quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Costumes brasileiros “importados” do judaísmo


  
Costumes brasileiros
“importados” do judaísmo
 
Nelson Menda
 RECOLHIDO POR  MARIA EDUARDA FAGUNDES

É um privilégio poder viver em um país sem furacões, terremotos ou vulcões. Em uma nação gigantesca e extremamente fértil, considerada o verdadeiro celeiro da humanidade. Que consegue agregar à maior floresta tropical do mundo suas imensas reservas submarinas de petróleo, fato que a torna auto-suficiente em uma época de escassez dessa preciosa e limitada fonte de energia. Que possui incomensuráveis mananciais de água doce, o petróleo do amanhã, tanto na superfície quanto no subsolo. Que apresenta um extenso litoral, com 8.000 quilômetros de praias, algumas delas de cair o queixo. Um país que se orgulha em ostentar o título de maior nação cristã do mundo, desde o seu descobrimento pelos portugueses, católicos apostólicos romanos, há cinco séculos. Êpa, eu disse católicos apostólicos romanos? Peço desculpas aos leitores e à imensa legião de cristãos do país, mas acho que me equivoquei nesse último tópico. E já explico o porquê.
 
 
A ERA DOS DESCOBRIMENTOS
Apenas três anos antes do descobrimento do Brasil o número de judeus em Portugal ultrapassava a casa dos 10% da população. Cem mil judeus expulsos da Espanha em 1492 tinham procurado refúgio no país vizinho, pela própria proximidade geográfica, vindo se somar à já existente e próspera coletividade israelita do país. Portugal, à época, tinha uma população estimada em um milhão de habitantes. Por volta de 1496, quatro anos após a chegada dessa numerosa e qualificada leva migratória à terrinha, D. Manuel, o Venturoso, tido como “muy amigo” dos judeus, pediu a mão da filha dos Reis de Espanha, Isabel e Fernando, cujos nomes provocam, até hoje, arrepios em muitos sefaradis. A princesa, que não era esbelta nem esperta, foi buscar orientação com seu confessor, o temível Torquemada, que proibiu terminantemente sua entrada em solo português enquanto existissem judeus no país. D. Manuel estava em uma sinuca de bico. Por um lado, precisava dos judeus, alfabetizados, cultos, poliglotas, em cujo seio era possível encontrar médicos, astrônomos, tradutores e artesãos experientes no manejo do couro e dos metais, em uma época em que Portugal se lançava aos grandes descobrimentos marítimos e precisava dessa mão de obra altamente qualificada. Por outro, o soberano português temia, com justa razão, a presença ao seu lado de uma Espanha militarizada e agressiva que acabara de conquistar a Andaluzia aos árabes e expulsar os judeus do país. Espanha essa que possuía população e território muitas vezes superior ao de Portugal, um pequeno país espremido entre o mar e seu nada amistoso vizinho.
 
 
BATISMO EM PÉ
Com esse casamento, D. Manuel esperava matar dois coelhos de uma só vez. Além de constituir família e garantir a continuidade da sua dinastia, afastava, pelo menos momentaneamente, a ameaça de uma anexação de Portugal pela Espanha. Todavia, como resolver a delicada questão dos judeus, de que ele tanto precisava? No domingo de Ramos de 1497 D. Manuel convidou os israelitas da capital portuguesa para um grande encontro na Praça do Comércio, bem em frente ao Tejo, com a promessa de que embarcariam em navios que os levariam à Terra Santa, sonho da imensa maioria dos judeus ibéricos. Ao mesmo tempo, em segredo, convocou o maior número possível de padres, a quem foi distribuída uma grande quantidade da assim chamada água benta, no episódio conhecido como “batismo em pé”. Enquanto os religiosos católicos aspergiam a água dita santa sobre a multidão que se acotovelava no cais, D. Manuel, feliz da vida, enviava seu emissário à corte espanhola para avisar que não havia mais judeus em Portugal, só cristãos. E os judeus, olhos fixos no horizonte, “ficaram a ver navios”, pois além de ludibriados com a falsa promessa da viagem à Terra Prometida, ainda tinham sido convertidos, contra a vontade, em cristãos. Cristãos de segunda classe, diga-se de passagem, pois estavam proibidos de ocupar cargos no governo, no clero e na oficialidade militar. Esse lamentável episódio se, por um lado, evidenciou uma atitude de total desrespeito à liberdade religiosa em relação a uma parcela ponderável da população, por outro serviu para deixar uma marca indelével e inequívoca da presença judaica na formação do inconsciente coletivo de portugueses e brasileiros, o que pode ser constatado ao se analisar certos hábitos, muitos provérbios e até mesmo algumas estranhas superstições que se incorporaram à nossa maneira de ser. A própria expressão “ficar a ver navios”, para citar um exemplo, acabou sendo agregada ao vocabulário popular, servindo para designar uma situação de promessa não cumprida, de enganação, de desejo frustrado. Teria sido esse “ficar a ver navios” a única evidência da presença judaica no dia-a-dia da população luso-brasileira, de suposta maioria cristã? Claro que não e o objetivo deste artigo é exatamente o de utilizar artifícios freudianos para resgatar, dos profundos e nebulosos meandros do inconsciente para o estado de consciência plena, uma série de fatos que evidenciam, de forma cabal e inequívoca, a forte presença judaica nos hábitos da população brasileira.
 
