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sábado, 2 de março de 2013

curtas-metragens


Este e-mail é um pedido de informações enviado pelo site http://lusofonias.net/ de:
Global Dialogues <globaldialogues.lusofonos@gmail.com>

Exmos Senhores,
Venho por este meio solicitar a divulgação do concurso de ideias para curtas-metragens denominado Global Dialogues, do qual sou coordenador para o espaço lusófono.
Para melhor compreender em que consiste aqui fica uma breve história:
A Global Dialogues é uma organização sem fins lucrativos que, em 1997, lançou o projecto 1997 SCENARIOS FROM THE SAHEL, inspirando-se em "3 000 Cenários Contra um Vírus", projecto implementado em França, entre 1992 e 1994, pela CRIPS e seus parceiros. Posteriormente, o projecto passar-se-ia a chamar SCENARIOS FROM AFRICA (Histórias de África). Os jovens de menos de 25 anos participaram num concurso que os convidava a desenvolver ideias para curtas-metragens sobre o VIH/SIDA. As ideias vencedoras foram, posteriormente, trabalhadas por realizadores de fama internacional, o que resultou na produção de uma colecção crescente de curtas-metragens. Entre 1997-2012, mais de 150 000 jovens, de cerca de 50 países africanos, participaram nos concursos, levados a cabo pela Global Dialogues.
Este ano, pela primeira vez, o concurso realiza-se a nível mundial, e pretende envolver os jovens em actividades inovadoras e participativas, destinadas a estimular e amplificar a voz da juventude. Como? Através de concursos internacionais, os jovens expressam-se ao criarem histórias ou narrativas, sobre questões de saúde globais ou outros tópicos de importância crucial para o nosso mundo. Posteriormente, através de uma colaboração criativa ou, como gostamos de dizer, da criatividade partilhada, as histórias dos jovens ganham vida como filmes ou representações teatrais da Global Dialogues, disponibilizados em várias línguas e distribuídos gratuitamente, a nível comunitário, na Internet e via televisão, alcançando centenas de milhões de pessoas, todos os anos.
Qual é o objectivo?
A criação de um novo conhecimento sobre as perspectivas dos jovens, através da investigação narrativa. As histórias criadas pelos jovens, nas actividades da Global Dialogues, são sistematicamente analisadas, para obter uma visão dos pensamentos e sentimentos, preocupações e sonhos, desafios e soluções dos jovens.
As produções artísticas da Global Dialogues, bem como o novo conhecimento obtido a partir da análise narrativa, são aplicados para melhorar políticas e programas, a vários níveis.
Em todas as suas actividades, a equipa da Global Dialogues esforça-se por cultivar a empatia, a compaixão e a união na diversidade.
Para conhecerem melhor este projecto e os frutos que já deu, podem consultar o site Global Dialogues em:
http://globaldialogues.org/portugues/
Podem ainda visualizar as curtas-metragens já realizadas, dobradas e legendadas em várias línguas, incluindo o Português, em:
http://www.youtube.com/globaldialogues
O que vos pedimos é o seguinte:
1 - que divulguem esta iniciativa e convidem o maior número de jovens dos países lusófonos a participar no concurso, que decorre até dia 10 de abril de 2013.
2 - partilhem connosco contactos de professores, escolas, associações que trabalhem com jovens, etc. de todos os países lusófonos, para os quais possamos enviar informação.
O email para contacto é:
globaldialogues.lusofonos@gmail.com
3 - façam igualmente like à nossa página do Facebook- Global Dialogues Lusófonos - e partilhem as informações e actividades que forem sendo publicadas. (http://www.facebook.com/pages/Global-Dialogues-Lus%C3%B3fonos/534025786630652?ref=hl)
 
Fico disponível para mais informações
Com os melhores cumprimentos,
José Almeida


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Moçambicano defende Lusofonia

Texto em português mais em baixo

Dear Friends of the Lusophone Society of Goa

We have just published an exclusive Interview with Emídio Josíne, a young Mozambican artist.

Mozambican artists
Emídio Josíne, a young Mozambican artist, in an exclusive interview to Lusophone Society of Goa: “It is necessary that each of us feels responsible for Lusophony”.
About the Mozambican cinema Josíne says “making movies in Mozambique is not easy". Please read the complete interview here

Kind regards from Goa
Lusophone Society of Goa (LSG) - Sociedade Lusófona de Goa
___________________________________________________________

Caros amigos da Sociedade Lusófona de Goa

Acabámos de publicar uma entrevista com o jovem artista moçambicano Emídio Josíne

Artistas moçambicanos
Emídio Josíne, jovem artista moçambicano, em entrevista exclusiva para a Sociedade Lusófona de Goa: “É preciso que cada um de nós se sinta responsável pela Lusofonia”
Sobre o cinema moçambicano Josine diz que fazer filmes em Moçambique não é fácil.
Leia a entrevista completa aqui

Saudações cordiais desde Goa
Lusophone Society of Goa (LSG) - Sociedade Lusófona de Goa

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

para acabar com a lusofonia 4


QUINTA-FEIRA, 7 DE FEVEREIRO DE 2013

Resposta à Resposta de António Pinto Ribeiro: "Ainda a Lusofonia"



