás, foi melhor ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro ou presidente? Arrepende-se de alguma coisa que tenha feito ao longo da sua vasta carreira política?
Deus deu-me algumas qualidades, virtudes, uma dose mediana de inteligência. Não me fez um Einstein. Portanto fiz tudo medianamente bem.
Na qualidade de presidente fez em tempos uma afirmação de apoio à China muito contestada, ao declarar que reconhecia “legitimidade à soberania chinesa em relação ao Tibete”. Um Nobel da Paz defender tal ideia causou-lhe alguns amargos de boca? Sente alguma responsabilidade especial por ser Nobel da Paz?
Não esqueçamos que não há um único país no mundo que não reconheça a soberania chinesa sobre o Tibete.
Recentemente disse a um jornal indonésio que a língua portuguesa recupera pouco a pouco a sua força em Timor-Leste, graças ao plano de ensino primário apoiado por Portugal e Brasil. Qual o seu balanço da extensão desse programa?
O português está a ganhar espaço, cada vez mais. Mas o esforço tem de continuar por mais uma ou duas décadas, para que o português ganhe raízes irreversíveis em Timor-Leste.
Como timorense, nos confins da Ásia, como diplomata, qual a sua visão efectiva da CPLP e do seu papel na lusofonia?
Não devemos ver uma língua apenas pela sua influência geopolítica. Língua e identidade, cidadania, história. Timor-Leste formou-se pela colonização portuguesa. Não subestimemos a CPLP – o Brasil, Angola e Moçambique vão emergir como grandes determinantes políticos e económicos dadas as enormes riquezas que possuem. Dentro de 10 a 20 anos, estes três países influenciarão as suas regiões de forma determinante, portanto a CPLP no seu todo sairá reforçada.
A sua longa carreira política granjeou-lhe seguramente amigos e inimigos. No deve-haver destes dois grupos, qual é o mais numeroso?
Por mim não tenho inimigos. Aos que porventura digam que sou seu inimigo responderei são meus irmãos! Se lhes fiz mal, rogo o seu perdão, pois sou um simples ser humano que peca e falha. Cristo ensinou-nos a amar e amar significa saber perdoar os que nos fazem mal. A vida é tão curta, frágil... Porquê desgastá-la em zangas, ódios?
Que memórias ainda retém do atentado que sofreu em 2008?
Deus quis que eu sobrevivesse, mas deixou-me com cicatrizes e algum desconforto, dor permanente, como um pequeno calvário permanente, para o resto da vida. Levo essa dor todos os dias, agradecendo a Deus por me ter dado a vida, por me impor esse sofrimento, para melhor saber apreciar a dádiva da vida.

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