 
“PÃO-DURISMO MINEIRO”: MITO OU REALIDADE?
Os judeus participaram de todos os ciclos da economia brasileira, inclusive o do ouro e pedras preciosas das Minas Gerais. Obrigados a se manter no anonimato, para não serem denunciados à Inquisição e ao mesmo tempo preocupados em seguir as regras dietéticas da kashrut (1), desenvolveram um mobiliário que permitia agradar a gregos e troianos, que é a famosa “mesa com gavetas” dos mineiros. Em que consistia? Muito simples: as mesas das cozinhas e copas onde eram realizadas as refeições dispunham de gavetas estrategicamente dispostas no lugar onde os comensais deveriam sentar. A cada refeição, eram preparados dois pratos para cada pessoa. Um, taref (2), para inglês ver, no caso de chegar alguma visita inesperada, composto pelos alimentos habituais da cozinha mineira, como lingüiça, torresmo, leitão e outros quitutes que, além de seu elevado teor calórico, eram proibidos aos judeus. O outro prato continha os alimentos preparados segundo a tradição judaica de não misturar carne com leite e derivados, de evitar a ingestão de crustáceos e peixes sem escamas e uma série de outras recomendações, especialmente a de não consumir carne ou gordura de porco. E era um tal de bota e tira os pratos nas tais gavetas a cada aproximação de um estranho que o zé povinho acabou forjando a lenda de que os mineiros eram pão-duros, pois preparavam dois tipos de comida. Uma, de melhor qualidade e sabor, para o pessoal da casa e outra, mais simples, para o caso de chegar uma visita inesperada.
 
 
O FESTIVAL DA ALHEIRA
Quem freqüenta, no Rio, as sinagogas Shel Guemilut ou ARI, já teve a oportunidade de passar pela frente de um tradicional restaurante português localizado nas proximidades. Esse estabelecimento costuma realizar, todos os anos, um “Festival da Alheira”, ansiosamente aguardado pelos apreciadores da boa mesa. Mas afinal, o que vem a ser a alheira? Uma das evidências para um judeu ser denunciado à Inquisição era o fato de não comer carne suína, especialmente os embutidos com ela preparados, como o presunto, os salames e as lingüiças. Uma casa portuguesa genuinamente cristã deveria exibir, penduradas e à vista de todos, fieiras de embutidos de porco preparados com essa carne considerada impura pelas leis dietéticas judaicas. Os israelitas portugueses, especialmente das regiões da Beira Alta e Trás os Montes, logo se deram conta do risco que corriam ao não exibir essa tradicional – e proibida – iguaria no entorno de suas casas. Criaram uma falsa lingüiça que, ao invés do porco utilizava carne de gado. No lugar do toucinho, de cor branca, colocavam nacos de pão e, para mascarar o cheiro, folhas de um arbusto da região de nome alheira que possuía um forte odor, semelhante ao do alho. Além de afastada a razão para uma possível denúncia, estava criado um novo e delicioso prato, que até hoje faz a festa em muitas casas e estabelecimentos especializados em culinária regional portuguesa. Mas atenção, antes de pedir uma alheira em um restaurante de comida portuguesa, bata um papo com o maitre a respeito do seu conteúdo, pois muitos fabricantes do produto, desinformados sobre a origem e o valor histórico da iguaria, acabaram substituindo a carne bovina por... adivinhe... nada mais nada menos do que... porco.
 