António Pinto Ribeiro e a “esquerda” anti-lusófona

O Senhor António Pinto Ribeiro (APR) entendeu responder-me (“Para acabar de vez com a lusofonia”?!, PÚBLICO, 02.02.13) com um texto (07.02.13) onde, persistindo nalguns equívocos grotescos, faz ainda algumas alegações absurdas – quer sobre a minha pessoa, quer sobre o movimento cultural e cívico a que presido. Daí a necessidade de mais estes esclarecimentos – sobretudo em defesa do bom nome de uma instituição apoiada por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil e que conta já com mais de 20 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono:
1. Acusa-me APR de confundir “língua portuguesa e a suposta cultura lusófona”. Esclarecimento: não confundo; apenas não tenho da língua uma visão estreitamente instrumental; ao invés, defendo, na esteira de muitos outros filósofos, que há uma relação fundante entre língua e cultura – neste caso, entre a língua portuguesa e a cultura lusófona (cultura, como não me canso de reiterar, necessariamente plural e heterogénea, ou, para usar um único termo bem lusófono, “mestiça”).
2. Acusa APR o MIL de ser “nacionalista”. Esclarecimento: o MIL não é “nacionalista”; tem, ao invés, teorizado o conceito de “trans-nacionalismo lusófono”. Absurdo será, de resto, qualificar um movimento que defende o reforço dos laços com os restantes países lusófonos –  no plano cultural, social, económico e político –, prefigurando até, em última instância, uma “União Lusófona”, como um movimento “nacionalista” (qualquer neófito em Filosofia Política compreende isto).
3. Acusa APR o MIL de ser “de direita e nostálgico do império”. Esclarecimento: o MIL não tem qualquer “nostalgia do império” (apenas não renegamos, ao contrário de APR, toda a nossa história, resumindo-a à “expressão da barbárie”), nem somos “de direita”. Pessoalmente, considero até essas categorias completamente ultrapassadas – mas, a usá-las, então direi que no MIL há pessoas mais “de esquerda” (como, por exemplo, o nosso sócio honorário Fernando Dacosta) e mais “de direita” (como, por exemplo, o nosso também sócio honorário Adriano Moreira). Aliás, no seu artigo, para procurar fundamentar a sua alegação, atribui-me uma afirmação que não é minha – mas do meu amigo Miguel Real, Presidente da Assembleia Geral do MIL (um pensador claramente “de esquerda”, para retomar a sua terminologia), extraída (azar dos azares!) de um texto publicado, no início do ano, neste mesmo jornal (“O Sentimento do Nada, a Confiança e a Esperança”, PÚBLICO, 04.01.13). Usando de novo a sua terminologia, tratar-se-á aqui de “excesso de interpretação”, “fantasia”, “má-fé” ou “incompetência” (neste caso, hermenêutica)?
4. Mas prossigamos. Acusa-me APR de, no meu (necessariamente curto) texto, não “citar um único autor africano”, para daí, uma vez mais, fazer deduções abusivas. Basta, para esboroar essas suas deduções, apontar o exemplo da revista semestral que o MIL promove desde 2008: a NOVA ÁGUIA, REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI. Em quase todos os seus números, temos publicado textos de autores africanos. O mesmo acontecerá já no próximo (nº 11), a sair em Março, a respeito do tema “O Mar e a Lusofonia”.
5. Finalmente, acusa APR o MIL de utilizar “uma linguagem bélica contra o Estado e a Europa”. Vamos por partes: o MIL não tem utilizado uma “linguagem bélica contra o Estado” – apenas, tão-só, contra os sucessivos Governos que nos têm (des)governado (ao contrário de APR, não confundimos Governo e Estado; defendemos até que o Estado deve manter, sob seu controle, instrumentos fundamentais de governação, o que cada vez mais tem deixado de acontecer – temos publicamente defendido, por exemplo, que o Estado português deve manter a RTP e a TAP, até para promover as relações com os restantes países e regiões do espaço da lusofonia); quanto à “linguagem bélica contra a Europa”, limitei-me a usar uma expressão sua (“estilhaço”) para caracterizar a situação actual da União Europeia (nas páginas do PÚBLICO, de que sou leitor diário, tenho detectado expressões bem mais “bélicas”).
6. Como no seu texto anterior, só num ponto APR consegue acertar, mas apenas de forma truncada: quando diz que o MIL “fundamenta a sua existência num sonho de Agostinho da Silva”. É verdade que, tal como sonhou Agostinho da Silva (mas não apenas), defendemos a “criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade”. Por isso, defendemos também um “Portugal lusofonamente multicolor” (outro conceito nosso). De resto, bastaria isto para desfazer qualquer confusão entre o MIL e a “direita mais nacionalista”, que, como se sabe, defende, ao invés, um “Portugal branco”, étnica e civilizacionalmente (apenas) europeu – de quem (ironia das ironias!) a “esquerda” anti-lusófona de APR está bem próxima. E, ao invés, bem distante de nós: em diversos locais, já temos sido acusados pela tal “direita mais nacionalista” de querermos um “Portugal de pretos”. O mundo é bem mais complexo do que APR julga.

Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

sábado, 26 de janeiro de 2013

PORTAL DA LUSOFONIA

já visitou o portal dos colóquios da lusofonia? registe-se em www.lusofonias.net e navegue por 19 colóquios da lusofonia e vários países e regiões..

PARA ACABAR COM A LUSOFONIA 4

Exmo. Senhor José Queirós, Provedor do Jornal “Público”

A 18 de Janeiro de 2013, publicou António Pinto Ribeiro, no Suplemento “Ípsilon” (pp. 38-39) do Jornal “Público”, um texto intitulado “Para acabar de vez com a lusofonia”. No dia seguinte, enviei para publicação o texto «“Para acabar de vez com a lusofonia”?! Resposta a António Pinto Ribeiro». O texto foi recebido (tenho prova disso), mas não publicado.
Sei que lhe não cabe tomar posição sobre o teor do(s) texto(s). Apenas lhe pergunto se há alguma directriz editorial no jornal “Público” adversa ao conceito de Lusofonia – pergunta pertinente dado que, sendo o texto citado um veemente manifesto anti-lusófono (que deu azo a várias respostas – suponho que não terei sido o único a ter enviado um texto de resposta para o jornal), não foi dada a possibilidade de qualquer espécie de contraditório a quem defende tal conceito.
Considero mesmo que, face à gravidade do texto em causa – recordo que nele se define a Lusofonia como uma “forma torpe de neo-colonialismo” –, deveria ter ser sido o “Público” a ter tomado a iniciativa de auscultar outras pessoas: aquelas (muitas, algumas bem prestigiadas, como sabe) que, defendendo o conceito de Lusofonia, repudiam por inteiro o epíteto de “neo-colonialistas”. Solicito-lhe, pois, um parecer público sobre esta questão.
Melhores cumprimentos
Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

Ver texto:
http://mil-hafre.blogspot.pt/2013/01/para-acabar-de-vez-com-lusofonia.html

Lurdes deixou um novo comentário na mensagem "Carta enviada ao Provedor do Jornal "Público" - “P...":

Acabar com a Lusofonia! Como? Porquê’
Na verdade há um conjunto de povos em diferentes pontos do planeta que falam esta língua, logo têm também uma identidade lusófona, constituem uma comunidade de falantes do português. O português por seu lado é enriquecido com palavras, escritos, usos e costumes pelo facto de falarmos a mesma língua.
Será que a francofonia não existe?
Com tanto para pensar e transmitir se pensado, perdem-se alguns , com estas pouco congruentes banalidades. Ou será pelo af^/moda que agora grassa em Lisboa de falar inglês! O que somos,?quem somos? Anglofonia????L. 
__________________________
Com o Apoio do MIL
Petição CONTRA O USO ABUSIVO DO TERMO "SOCIEDADE CIVIL" PELO GOVERNO DA REPÚBLICA

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=pasc
__________________________
Terça, 17h, na nossa Sede

29 Janeiro: "A Saudade dos Heróis", de Rodrigo Sobral Cunha

Ver Cartaz:
Excerto da obra:

Prática da Ciência Nova*



GIAMBATTISTA VICO





         Toda esta obra foi raciocinada até agora, porém, como uma mera ciência contemplativa em torno da comum natureza das nações. Parece no entanto falhar por isso mesmo no socorro à prudência humana, ao aplicar-se às nações que vão cair, para que ou não se arruínem completamente, ou não se apressem para a ruína; e em consequência, parece falhar na prática, qual deve ser a de todas as ciências envolvidas em matérias dependentes do arbítrio humano, chamadas “activas”.

