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terça-feira, 19 de julho de 2011

norma culta e norma popular

A variação linguística e o ensino de Língua Portuguesa: nota dos autores da Coleção Viver, Aprender

O ensino da norma culta x norma popular


Por Heloisa Cerri Ramos

Um item que está presente no volume “Por uma vida melhor”, da Coleção Viver, Aprender, 2º segmento do Ensino Fundamental, na seção de Língua Portuguesa, publicada pela Editora Global, está provocando estranhamento entre professores e não professores. Corresponde ao capítulo 1, de Língua Portuguesa, “Escrever é diferente de falar”.

Esse capítulo discute a diferença entre aprender a falar uma língua e aprender a escrever essa mesma língua. Aprendemos a linguagem oral (informal) desde que nascemos, ouvindo os outros falarem. O ensino para esta modalidade da língua não se dá pela sistematização. Não é necessário ir para a escola para aprender a falar. Já para aprender a escrever é preciso que alguém ensine. Intencionalidade e sistematização são necessárias para o ensino da linguagem escrita .

O capítulo chama a atenção para algumas características da linguagem escrita e para uma variedade da Língua Portuguesa (existem inúmeras outras): a norma culta, também conhecida como norma de prestígio. Pretende defender que cabe à escola ensinar as convenções ortográficas e as características da variedade linguística de prestígio justamente porque isso é valorizado no mundo do trabalho, da produção científica e da produção cultural. E ainda que o domínio da norma de prestígio não se dá de um dia para o outro, mas de modo gradual, constante e pela intensa prática e reflexão sobre seus usos.

Na p. 14, “A concordância entre as palavras”, apresenta-se como as palavras concordam em gênero e número. A seção fala da importância desse princípio da língua para a atribuição de sentidos, uma vez que a concordância ajuda a indicar a relação que existe entre determinadas palavras. Exemplifica como isso se dá na norma culta e mostra que na norma popular pode acontecer de maneira diferente. Assim, a frase: “Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados.”, onde ocorre concordância de todos os elementos que se relacionam com a palavra central “livros”, pode ser dita na variedade popular: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. Na variedade popular, basta que a palavra “os” esteja no plural para indicar mais de um referente. Um falante da Língua Portuguesa, ao escutar alguém falar “os livro”, vai entender que a frase se refere a mais de um livro. Isso porque a nossa língua admite esta construção. Não admitiria, no entanto, “livro os ilustrado”. Nenhum falante, escolarizado ou não, falaria assim.

Na p. 15, continua: “Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro’?. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. ” Aqui o importante é chamar a atenção para o fato de que a ideia de correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa. Como se aprende isso? Observando, analisando, refletindo e praticando a língua em diferentes situações de comunicação. Quando há  conhecimento das muitas variedades da língua, é possível escolher a que melhor se encaixa a um contexto comunicativo.

Aprende-se a falar e a escrever a norma de prestígio praticando-a constante e intensamente. Decorar regras ou procurar palavras no dicionário têm importância para determinadas situações pontuais, mas não garantem que alguém aprenda a escrever com fluência e adequação, em diferentes situações comunicativas. É dever da escola e direito do aluno aprender a escrever, a ler e a falar os diversos gêneros textuais que circulam na sociedade em que vivemos.

O mundo contemporâneo exige pessoas capazes de usar a língua eficientemente para ler, escrever e falar tanto nas relações interpessoais, como no trabalho, nos estudos, nas redes sociais, na defesa de direitos, nas práticas culturais e até no lazer.

É um direito de todos os cidadãos ter essa formação linguística competente. É dever da escola a responsabilidade de promover tal fomação, especialmente dos profissionais do ensino da alfabetização e da Língua Portuguesa.


* Os livros da Coleção Viver, Aprender, 2º segmento do Ensino Fundamental, seção de Língua Portuguesa, publicados pela Editora Global, têm como fundamento os documentos do Ministério da Educação (MEC) para o Ensino Fundamental regular e Educação de Jovens e Adultos (EJA) e levam em conta as Matrizes que estruturam as avaliações (ENCCEJA – Exame Nacional de Certificação de Jovens e Adultos).

Fonte: http://www.viveraprender.org.br/2011/05/o-ensino-da-norma-culta-x-norma-popular/

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Última flor do laço LÍNGUA E NORMA CULTA

Última flor do laço

Ricardo Semler*   /   Folha de S. Paulo

Exigir o domínio da língua culta, desenvolvida por, e para, as elites, é fator formador de castas NA EXPOSIÇÃO "6 Bilhões de Outros", no Masp, em São Paulo, há o depoimento de um soldado americano, que passou semanas conversando com dois afegãos, pai e filho -sem idioma comum, mas com alta compreensão mútua. 

Na moral -sabe q tem dicionário irado com essas parada aí neles- demorô! "Irado" e "demorô" constam do Caldas Aulete. E tá prvdo q n prcsa de tds as ltrs pa entdr qq frase. 

Conclui-se que a questão antropológica de comunicação não está em jogo quando um livro, como o "Por uma Vida Melhor", é assediado pelo patrulhamento multi-ideológico. 

Evanildo Bechara, da embolorada ABL, defende, na "Veja", que a norma culta da língua continue cobrando pedágio de acesso ao mundo superior. Sem dúvida, negar o aprendizado da língua culta é inaceitável. Caberia só discutir o que é suficiente. 

Convém lembrar que a quantidade de unidades lexicais do português demandaria o aprendizado de 350 delas por dia letivo, por cinco anos -são 350 mil no total!

Por outro lado, exigir o domínio da língua culta, desenvolvida a esse alto nível por, e para, as elites, é fator formador de castas. É assim na Inglaterra, onde o "Queen"s English" é ensinado nos internatos, na Alemanha, com seu "Hoch Deutsch" e, naturalmente, na Índia, onde só os brâmanes "falam direito". 

É só observar como os médicos se protegem com um linguajar intransponível, os advogados começam frases com "priscas eras" e os engenheiros falam em "senoidal" para descrever um arco. Ninguém penetra nesses clubinhos sem passar na prova de compatibilidade tribal -e tem elitismo sim. 

Li o livro aprovado pelo MEC e o achei bom -que exista e seja distribuído. Os alunos contemporâneos têm que discutir como se faz a adaptação de uma linguagem para que seja acessível e democrática, como os EUA fizeram com o inglês, que tem apenas 25 mil palavras cotidianamente usadas, contra 49 mil empregadas na Inglaterra. 

O livro "Por uma Vida Melhor" aceita a concordância "errada", mas defende a norma culta e explica que o significado é compreensível mesmo com "equívocos". 

Se nóis falemo errado, não é só questão de exigir melhores professores e policiamento intelectual; é também preciso reduzir as regras e as complicações para flexibilizar a língua. Isso permitiria maior acesso às profissões, bem como ascensão social, sem o preconceito do uso da linguagem exata. 

Em vez de ficar em mãos de eruditos empoeirados, as novas normas linguísticas deveriam ser editadas por comissões paritárias do país. 

Nada impede que os interessados continuem levando as preciosidades a patamares olímpicos, como forma de arte ou mesmo por masturbação mental. 

O Mussolini era torcedor da Lazio, que é a região da Itália de onde saiu a última flor do latim a que o Bilac se refere, o português. 

Como sabemos desde Mussolini e Stálin, sabedoria e norma culta não têm quase nada em comum. Isso seria bem lembrado nos chás das academias de vosmecês.

Ricardo Semler é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT, ambos nos EUA. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.