 
PASSAR A MÃO NA CABEÇA
Quem já não ouviu ou pronunciou a expressão “passar a mão na cabeça”, que significa proteger ou mesmo fazer vista grossa para um determinado fato?. Se o leitor suspeita que essa frase esteja relacionada ao ato judaico de abençoar alguém colocando as duas mãos sobre sua cabeça ao mesmo tempo em que se pronuncia uma breve oração em hebraico, está redondamente acertado. É mais uma prova da influência judaica na cultura popular brasileira.
 
 
VESTIR A CARAPUÇA
É uma expressão com origem trágica, pois remonta ao obscuro período da Inquisição em que os condenados eram obrigados a vestir trajes ridículos ao comparecer aos julgamentos e Autos de Fé. Além do sambenito, túnica com o formato de um poncho, precisavam colocar sobre a cabeça um longo e ponteagudo chapéu, conhecido como carapuça. A frase “vestir a carapuça” acabou sendo incorporada ao português escrito e falado com o sentido de “assumir a culpa”.
 
 
NÃO APONTAR PARA AS ESTRELAS
Apontar para uma estrela, segundo o conceito popular, poderia causar o surgimento de uma verruga na extremidade do dedo infrator. Qual a origem dessa crendice? É fácil de entender. O calendário judaico é regido pela lua e o despontar da primeira estrela marca o início de um novo dia, especialmente se esse dia for o Shabat (3). Antes da expulsão da Espanha de 1492 e da conversão forçada de Portugal de 1497 era comum que as crianças judias, ao entardecer das sextas-feiras, ficassem procurando no firmamento o brilho da primeira estrela, indicativa da chegada de um dia muito especial. Era a Estrela D’Alva, também conhecida como Vésper, mas que, na realidade, não é exatamente uma estrela, mas sim o Planeta Vênus, que por brilhar com mais intensidade se destaca dos outros corpos celestes. Quem apontasse primeiro provavelmente ganharia a admiração dos mais velhos e, quem sabe até, algum presente. De uma hora para outra esse gesto simples passou a ser denunciador da condição judaica e a primeira coisa que as precavidas mamães fizeram foi assustar seus filhos com a possibilidade do surgimento de uma baita verruga na ponta do dedo. A Inquisição, felizmente, já acabou há bastante tempo, mas a crendice ainda persiste em muitas regiões desse imenso país. Por isso, não se preocupe quando vir uma criança ou adulto apontando para o céu. Mesmo porque já se sabe que as verrugas são causadas por vírus e os dermatologistas dispõem de eficazes tratamentos para erradicá-las.
 
 
OFERECER A BEBIDA AO SANTO
É comum em muitos bares e botequins de norte a sul do Brasil despejar no chão o primeiro gole de aguardente, em sinal de respeito “ao santo”. Qual o santo? Nada mais nada menos do que o nosso conhecido Eliyahu Hanavi (4), o Profeta Elias da tradição judaica. Nas mesas do Seder (5) de Pessach (6) é costume reservar um lugar para o Profeta, colocando-se um prato, talheres e um cálice com o delicioso vinho adocicado especialmente preparado para a ocasião. Ninguém toca nesse cálice, reservado para Elias. Diz-se que, a cada ano, ele faz uma visita a todos os lares judaicos durante o Pessach e não ficaria bem encontrar seu cálice sem o precioso líquido. Com as perseguições aos judeus, começou a ficar perigoso mencionar o nome de Elias, que passou a ser chamado de “santo”. De profeta para santo e de vinho para pinga foi um pulo.
 
 
COVA DE SETE PALMOS DE FUNDURA
O grande escritor e poeta João Cabral de Melo Neto imortalizou nos versos de “Morte e Vida Severina” a estrofe que fala de uma cova com sete palmos de fundura. É uma tradição 100% nordestina envolver as pessoas falecidas em uma mortalha de linho, sepultando-a em cova preparada em terra virgem com a profundidade de sete palmos. Também fazia parte da tradição judaica ibérica, por ocasião da morte de um ente querido, ao invés de sepultá-lo em um caixão, revestir seu corpo em uma mortalha confeccionada com algodão ou linho e enterrá-lo em uma cova escavada igualmente em terra virgem e com os mesmíssimos sete palmos de profundidade. Os homens costumavam ser sepultados envoltos no seu talit (7), manto com franjas utilizado durante as cerimônias religiosas. Coincidência? Nada disso. O Nordeste foi colonizado por judeus, gente!
 