Tal prática pode ser dada facilmente dessa contemplação do curso que fazem as nações; advertidos da qual, os sábios das repúblicas e os seus príncipes poderão com boas ordens, leis e exemplos chamar de novo os povos à sua akmé, ou seja, estado perfeito. A prática que podemos dar nós como filósofos pode encerrar-se dentro das academias. E é que nestes tempos humanos, em que havemos nascido, de engenhos agudos e inteligentes, deve aqui, no fim, olhar-se ao revés a figura proposta no princípio[1]; e que as academias com suas seitas de filósofos não secundem a corrupção da seita destes tempos, mas aqueles três princípios sobre os quais se fundou esta Ciência – que são: que se dê providência divina; que, porque se pode, se devem moderar as paixões humanas; e que as nossas almas sejam imortais – e aquele critério de verdade: que se deve respeitar o juízo comum dos homens, ou seja o senso comum do género humano, por quem Deus, que não se deixa desconhecer ainda que das mais perdidas nações, nunca desperta mais forte reflexão nelas do que quando estão mais corruptas. Porque, enquanto os povos estão bem acostumados, obram coisas honestas e justas em vez de falar delas, porque as fazem, mais do que por reflexão, pelos sentidos[2]: mas, quando estão estragados e corruptos, então, porque sofrem mal a falta dessas coisas, não falam de outra coisa além de honestidade e justiça (como naturalmente sucede o homem não falar de nada senão do que finge ser e não é); e, porque sentem resistir-lhes a sua religião (a qual não podem naturalmente desconhecer e renegar), para consolar as suas consciências perdidas, com essa religião, impiamente pios, consagram as suas celeradas e nefandas acções. Donde aqueles dois horrendos fenómenos humanos que se lêem na história de Roma corrupta: um, o de Messalina, que tinha junto do tolo e estúpido Cláudio todas as comodidades, licença e liberdade para desafogar noites inteiras em bacanais a sua insaciável libido, mas, ao mesmo tempo que era casada com o imperador, queria gozar de Gaio Sílio com toda a santidade e celebrações nupciais; o outro, é o de Domício Nero, que envergonhara a majestade do império romano ao actuar como músico nos teatros públicos, e com sacrifícios, augúrios e todas as outras cerimónias divinas quis casar-se perversamente com Pitágoras[3].

Por tudo isto, ensinam os mestres da sabedoria aos jovens como do mundo de Deus e das mentes se desce ao mundo da natureza, para viver uma decente e justa humanidade no mundo das nações. O que quer dizer que as academias[4], com tais princípios e com tal critério de verdade, doutrinam à juventude que a natureza do mundo civil, que é o mundo que foi feito pelos homens, tenha a mesma matéria e a mesma forma que têm esses homens; por isso cada um desses dois princípios, que o compõem, seja da mesma matéria e tenha as mesmas propriedades que têm esse corpo e essa alma racional, cujas duas partes a primeira é a matéria e a segunda é a forma do homem.

As propriedades da matéria são as de ser informe, defeituosa, oscura, preguiçosa, divisível, móvel, “outra”, como Platão lhe chama, ou seja sempre diversa de si; e por todas estas propriedades tem essa matéria esta natureza de ser desordem, confusão e caos, ávida de destruir todas as formas. As propriedades da forma são as de ser perfeição, luminosa, activa, indivisível, constante, ou seja, quanto mais pode, esforça-se por persistir no seu estado, no qual é (que é aquele que Platão costuma chamar “o mesmo”); por cujas propriedades a natureza da forma do homem é ser ordem, luz, vida, harmonia e beleza.

Por conseguinte, a matéria (que é o corpo do mundo das nações), pela propriedade de ser informe, são os homens que não têm nem decisão própria nem virtude; pela propriedade de ser defeituosa, são os homens viciosos, porque todos os vícios não são senão defeitos; pela propriedade da obscuridade, são os homens que descuram, não só a glória (que é uma grande e estrondosa luz), como até o louvor (que é uma luz quieta e pequena); pela propriedade de ser preguiçosa e indolente, são todos os mandriões, delicados, moles e dissolutos; pela divisibilidade, são os homens que não perseguem senão as suas próprias utilidades particulares (as quais dividem os homens) e os prazeres corporais, ou seja os gostos dos sentidos (que são tantos quantos os homens); pela mobilidade, são todos os homens estultos, que se arrependem sempre, nunca estão contentes com o mesmo, sempre amam e aparentam novidades (que, numa palavra, se chama “vulgo”, do qual é aditivo perpétuo ser “móvel”[5]); pela desordem e a confusão, são os homens que, por todas estas propriedades da matéria, reduziriam, pelo que lhes concerne, o mundo das nações ao caos dos poetas teólogos (estado que achámos nós ser o da confusão das sementes humanas), e em consequência levando à nefária vida bestial, quando esta terra era uma infame selva de bestas.

Pelo contrário, a forma e mente deste mundo das nações, pela propriedade de ser perfeição, são os homens que podem aconselhar-se e defender-se a eles próprios e aos outros, que são os sábios e os fortes; pela actividade, são os homens industriosos e diligentes; pela propriedade de ser luminosa, são os homens que se adornam privadamente de louvor e publicamente de glória; pela indivisibilidade, são os homens que em cada uma das suas acções ou profissões se ocupam com todo o poder e com toda a propriedade: o cavaleiro nas artes cavalheirescas, o literato no estudo das ciências, o político nas práticas da corte, cada artesão na sua arte; pela constância, são os homens sérios e graves; pela propriedade de ser “o mesmo”, são os homens uniformes, circunspectos, convenientes e decorosos; e enfim, por aquelas de ser ordem, beleza e harmonia, são os homens que, cumprindo cada um os deveres de sua própria ordem, concorrem para a harmonia e a beleza das repúblicas e, com todas estas belas virtudes civis, se esforçam por conservar os Estados. Não podendo eles celebrar esse esforço pela sua débil natureza corrupta, dispôs a providência ordens tais às coisas humanas, que eles promovam as religiões e as leis assistidas pela força das armas. Esta força começou entre os gentios pela força de Júpiter com as religiões, que promoveu o esforço dos poucos gigantes mais robustos a fundar a humanidade. A tal força são os poucos fortes conduzidos por natureza e, em consequência, com prazer, pois que promove neles o esforço, que é conatural aos fortes; e os muito débeis são mantidos dentro a despeito, para que não dissolvam a sociedade humana. O que é o espírito de toda esta obra.