 
ACENDER VELAS PARA AS ALMAS
A cerimônia doméstica do Shabat tem início logo após a dona da casa ter acendido as duas velas do candelabro ritual e pronunciado a benção própria para a ocasião. Quando isso acontece? Um pouco antes do pôr do sol das sextas-feiras. Como driblar os olheiros da Inquisição? Acendendo velas “para as almas”, além das sextas, também às segundas-feiras. Pronto, estava resolvido o problema. O acendimento das segundas-feiras era só para despistar e o das sextas para valer. A moda de acender velas duas vezes na semana pegou. Para felicidade das almas e dos fabricantes de velas.
 
DIA NACIONAL DA FAXINA
Em que dia da semana os brasileiros costumam fazer a faxina e trocar a roupa de cama e banho de suas casas? Pense bem antes de responder: às segundas, terças, quartas ou quintas-feiras? Não acertou? Isso mesmo, pois todos sabem que o dia nacional consagrado à faxina é às sextas-feiras. Você já questionou o porquê desse dia? Será que não tem algo a ver com a preparação para o Shabat, que, por uma estranha coincidência, também acontece ao entardecer das sextas-feiras? Mais uma coincidência? Não, tudo a ver com um país que foi descoberto e colonizado por israelitas, que precisaram esconder essa condição durante muitos séculos para não serem denunciados, perseguidos, torturados e mortos pela Inquisição, mas que conseguiram transmitir para o restante da população uma série de costumes, provérbios e princípios que hoje em dia estão intimamente ligados ao próprio estilo de vida do povo brasileiro, ao qual os judeus, juntamente com os católicos, protestantes, muçulmanos, evangélicos, espíritas, budistas, umbandistas e agnósticos fazem questão, com muita honra, de pertencer.
 

(1)- Kashrut – Lei dietética judaica
(2)- Taref – Alimento impróprio para consumo pela lei dietética judaica
(3)- Shabat – Dia sagrado dos judeus, que vai do entardecer das sextas-feiras ao mesmo período do dia seguinte
(4)- Eliyahu Hanavi – Nome hebraico do Profeta Elias
(5)- Seder – Mesa cerimonial para a celebração do Pessach, a Páscoa Judaica
(6)- Pessach – Celebração festiva da libertação dos Judeus do jugo egípcio
(7)- Talit – Manto cerimonial utilizado pelos homens no Shabat e datas festivas
 
 
 
 
 
Tiradentes era Judeu
 
Relembra-se que de fato, Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes - foi enforcado, muito mais por ser judeu cristão novo, do que mesmo por seus patrióticos, exemplares e históricos ideais de Independência do Brasil.Tanto assim, que seus companheiros Inconfidentes não sofreram pena de morte. Tiradentes merece um destaque especial em seu conceituado jornal online, pelos dois motivos: por ser judeu e Lider no Movimento que despertou o Brasil para a sua Independência, legando-nos este País maravilhoso!!!!!!! - Nisso tudo há uma triste, dramática e lamentável inversão do óbvio: embora para humilhar publicamente, torturar, roubar e matar os judeus portugueses e seus descendentes no Brasil, a monstruosa Inquisição reconhecia muito mais os cristãos novos como judeus, do que muitas outras entidades judaicas na diáspora...
Miguel Ribeiro Gomie – Jornalista
 
 
 
 
O Judeu Joaquim Nabuco
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A Universidade Federal Rural de Pernambuco promoveu um evento nacional para comemorar o centenário de Joaquim Nabuco, inaugurando a Cátedra Anita Novinsky, recém criada nessa Universidade, dedicada à pesquisa sobre cristãos-novos, judaísmo e sua presença no nordeste.
Organizou este evento o professor Caesar Sobreira, autor do livro Nordeste Semita, que foi lançado durante o Colóquio. Participaram do evento, além de diversos acadêmicos, Paulo Valadares e Lina Gorenstein, pertencentes à equipe de pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, (LEI), da Universidade de São Paulo, que ressaltaram a genealogia judaica de Joaquim Nabuco e a cidade de Barcelos, berço de seus antepassados rabinos
 

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PALAVRA TREM




O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PALAVRA TREM


Interessante que o assunto mineirês veio à tona logo no dia em que alguns transtornos foram causados pelo seu desconhecimento por parte de alguns jornalistas, que escreveram a seguinte manchete: - ' Trens batem de frente em Minas.'

Os mineiros, obviamente, não deram a devida importância, já que para eles isto quer dizer apenas que duas coisas bateram. Poderia ter sido dois carros, um carro e uma moto, uma carroça e um carro de boi; ou
até mesmo um choque entre uma mala de viagem e a mesa de jantar.