Assim, com estes princípios de metafísica descidos à física e a seguir introduzidos pela moral na económica, ou seja na educação dos jovens, sejam eles guiados à boa política e com tal disposição de ânimo passem finalmente à jurisprudência (a qual por isso propusemos na Scienza Nuova prima às Universidades da Europa dever tratar-se com todo o complexo da erudição humana e divina, e, por conseguinte, pomo-la sobre todas as ciências), para que os jovens ao instruir-se, assim dispostos, aprendam a prática desta Ciência, fundada nesta lei eterna, que pôs a providência no mundo das nações: que estão a salvo, florescem e são felizes, quando nelas o corpo serve e a mente comanda; e assim mostrar-lhes a verdadeira encruzilhada de Hércules (o qual fundou todas as nações gentias): se queremos entrar na via do prazer com vileza, desprezo e escravidão para eles e para as suas nações, ou na via da virtude com honra, glória e felicidade.






* Texto escrito no verão de 1731, precedendo de perto o De mente heroica e inicialmente destinado ao final da Ciência Nova, mas depois excluído por Vico da redacção definitiva da sua obra maior. Publicado por Fausto Nicolini em apêndice desta (1953), aqui se expõe, tanto quanto saibamos, pela primeira vez em língua portuguesa. Em nota segue uma ou outra observação nossa complementar.


[1] O frontispício ou, como diz Vico, a “pintura hieroglífica” da Ciência Nova.


[2] Dir-se-ia hoje: por instinto.


[3] Tácito, Ann., XI, 25; XV, 37; Suetónio, Nero, 29.


[4] O que inclui também as instituições culturais em geral, a cultura lato sensu, mas sobretudo os representantes da alta cultura.


[5]Mob” designa, entre os ingleses, o vulgo, a multidão, “the mob”.


--
MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO
Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 20 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por 90 pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; IBAN: PT50 0036 0283 9910 0034 5218 5; BIC: MPIOPTPL; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

para acabar com a lusofonia 3

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

Carta enviada ao Provedor do Jornal "Público" - “Para acabar de vez com a lusofonia”?! Resposta a António Pinto Ribeiro



Exmo. Senhor José Queirós, Provedor do Jornal “Público”


A 18 de Janeiro de 2013, publicou António Pinto Ribeiro, no Suplemento “Ípsilon” (pp. 38-39) do Jornal “Público”, um texto intitulado “Para acabar de vez com a lusofonia”. No dia seguinte, enviei para publicação o texto «“Para acabar de vez com a lusofonia”?! Resposta a António Pinto Ribeiro». O texto foi recebido (tenho prova disso), mas não publicado.

Sei que lhe não cabe tomar posição sobre o teor do(s) texto(s). Apenas lhe pergunto se há alguma directriz editorial no jornal “Público” adversa ao conceito de Lusofonia – pergunta pertinente dado que, sendo o texto citado um veemente manifesto anti-lusófono (que deu azo a várias respostas – suponho que não terei sido o único a ter enviado um texto de resposta para o jornal), não foi dada a possibilidade de qualquer espécie de contraditório a quem defende tal conceito.

Considero mesmo que, face à gravidade do texto em causa – recordo que nele se define a Lusofonia como uma “forma torpe de neo-colonialismo” –, deveria ter ser sido o “Público” a ter tomado a iniciativa de auscultar outras pessoas: aquelas (muitas, algumas bem prestigiadas, como sabe) que, defendendo o conceito de Lusofonia, repudiam por inteiro o epíteto de “neo-colonialistas”. Solicito-lhe, pois, um parecer público sobre esta questão.

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A 18 de Janeiro de 2013, publicou António Pinto Ribeiro (APR), no Suplemento “Ípsilon” (pp. 38-39) do Jornal “Público”, um texto intitulado “Para acabar de vez com a lusofonia”, que, alegadamente, tem sido “alimentada pela esquerda mais retrógrada e pela direita mais nacionalista e nostálgica do império”.
No seu manifesto anti-lusófono, APR consegue até a proeza de apresentar o Ultimato Inglês de 1890 com um acto anti-colonialista – quando se tratou, tão-só, da afirmação (vitoriosa) do colonialismo inglês sobre o colonialismo português –, isto para além de caricaturar o pensamento de Gilberto Freyre (que, alegadamente, “nunca vira sinais de tensão no multi-racialismo”) e de diabolizar a colonização portuguesa, como se a “expressão da barbárie” tivesse sido a sua única face.
Tudo isto para concluir que a lusofonia é um “logro”, uma “forma torpe de neo-colonialismo”, a “última marca de um império que já não existe”. Tal virulência “argumentativa” só se destina, porém, aos portugueses – já que, alegadamente, “os portugueses valorizam-na [a lusofonia], os africanos rejeitam-na”. Na sua virulência sectária, APR acaba pois por atirar sobre si próprio, renegando-se como português.
Para o evitar, ainda que correndo o risco das generalizações, bastaria salvaguardar que “em geral…”. O problema é que nem sequer isso é verdade. Conforme pode ser confirmado por pessoas que sabem do que falam quando falam de lusofonia (como, por exemplo, o Embaixador Lauro Moreira, que trabalhou longos anos na Missão Brasileira da CPLP: Comunidades dos Países de Língua Portuguesa), esta é cada vez mais valorizada – não só pelos portugueses, mas também pelos africanos dos países de língua oficial portuguesa, não esquecendo o Brasil e Timor-Leste.
Timor-Leste, de resto, é, provavelmente, o país que mais valoriza, para desgosto de APR, a lusofonia. Por razões óbvias: se Timor-Leste conseguiu resistir à ocupação indonésia, mantendo a sua autonomia cultural, e, depois, aceder à independência política, foi, em grande medida, por causa de tão maldita palavra: lusofonia. Não decerto por acaso, as autoridades timorenses fizeram questão de consagrar o português como língua oficial do país, e não o inglês, como pretenderam (e pretendem) a Austrália e outros países anglófonos. A razão é simples: Timor-Leste sabe bem que a lusofonia é a melhor garantia do seu futuro político.
Bastaria o exemplo timorense para afirmar a lusofonia como factor de libertação e não de opressão, como pretende APR. Mas vamos aos PALOPs: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Se, como pretende APR, a língua portuguesa é a memória viva da “violência dos portugueses sobre os africanos”, por que estranha razão nenhum desses países renegou a língua portuguesa como língua oficial? – antes, pelo contrário, tudo têm feito para sedimentar a língua portuguesa em cada um desses países. Será porque continuam a ser “colonialistas”?? Ou serão apenas mosoquistas??? Decerto, não é porque valorizem a lusofonia – já que, não o esquecemos, por uma qualquer “excepcionalidade mítica” que nos transcende, “os africanos rejeitam a lusofonia”.
E passemos ao Brasil – segundo APR, “Lula da Silva, enquanto Presidente do Brasil, estabeleceu parcerias económicas Sul-Sul com a maioria dos países subsarianos. Para esta estratégia, a lusofonia pouco importou”. Para azar de APR, não há muito tempo, o Embaixador brasileiro Jerónimo Moscardo, na insuspeita Fundação Mário Soares, esclareceu precisamente que assim não é, na sua conferência “Agostinho da Silva e a política externa independente do Brasil”. De resto, como APR sabe ou, pelo menos, deveria saber (mas, estranhamente, não refere), Agostinho da Silva foi, em Portugal e no Brasil, onde foi assessor do Presidente Jânio Quadros, o grande prefigurador de uma comunidade de língua portuguesa[1].
Temos plena consciência que há muita gente que, no que concerne à lusofonia, apenas valoriza a dimensão económica. Mas isso, por si só, não desqualifica a lusofonia – também, entre nós, houve muita gente a valorizar a Europa por causa dos famosos “fundos”. Pertinente referência, esta – tanto mais porque APR, falando do “estilhaço da lusofonia”, não fala uma única vez da Europa, do Euro ou da União Europeia. Compreende-se bem porquê tão gritante omissão: é precisamente face ao estilhaço (este sim, real) da União Europeia que cada vez mais portugueses compreendem que foi um colossal erro estratégico termos, durante décadas, desprezado os laços com os restantes povos lusófonos. Isso fragilizou, em muito, a nossa posição no plano global e na própria União Europeia – onde estamos, cada vez mais, numa posição subalterna.
Face ao estilhaço (este sim, igualmente real) da globalização, o que acontecerá naturalmente, por mais que isso desgoste os arautos do pós-modernismo, é que os países se religarão com base naquilo que de historicamente há de mais sólido: as afinidades linguístico-culturais. Nessa medida, também para Portugal a lusofonia é a mais sólida garantia do seu futuro: cultural, económico e político. Não perceber isto é não perceber nada. A lusofonia não é pois uma excrescência do passado mais o fundamento maior do nosso futuro. Um fundamento firme: sem escamotear a violência da colonização portuguesa – não há colonizações não violentas –, a verdade, que pode ser confirmada todos os dias, é que a relação que existe entre o povo português e os outros povos lusófonos não é equiparável à relação que há entre outros povos ex-colonizadores e ex-colonizados. Não perceber isto é não perceber nada. Mesmo nada.
De uma forma paternalista (para não dizer neo-colonialista), APR pretende aconselhar os outros povos lusófonos a renegarem a lusofonia, como se eles não pudessem escolher qual o melhor caminho para o seu próprio futuro – como até APR já percebeu, a lusofonia é, cada vez mais, essa escolha. Daí, de resto, o tom virulento do artigo – se a lusofonia fosse algo assim tão estilhaçado… Apenas num ponto damos razão a APR: “os portugueses não têm nenhum atributo de excepcionalidade mítica”. Ou seja, o nosso futuro enquanto país não está garantido. Mas isso, precisamente, só reforça a importância desse caminho que se cumprirá pela simples mas suficiente razão de que interessa a todos. Como aconteceu no caso timorense. Como, apesar de tudo, acontece com a Guiné-Bissau – se esta tem futuro, é porque há uma Comunidade Lusófona que está disposta a fazer algo (ainda que, até ao momento, não o suficiente). Como acontece também, enfim, com Portugal – no beco sem saída da troika, a Lusofonia é, cada vez mais, a nosso único caminho de futuro. Pena que APR não o perceba.
Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono[2]