Movido pela curiosidade, resolvi então consultar o Aurélio. E vejam o que diz:

trem [Do francês/inglês. train.] Substantivo masculino.
1 Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante. 2.Comitiva, séquito. 3. Mobiliário duma casa. 4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços... 5. Carruagem, sege. 6. Vestuário, traje, trajo. 7.Mar. G. Bras. Grupamento de navios auxiliares destinados aos serviços (reparos, abastecimento, etc.) de uma esquadra. 8. Bras. Comboio ferroviário; trem de ferro. 9. Bras. Bateria de cozinha. 10. Bras. MG C.O. Pop. Qualquer objeto ou coisa;
coisa, negócio, treco, troço: 'ensopando o arroz e abusando da pimenta, trem especial, apanhado ali mesmo, na horta.' (Humberto Crispim Borges, Cacho de Tucum, p. 186). 11 .Bras. MG S. Fam. Indivíduo sem préstimo, ou de mau caráter; traste.

Vejam que o sentido de comboio ferroviário é apenas o 8º, e ainda é considerado um brasileirismo.

Comentei o fato com um amigo especialista em etimologia, que me esclareceu a questão: o comboio ferroviário recebeu o nome de trem justamente porque trazia, porque transportava, os trens das pessoas.
Vale lembrar que nessa época o Brasil possuía uma malha ferroviária com relativa capilaridade e o transporte ferroviário era o mais importante. Assim, era natural que as pessoas fizessem essa associação.

Moral da estória:
O mineiro é, antes de tudo, um erudito. Além de erudito, ainda é humilde e aceita que o pessoal dos outros estados tripudie da forma como usa a palavra trem. Na verdade, acho que isso faz parte do 'espírito cristão do mineiro'. Ele escuta as gozações e pensa: que sejam perdoados, pois não sabem o que dizem.
 
Recebi sem indicação da AUTORIA.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Língua portuguesa esconde ciência nacional



Língua portuguesa esconde ciência nacional

Maioria das pesquisas brasileiras publicadas em revistas locais não tem versão em inglês, o que reduz a visibilidade

Número de citações por artigo dobra quando texto está em inglês; escolha do idioma da revista é 'editorial', diz especialista

SABINE RIGHETTI



O Brasil é o 13º país na lista dos que mais publicam artigos científicos. Mas, quando o assunto é quantas vezes cada texto é citado por outros pesquisadores, o país vai mal.
Isso acontece principalmente por um motivo: 60% dos artigos publicados por aqui estão em português.
E, diferentemente de países como a Espanha, boa parte dos cientistas daqui prefere publicar em revistas brasileiras.
A questão foi levantada em um evento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), realizado na sexta-feira passada, que discutiu o desempenho dos periódicos brasileiros.
O interesse da Fapesp pelo assunto é claro: não adianta financiar as pesquisas se ninguém repercutir os resultados dos trabalhos.
"Precisamos pensar quais artigos devemos publicar só em português, só em inglês e quais devem estar nas duas línguas", disse Abel Packer, coordenador operacional do SciELO -base que reúne revistas científicas com acesso aberto na internet.

PIOR NAS HUMANAS
Em áreas como linguística, letras, artes e ciências sociais aplicadas a situação é pior.
Além dos artigos majoritariamente em língua portuguesa, cerca de 65% dos resultados de pesquisas nessas disciplinas estão em livros -que também estão em português.
"Mas em áreas como a linguística pode não fazer tanto sentido publicar em outro idioma", diz Packer.
"O ideal, claro, seria que todas as revistas tivessem também uma versão em inglês. Mas isso teria um custo muito alto", completa.
Hoje, o governo gasta cerca de R$ 5 milhões anuais com as revistas nacionais.
Mas para Luís Reynaldo Alleoni, editor da "Scientia Agrícola", da USP de Piracicaba, "passar as revistas brasileiras para a língua inglesa é um caminho sem volta."
O periódico está em inglês desde 2003. Com isso, as citações aumentaram, e o número de artigos de cientistas estrangeiros passou de 5%, em 2002, para 11% em 2010.
Parcerias também aumentam o impacto dos artigos. As citações dos estudos nacionais crescem 50% quando os trabalhos são feitos em colaboração internacional.
Para Rogério Meneghini, coordenador científico do SciELO, há uma espécie de "transferência do impacto" do artigo quando uma instituição brasileira publica um trabalho com outra estrangeira mais renomada.
"Mas, além de ter pouca colaboração entre países, o Brasil tem um número pequeno de artigos produzidos entre as próprias instituições nacionais", diz Meneghini.
O SciELO recomenda, cada vez mais, que as revistas nacionais estejam em inglês.
"Mas a escolha do idioma ainda é uma decisão editorial da revista", conclui Packer.


[Fonte: Folha de S. Paulo, 20.9.11]

RADIO ONU E POEMA DE CORSINO FONTES

HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE por Corsino Fortes,(São Vicente, 1933), escritor e político cabo-verdiano.

Quando a África incha seus músculos de sangue & secura
Não há Sahel que não queime
No coração da noite
A sua salina de solidão

Não há boca Que não chova a sua gora de corpo & alma
Nem gota
De água doce Que não seja
Um espaço! para amar & habitar

Por vezes! o relâmpago
Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

E as ilhas soerguem-se
pelo arquipélago das patas
E vão

De cratera em cratera
Erguer
na boca das sementes
A força contida dos vulcões

Homem! deus é grande entre duas ilhas
Se baleias emergem da gota do teu rosto

Na Ilha! a cicatriz de deus é grande
Mas a ferida do homem é maior

Canção! no arbusto da viola

Que chove
A lírica de deus é grande
Mas a música do homem é maior

Mulher! quando o céu da tua boca
Arrasta o corpo da terra
Até à goela da água longínqua
A febre conta no arco-íris
Da carne que sangra
A montanha roída dos dentes...

E da cicatriz da mão
brotam raízes
Que vicejam a memória dos séculos
In: Vozes poéticas da lusofonia / org. Instituto Camões ; coord. Alice Brás, Armandina Maia. - Sintra : Câmara Municipal, 1999. - p. 121-122
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A Rádio ONU entrevista o economista-chefe e diretor da unidade de Consultoria Estratégica para a África do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud

ouça em http://www.youtube.com/watch?v=-6o6apH9gzI

Nesta entrevista concedida à Leda Letra, Pedro Conceição fala sobre a sua carreira na ONU, sua rotina de trabalho e a integração da língua portuguesa entre vários países. Imagens e Edição: Daniela Gross.

Razões da Situação Precária de Portugal O Narcisismo do meu País


Razões da Situação Precária de Portugal
O Narcisismo do meu País

António Justo
Portugal tem uma população muito trabalhadora mas economicamente ineficiente. O maior problema da sociedade portuguesa está no facto de ter uma classe média acomodada e presunçosa com falta de espírito empreendedor, geralmente colada ao Estado e a burocracias ineficientes.

Em nome do progresso, o povo foi submetido a um ritmo de mudança tal que perdeu a visão geral dos problemas, entrando num processo desorientação e numa despersonalização que se expressa no exagerado consumo de antidepressivos em relação a outros países. Encontramo-nos perante um país com um Estado cobaia sempre a importar novos conceitos mas sem tempo para os digerir nem para desenvolver conceitos próprios com base na própria experiência (isto pude constatá-lo durante 30 anos nas formações anuais do Ministério da Educação – uma semana por ano). A vida dura leva-o a sonhar: ir ao shopping, ver futebol não restando tempo para ler.

Enquanto países como a Alemanha se preocupam em receber imigrantes qualificados para as suas empresas, Portugal fomenta a emigração duma juventude sem lugar para ela na sociedade.

Como emigrantes, os portugueses, são bons camaradas e ao mesmo tempo amigos do patrão. Enquanto os portugueses no estrangeiro aforram, na terra gastam mais do que produzem. Os não emigrados, julgando que os “emigrantes” ganham o dinheiro sem suor, veem-nos de revés. A inveja não suporta outros de cara lavada.

A assimetria no desenvolvimento de maiorias e minorias fomenta a inveja. Uma política partidária narcisista tem acentuado o problema.

Enquanto na França há 1,99 crianças por mulher, na médias dos 27 países da EU 1,58, Portugal consegue, com 1,32 por mulher, ser na Europa, o país que menos filhos gera. Portugal ainda os poucos filhos que tem obriga-os a emigrar, não criando espaço económico para eles. Sangra-se. Paulo Morgado denuncia, com objetividade, Portugal com um Estado colosso como um polvo que tudo abafa não permitindo concorrência na vida económica e cultural portuguesa. “O mercado português ainda se move mais pela parte relacional do que pela competência”. Isto podemos constatá-lo desde a administração pública às Câmaras Municipais, onde há chefes de si mesmos (sem um mínimo de pessoal a administrar) com projetos artificiais (para colocar amigos).