www.movimentolusofono.org

Da nossa parte, o que gostaríamos muito de ver desaparecer era a marca de uma arrogância não fundamentada, para que esse Império da prepotência, de uma voz sobre todas as outras, possa por fim, e por favor, deixar de existir.
em resposta ao polémico artigo "Para acabar de vez com a Lusofonia" de António Pinto Ribeiro...

... polémico, porém mal escrito e ainda pior argumentado, surgiram respostas várias (ver abaixo) que, concorde-se com elas ou não, são pelo menos mais honestas nos seus propósitos.

A pergunta que fazemos na 10pt é com quem terá António Pinto Ribeiro falado para poder provar tais afirmações. Do alto da torre de marfim onde muitos intelectuais e pensadores se escondem do mundo, nem sempre, pela distância, o discernimento sobre o povo no seu dia-a-dia se torna nítido. Há que falar com as pessoas, as pessoas mesmo (não só com os tais pensadores) amigo António, antes de sobre elas traçar o início ou o fim seja do que for. 

Da nossa parte, o que gostaríamos muito de ver desaparecer era a marca de uma arrogância não fundamentada, para que esse Império da prepotência, de uma voz sobre todas as outras, possa por fim, e por favor, deixar de existir.


RESPOSTAS AO ARTIGO:

- @[1530202163:2048:Renato Epifânio], "a relação que existe entre o povo português e os outros povos lusófonos não é equiparável à relação que há entre outros povos ex-colonizadores e ex-colonizados. Não perceber isto é não perceber nada. Mesmo nada."
http://mil-hafre.blogspot.pt/2013/01/para-acabar-de-vez-com-lusofonia.html

- @[100000807166395:2048:Alexandre Pomar] (ver também lusofonia 2, 3 e 4), "O essencialismo identitário tem feito muito mal a muitos pensadores..."
http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2013/01/lusofonia.html

- Alcipe, "Um pouco mais de estudo ficava-lhe bem." 
http://timtimnotibet.blogspot.com.br/2013/01/leituras_21.html

- AICL 
http://blog.lusofonias.net/?cat=14


fotografia ©susana neves, projeto "ai Maria"
10pt
em resposta ao polémico artigo "Para acabar de vez com a Lusofonia" de António Pinto Ribeiro...

... polémico, porém mal escrito e ainda pior argumentado, surgiram respostas várias (ver abaixo) que, concorde-se com elas ou não, são pelo menos mais honestas nos seus propósitos.

A pergunta que fazemos na 10pt é com quem terá António Pinto Ribeiro falado para poder provar tais afirmações. Do alto da torre de marfim onde muitos intelectuais e pensadores se escondem do mundo, nem sempre, pela distância, o discernimento sobre o povo no seu dia-a-dia se torna nítido. Há que falar com as pessoas, as pessoas mesmo (não só com os tais pensadores) amigo António, antes de sobre elas traçar o início ou o fim seja do que for.

Da nossa parte, o que gostaríamos muito de ver desaparecer era a marca de uma arrogância não fundamentada, para que esse Império da prepotência, de uma voz sobre todas as outras, possa por fim, e por favor, deixar de existir.