O Estado não se tem preocupado com política familiar, castigando quem tem filhos; não se tem preocupado com o fomento de empresas pequenas e médias, aquelas que poderiam criar emprego e produção portuguesa. Cada um, onde está faz por si. Na arena pública da nação são constantes os discursos políticos; a discussão económica tem sido pouco séria, muitas vezes apresentada sob uma perspetiva de autodefesa ou de culpabilização dos outros. As empresas e o discurso cultural encontram pouco espaço na discussão pública.

A classe política, na sua incompetência da gestão pública, desqualificou-se ao deixar chegar o país à beira da insolvência.

A via para sair da crise será “o saber de experiência feito”

“Porque é sono o não saber”, constatava já Fernando pessoa.
As instituições não têm assumido responsabilidades. Os problemas políticos, sociais e económicos, são em geral discutidos nos Media sob uma perspetiva político-partidária, o mesmo se dando no parlamento. Nota-se falta de competência económica, no discurso nacional. Muito discurso é meramente teórico sem experiência adquirida nas empresas e nos laboratórios das universidades. Muitos dos assessores têm apenas um curso universitário e o cartão do partido. Perdemos o ideal que pautava os arquitetos dos nossos descobrimentos: “o saber de experiência feito”.

Seria esclarecedor da situação se se fizesse um estudo sobre a proveniência profissional dos deputados com acento no parlamento: quantos são empresários, quantos provenientes do serviço público, quantos ecónomos, engenheiros, juristas, pedagogos, médicos, etc. Assim se saberia os modelos de pensamento que dominam o parlamento. Daí se poderia concluir da sua competência económica e social. O jogo de xadrez do poder político cada vez descarrega mais figuras políticas na liderança de grandes empresas de relevo nacional. A objetividade cede a interesses encostados às burocracias. Um tal sistema fomenta um espírito providencialista e parasita. Um bom tema de doutoramento seria uma investigação séria sobre as grandes empresas nacionais e o número de quadros vindos da política.

Já chega de “português para inglês ver“. Em Portugal  Tudo fomenta um narcisismo latente na administração e na sociedade. O sistema fomenta a ascensão de pessoas narcisistas como se pôde verificar no currículo de Sócrates. Exagerado senso de auto-estima sob o substrato duma realidade deprimente. Ciumentos estão sempre prontos a dar a culpa aos outros e com dificuldades de relações pessoais autênticas concentram-se, por isso na sua carreira: os fins justificam os meios. Geralmente, pessoas que se encontram à frente do pelotão não sentem empatia pelos outros. Em vez da empatia têm um sentimento de grandiosidade sem limites. Querem admiração sem crítica, não se importando, a nível prático, com a exploração dos outros. O que conta é dinheiro, poder e prestígio. No mercado das opiniões, sentem-se vítimas colocando os outros no lugar do transgressor.

Vive-se uma vida ad hoc. Quem não produz mais que consome age contra a natureza! Já David Hume constatava que “não é a razão que nos orienta na vida mas o hábito”. Daí a necessidade de vozes da consciência nacional que chamem a atenção do perigo da inércia, o perigo dum hábito irrefletido em que tem vivido toda a nação: uns da cópia e os outros da imitação. Por isso a primeira exigência que se coloca a um cidadão formado é ser um cidadão cético mas consciente de que a crítica esconde a desilusão. Não se pode continuar a viver segundo o lema: já que não se tem o que se quer, aceita-se o que se não quer. Na sociedade portuguesa por onde quer que nos movimentemos tropeçamos no narcisismo. As ondas do narcisismo que emanamos são tão perigosas como as ondas de radioatividade atómica.

A primeira república portuguesa rendeu-se ao estrangeiro, a atual também. O futuro está nas nossas mãos de cidadãos! Portugal ou acorda agora ou quando acordar já não é Portugal.