RESPOSTAS AO ARTIGO:

- Renato Epifânio, "a relação que existe entre o povo português e os outros povos lusófonos não é equiparável à relação que há entre outros povos ex-colonizadores e ex-colonizados. Não perceber isto é não perceber nada. Mesmo nada."
http://mil-hafre.blogspot.pt/2013/01/para-acabar-de-vez-com-lusofonia.html

- Alexandre Pomar (ver também lusofonia 2, 3 e 4), "O essencialismo identitário tem feito muito mal a muitos pensadores..."
http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2013/01/lusofonia.html

- Alcipe, "Um pouco mais de estudo ficava-lhe bem."
http://timtimnotibet.blogspot.com.br/2013/01/leituras_21.html

- AICL
http://blog.lusofonias.net/?cat=14
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

lusofonia o futuro

LUSOFONIA A CHANCE DE FUTURO PARA OS PAÍSES LUSÓFONOS
Ontem submergiram às Colonizações das nações e hoje não resistem às das Civilizações
A Hora da Lusofonia está a chegar (3)
António Justo
Não, a Lusofonia não “ é a última marca de um império que já não existe” como quer António Pinto Ribeiro. A construção de biótopos culturais /identidades nacionais não é contraditória à sua afirmação numa supraestrutura capaz de concorrer com outras supraestruturas mundiais.

Uma característica de quem se empenha na nobre tarefa da Lusofonia será, precisamente, através duma fábrica de pensamento, não adiar os problemas para o futuro mas sim encará-los com realismo para se antecipar a ele, numa estratégia de sustentabilidade. É necessário prever-se o perigo para termos a chance de lhe dar solução. Parte-se do status quo para se chegar ao que se deveria ser. Se queremos salvaguardar o bem-estar futuro, urge reformar o presente. A isto estão chamados, com conceitos e projectos concretos, os governos, as empresas, as universidades, as igrejas, os sindicatos, as associações e os cidadãos adultos interessados em construir um mundo adequado à dignidade humana e aos sinais dos tempos. A Lusofonia seria a realização de uma terceira via diferente.

Filosofia desejável para a Lusofonia

A Lusofonia não é nem foi, faz-se. Lusofonia poderá ser uma maneira diferente de ser e estar no mundo. Quer fomentar uma nova maneira de estar no tempo e no espaço, um novo modo de ver, agir e sentir o espaço geográfico-cultural lusófono e seus intervenientes. Essa maneira de estar já foi em parte exercitada, na miscigenação brasileira. A Lusofonia pretende fomentar a via especial dos povos lusófonos; uma terceira via diferente, não reduzível a um compromisso entre sistemas económicos/ideológicos (capitalismo e socialismo). Não se fica pelo pensamento bipolar. Raciocina, também, com uma lógica polivalente não fixada no “verdadeiro” e no “falso” mas reconhecendo no “possível” o elemento personalizador que leva a reconhecer a evidência da realidade. Não se fecha no “ou… ou” mas realiza-se numa prática e lógica aberta do “não só… mas também”, imbuída de complementaridade, enfim, uma via integral a-perspectiva. Também não rejeita a existência de padrões de comunicação: importante é a tentativa de integrar a posição do outro.

Os parâmetros filosóficos da Lusofonia incluirão uma consciência da complementaridade orientada pelo ideário de vida pensada e realizada a partir do nós, numa relação pessoal geradora de “eus” e “tus” adultos, gratos e gratificados. O “nós” será o ponto de partida e de chegada do pensar e agir.

Alternativa: ser satélites dos outros ou planetas do próprio sistema
Os países lusófonos têm que estar conscientes da alternativa do seu futuro: ou ser satélites anónimos de algumas potências ou tornarem-se eles mesmos os planetas do próprio sistema lusófono, tendo como seu centro a língua portuguesa e um ideário comum expresso numa relação mais que de cidadãos de irmãos. Não é assim que já nos tratamos quando falamos dos irmãos timorenses, brasileiros, angolanos, etc.? Se na palavra “irmãos” já temos um indicador de consciência fraterna e solidária, porque não investir nela a nível político, económico, cultural e humano? Já se esqueceu a solidariedade fruto dessa consciência lusófona, tida com Timor? A “Língua é a nossa pátria”! Unidos, ninguém nos destruirá e a Lusofonia (Comunidade Federal) transformar-se-á numa verdadeira potência de humanidade e fraternidade.
Como nações desorganizadas estaremos determinados a andar sempre atrás do progresso sob o ditame económico e político dos outros; como confederação lusófona (mais tarde federação) traria a si o poder de se autodeterminar e influenciar o futuro a nível global com uma política e economia próprias. Para tal pressupõe-se a união da inteligência racional à inteligência emocional, se não nos queremos perder deixar levar e perder na ditadura do factual e nos meandros duma emotividade nacionalista míope.
O movimento da lusofonia irmana a consciência de diferentes perfis antropológicos e sociológicos na resposta a dar aos sinais dos tempos como indicadores de futuro. Numa altura em que o imperialismo americano, chinês e europeu se aproveitam do globalismo para se imporem às nações e a grupos desacautelados, a resposta adequada será a organização das identidades lusófonas no projecto supranacional da Lusofonia: Um ecossistema cultural e humano à altura da nova reorganização civilizacional.

O conceito Lusofonia é realmente abrangente não podendo ser demasiadamente definido porque toda a definição bem contornada poder-se-ia revelar como limitadora do processo de desenvolvimento de identidades.

Já não chega uma boa relação entre os povos lusófonos; é preciso um sonho, um programa, uma vontade declarada de todos apostarem num ideário civilizacional comum, prometedor dum céu e duma terra para todos, com uma praxis de supremo respeito pela dignidade humana e pelo direito à diferença como valor.

Urge a Colaboração económica entre os países lusófonos

Trata-se realmente de unir, pessoas, povos e continentes para que da união surja uma força cultural, económica e política capaz de resistir a novos imperialismos. É importante apresentarem-se conceitos e estratégias capazes de alertar os governos para os perigos que se escondem por trás de acordos com firmas e potências que possam comprometer o seu futuro (a China, aproveitando-se da irreflexão europeia e da crise americana já conseguiu muito!). Os poderes das grandes potências camuflam-se através de influências anónimas que paulatinamente amarram governos, estados e nações. No futuro os Estados não terão sequer a oportunidade de corrigir os erros do passado com revoluções nem com nacionalizações. As intrigas internas serão controladas pelas grandes potências que não terão pejo de apoiar grupos contestatários de governos legítimos. No século passado as nações com pouca força económica ainda podiam optimar negócios jogando com os interesses concorrentes entre capitalistas e socialistas (USA e União Soviética), hoje, com a reorganização dos Estados em grupos de interesses económicos estratégicos e políticos torna-se dificílimo para os governos avaliar a longo prazo os compromissos que assumem com os grupos concorrentes (China, Liga Árabe, USA, EU, Rússia, etc.). Numa fase de ainda não consolidação duma união dos estados lusófonos, toda a África deveria, por razões estratégicas de futuro, privilegiar as relações com a Europa, precavendo um possível cenário que poderá ser o de os possíveis conflitos  entre a Ásia e a Europa se realizem na África, à imagem do que já aconteceu no passado em África relativamente aos interesses das nações e ao conflito da “guerra fria”.

Uma política favorecedora de colaboração com firmas e fluxos migratórios dos países lusófonos entre si revelar-se-ia como medida inteligentíssima contra o imperialismo económico que amarra o futuro das nações. É uma dor de alma ver como tantos académicos portugueses são aliciados por potências fortes, como a Alemanha, quando esses técnicos poderiam emigrar para os países lusófonos, contribuindo para o seu enriquecimento. É importante a salvaguarda de recursos humanos, étnicos, culturais e económicos numa cooperação multilateral que não avassale nenhum “biótopo” lusófono. A união faz a força. Cada país lusófono, no continente em que se encontra, constitui uma riqueza estratégica imensa.

A África continua em situação precária, sendo palco da cobiça e dos jogos de interesses ocidentais, árabes, chineses, russos, etc. Estas potências pretendem cimentar aí zonas estratégicas de influência. Ao contrário do autor inicialmente citado, sou do parecer que hoje a Lusofonia, à semelhança da posição de Portugal com a sua pretensão do Mapa Cor-de-Rosa na Conferência de Berlim (1884-85), pretende acautelar a defesa dos interesses das diferentes identidades étnico-culturais ameaçados por forças internacionais com mera intenção de domínio económico e estratégico. Às línguas estão subjacentes interesses de toda a espécie; em torno delas surgem as verdadeiras constelações do futuro. Hoje, tal como na Conferência de Berlim, as potências querem alargar as suas zonas de influência para depois, fazerem de terreno alheio e distante, o campo de batalha para as suas lutas de concorrência económica e política.

As zonas da lusofonia não seriam bem aconselhadas se, abandonadas à lei da inércia, sem organização, se deixassem enredar por problemas ideológicos e programas não aferidos à realidade actual.

Quem torpedeia a construção da Lusofonia, uma maneira moderna de dar resposta ao desafio do turbo-capitalismo e ao imperialismo comunista chinês, apoia precisamente aquelas forças e princípios imperialistas que o Mapa Cor-de-Rosa queria impedir (ao pretender salvaguardar o direito histórico e geográfico contra o direito da ocupação e repartição da África). Seria fatal se a lógica da ocupação económico-política seguida pelo ultimato inglês (1890) continuasse a imortalizar o princípio do mais forte. Não! Com a Lusofonia, trata-se de recorrer a um outro instrumento da evolução que não seja apenas o selectivo mas o da cooperação dos pequenos entre si, para poderem subsistir ao lado dos mais fortes.

Quer-se uma lusofonia construída na complementaridade partilhada por todos sem imposições dos mais fortes e acautelada de estratégias de afirmação por actos consumados de ocupação dos espaços económicos e culturais.

Naturalmente que Portugal não deve irradiar da sua consciência as barbaridades que cometeu em África nem desculpar-se com o preexistente comércio dos negreiros árabes. As suas brutalidades cometidas ao longo da história não são, porém, comparáveis à brutalidade sistemática doutros colonizadores, facto que não desculpa os erros cometidos mas prova uma outra mundivisão. Por vezes fala-se muito do colonialismo de ontem para se distrair das novas formas do colonialismo. Por outro lado, também seria ingénuo cair-se na cegueira de não reconhecer a luta da vida. A pequenez de Portugal e o seu caracter sonhador predispõe-no a ser conciliador, potenciando-o a ser um bom interlocutor no processo da Lusofonia. Por outro, Portugal, dentro da concorrência brutal em via na Europa sofre um ataque forte à sua instituição como Estado. Esta experiência poderia salutar se aproveitada nos espaços lusófonos como exemplo do que se dará mais tarde neles mesmos se não se prevêem.

Não é intento fazer do espaço da lusofonia um “império” mas um espaço global moderno de configuração a-perspectiva capaz de se manter e afirmar ao lado doutros constructos.

Também não se quer defender a ideologia dum luso-tropicalismo superior a outras civilizações, mas sim defender uma maneira de estar lusa ao mesmo tempo universal e respeitadora das culturas regionais. Portugal nunca assimilou mais que 1% da população colonizada. Havia a coexistência tolerante de culturas e hábitos (Cf. ideia da democracia racial em “Casa-Grande e Senzala” de Gilberto Freyre). De facto, desde o século XVI até Salazar (1940), não havia instituições coloniais nem um sistema de educação pública nas antigas províncias ultramarinas. Também a declaração da independência colonial em África não foi um acto contra Portugal mas o resultado de interesses económicos e ideológicos internacionais.

Já no 25 de Abril havia uma vertente da população portuguesa mais aberta à opção pelo ultramar do que à opção pela Europa. O espírito luso é arredio a ser encerrado num só país ou continente; ele é intercontinental, universal.


Encontramo-nos num momento de desenvolvimento histórico que não permite já a construção dum país pós-colonial. Os países foram uma forma anterior de socialização antes de se chegar aos constructos civilizacionais USA, EU, Liga Árabe, China, Rússia Índia…

Temos que ousar o salto de grupos étnicos ou nacionais para estruturas superiores. Doutro modo, os países, cada um por si, individualmente, sem um sonho nem um plano comum tornar-se-ão vítimas da cobiça das civilizações e potências fortes tal como aconteceu outrora.

É necessário equacionar-se os interesses de maneira convergente e não divergente. Já não nos encontramos no século XIX em que era ordem do dia a formação de nações. Hoje os sinais dos tempos apontam todos para a formação de órgãos/sociedades supranacionais. A experiência da formação da EU pode ser um exemplo de como se não deve proceder para criar um conglomerado. Apesar da génese e da filosofia ser baseada sobretudo pela concorrência e pelo poder, a EU afirmar-se-á. Muito mais prometedora e oferecedora de futuro seria a formação duma federação dos países lusófonos, no respeito dos biótopos naturais e culturais.

Seria um erro histórico crasso e constituiria um retrocesso se intelectuais africanos se afirmassem pela posição do contra, na intenção de construir uma identidade étnico-nacional.

O futuro já não se equacionará em termos de ideologias de esquerda ou direita nem de colonizadores e colonizados. A Lusofonia quer futuro e este só pode ser assegurado por uma terceira via diferente das outras. Temos realmente de construir uma nova matriz civilizacional.

Os Povos precisam dum Projecto novo e duma nova Bandeirância

Portugal iniciou outrora a grande aventura colonizadora hoje a Lusofonia poderá lançar-se na aventura humanizadora. A bandeirância que Portugal outrora assumiu como ponta de lança da civilização ocidental, na aventura colonizadora, terá de ser assumida hoje pela Lusofonia no sentido de construir um tecto metafísico possibilitador de relações humanas, económicas e culturais solidárias que sirvam de exemplo para a humanidade. As novas tecnologias podiam ser aproveitadas no sentido de superarem barreiras de aprendizagem e de mentalidades.

Sem sonho não há futuro. Sem mitos nem sonhos comuns deixaremos que as grandes potências económicas e os dinos do dinheiro repitam, de forma moderna e disfarçada, o que os países colonizadores conseguiram fazer de etnias outrora não unidas nem cristalizadas pelo tradicional processo de colonização interna. Neste sentido são necessárias fábricas de pensamento que preparem um projecto humano alternativo às tradicionais formas de domínio. O tempo do nacionalismo já foi ultrapassado pelo desenvolvimento histórico. Os novos contextos civilizacionais prescindem dele. A África não deve cair na tentação de procurar nos modelos nacionais ultrapassados do séc. XIX paradigmas para os novos Estados. Hoje, na ordem do dia estão as ligas, as uniões de estados pelo que a união dos estados lusófonos seria a consequência lógica duma estratégia actual e realista. Não reconhecer isto e apostar em nacionalismos é colaborar mercenariamente com potências estranhas. O que facilitou outrora a colonização foi o facto das tribos e grupos étnicos não se encontrarem unidos. Ontem não resistiram ao impacto das nações (Portugal, Espanha, Inglaterra, Franca, etc.) e hoje não resistirão ao impacto das civilizações (USA, Liga Árabe; China, Rússia, EU). Lógica: iniciar a alto nível conversações para uma confederação.

Os povos lusófonos precisam dum sonho, dum projecto próprio e duma Bandeirância que expresse a vontade subjacente. Não podemos deixar as etnias, os povos, as nações nas mãos dos oportunistas e dos jogos de grupos só interessados no proveito imediato. É preciso que os políticos dos países das lusofonias se juntem e procurem fazer das universidades alfobres de lusofonia, verdadeiros construtores de futuro e de progresso humano e fraternal. Criem-se parcerias com universidades; de não menosprezar universidades católicas devido à sua experiência internacional e à incardinação nos interesses do país, independentemente do credo. O gene da lusofonia reúne em si as melhores heranças biológicas e culturais que as civilizações legaram (Miscigenação, inculturação aculturação, uma ética alta e universal, etc.).

Promoção da Arte como Estratégia de Implementação da Lusofonia como consciência comum

A promoção recíproca da arte lusófona será a fórmula mágica duma estratégia, que a ser tomada a sério, se poderia tornar tão eficiente como a cristianização no século XV. Esta ideia terá de ser levada aos nossos políticos, que andam muito preocupados com as tarefas do dia-a-dia, sem tempo para poderem notar que por trás duma grande obra se encontra uma filosofia coerente e humana.

Uma grande tarefa a assumir igualmente por todos os estados lusófonos seria o fomento concreto da arte e da literatura dos parceiros para que esta se torne cada vez mais parte do sentir comum. Para isso será preciso que os Estados que anteriormente impuseram as suas matrizes culturais a outros povos implementem mais as artes daquelas culturas que antes reprimiram ou deixaram na letargia. Todos os órgãos dos Estados membros e as instituições da sociedade (universidades, igreja, partidos, sindicatos, associações) devem empenhar-se e dar expressão a tal intento, concebendo e apoiando projectos, com novas caravelas a afrentar os novos desafios, sejam eles económicos, tecnológicos culturais ou políticos. Há que apostar nos multiplicadores culturais e programas fomentadores das histórias nativas pré-coloniais.

Urge um estudo sistemático das semelhanças dos povos e construir-se uma sinopse das características antropologias e sociológicas que também em Portugal podem ser identificadas. Em todos os cursos universitários e especialmente nos de antropologia, sociologia, história e português não deveriam faltar cadeiras de lusofonia com as interferências interdisciplinares que a lusofonia implica.

O Acordo Ortográfico deveria ter sido obra acabada dos especialistas de diferentes países e de diferentes disciplinas e não condicionado por interesses económicos ou políticos.
Também o Instituto Camões ao pecar pela falta duma estratégia de promoção da cultura portuguesa, não sei se por intensão, se por fraqueza, poderá sinalizar precisamente uma atitude não colonizadora…

O dinheiro que Portugal poupa em conselheiros culturais deveria investi-lo na investigação e na implementação de programas interculturais a nível de universidades fomentadoras do espírito lusófono. O fomento de multiplicadores culturais da lusofonia efectuado pelo poder estatal, poderia ser contrabalançado pelo fomento de outros artistas, através de outras instituições e associações livres. Assim poderia estrategicamente proceder-se à proliferação de eventos musicais, literários, folclóricos dos países irmãos. Ministérios e comarcas poderiam pôr como condição de apoios financeiros às associações de arte e cultura a inclusão em seus programas de eventos de interculturalidade dos países lusófonos.

No novo enquadramentos histórico a lusofonia oferece a possibilidade da construção de novas identidades históricas abertas que não se afirmem umas contra as outras mas cresçam num espírito de complementaridade, ao serviço dum todo abrangente …

Precisa-se duma supraestrutura da lusofonia capaz de se afirmar na concorrência civilizacional: Uma Lusofonia como lugar das oportunidades das novas gerações de angolanos, brasileiros, guineenses, portugueses, moçambicanos, timorenses, cabo-verdianos e das diferentes etnias conscientes de só assim poderem sobreviver contra os novos desafios e imperialismos.

Será necessário pensar-se em espaços de séculos para nos não deixarmos subjugar por interesses imediatistas. No espaço cultural português e na alma portuguesa de hoje encontramos vestígios culturais, étnicos, que vão dos godos, fenícios, gregos, judeus, romanos bárbaros, árabes, africanos, etc., mas tudo isto só foi possível mediante um ideário e um sonho integrador acompanhado duma vontade política.

Seria ingénuo ignorarmos que o desenvolvimento histórico acontece à margem da formulação dos interesses económicos e culturais e abandonar a lusofonia aos interesses ocasionais de grupos económicos organizados. Não seria racional fixar-nos no fantasma dum colonialismo passado que nos distrai dos novos colonialismos em via. Importante é no meio de tudo isto manter a vontade emancipatória. Todos nós temos uma grande tarefa: fazer do património do mundo o património da lusofonia e fazer da lusofonia o património e a missão de cada país da lusofonia.

Lusofonia é um modo específico de estar humano, cultural, económica e política com expressão em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste que se deveria tornar numa política comum a todos os estados lusófonos. Se antigamente a unidade cultural se formava em torno da religião hoje pode ser implementada através do fomento da arte das subculturas em torno da língua. À volta da lusofonia não se pode abdicar dos elementos racional e emocional.
Do lusitano formou-se o português tal como do Angolano, do brasileiro, do moçambicano, do português, se pode formar o lusófono.


© António da Cunha Duarte Justo, www.antonio-justo.eu