António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.eu

Crónica do falar lisboetês




Crónica do falar lisboetês
De súbito, o homem do quiosque de Lisboa a quem eu pedira os meus jornais habituais interpelou-me: – O senhor é do Norte, não é? Respondi-lhe que não, que nasci na Bairrada e resido há quase 40 anos em Coimbra. Fitou-me, perplexo. Logo compreendi que do ponto de vista de Lisboa tudo o que fique para cima de Caneças pertence ao Norte, uma vaga região que desce da Galiza até às portas da capital. Foi a minha vez de indagar porque me considerava oriundo do Norte. Respondeu de pronto que era pela forma como eu falava, querendo com isso significar, obviamente, que eu não falava a língua tal como se fala na capital, que para ele, presumivelmente, não poderia deixar de ser a forma autorizada de falar português. Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Julgava eu que falava um português padrão, normalmente identificado com a forma como se fala «grosso modo» entre Coimbra e Lisboa e cuja versão erudita foi sendo irradiada desde o século XVI pela Universidade de Coimbra, durante muitos séculos a única universidade portuguesa.
Afinal, via-me agora reduzido à patológica condição de falante de um dialecto do Norte, um desvio algo assim como a fala madeirense ou a açoriana. Na verdade – logo me recordei –, não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, «piscina» diz-se «pichina», «disciplina» diz-se «dichiplina». E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos «sce» ou «sci»: «crecher» em vez de «crescer», «seichentos» em vez de «seiscentos», e assim por diante… O mesmo sucede quando uma palavra terminada em «s» é seguida de outra começada por «si» ou «se». Por exemplo, a expressão «os sintomas» sai algo parecido com «uchintomas», «dois sistemas» como «doichistemas». Ainda na mesma linha, a própria pronúncia «de Lisboa» soa tipicamente a «L'jboa». Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos «-elho» ou «-enho», que soam cada vez mais como «-ânho» ou «-âlho», como ocorre por exemplo em «coelho», «joelho», «velho», frequentemente ditos como «coalho», «joâlho» e «valho». Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudo a sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo: «pov» ou «continent», em vez de «povo» e «continente». Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia da palavra «Portugal», ela soa muitas vezes como algo parecido com «P'rt'gâl». O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão. Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de «chês» e de «jês», é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras.
A propósito do português do Brasil, vou contar uma pequena história que se passou comigo. Na minha primeira visita a esse país, fui uma vez convidado para um programa de televisão em Florianópolis (Santa Catarina). Logo me avisaram de que precisava de falar devagar e tentar não comer os sons, sob pena de não ser compreendido pelo público brasileiro, que tem enormes dificuldades em compreender a língua comum, tal como falada correntemente em Portugal. Devo ter-me saído airosamente do desafio, porque, no final, já em «off», o entrevistador comentou: «O senhor fala muito bem português.» (queria ele dizer que eu tinha falado um português inteligível para o ouvido brasileiro). Não me ocorreu melhor e retorqui: – Sabe, fomos nós que o inventámos... Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros, quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no «dialecto» lisboetês corrente nas estações de televisão.
Quando deixei o meu solícito dono do quiosque lisboeta do início desta crónica, pensei dizer-lhe em jeito de despedida, parafraseando aquele episódio brasileiro: – Sabe, a língua portuguesa caminhou de norte para sul... Logo desisti, porém. Achei que ele tomaria a observação como uma piada de mau gosto. Mas confesso que não me agrada a ideia de que, por força da força homogeneizadora da televisão, cada vez mais portugueses sejam «colonizados» pela maneira de falar lisboeta. E mais preocupado ainda fico quando penso que nessa altura provavelmente teremos de falar em inglês para nos entendermos com os espanhóis e – ai de nós! – talvez com os próprios brasileiros...
. ...............................................Vital Moreira (in «Público» de 4 de Janeiro de 2000)
 

SABER MATEMÁTICO E CULTURA INDÍGENA





 
SABER MATEMÁTICO E CULTURA INDÍGENA
                                        Por NASCIMENTO, J.B
UFPA/ICEN/ Fac. Matemática
http://lattes.cnpq.br/5423496151598527
www.cultura.ufpa.br/matematica/?pagina=jbn
 
No JC e-mail, http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57396, 17/07/2008, foi republicado artigo original da BBC Brasil, Tribo da Amazônia contradiz noção de que contar é capacidade 'inata', o qual é parte do estudo recém publicado na revista científica Cognition do professor Edward Gibson (MIT), tese essa fundamentada na seguinte constatação: ¨os Pirahã (tribo que vive às margens do rio Maici, em Rondônia) não têm palavras para expressar o conceito de "um" ou de outros números específicos.¨
 
Não acontece só com Matemática, mas com todo saber, guardar sentido distinto quando há elementos culturais dispares na ação. Assim, quando relatório MEC/INEP/SAEB diz que apenas 6% dos concluintes do ensino médio apresentam um de nível de aprendizagem adequado, quem aceita que a base de moralidade pública que subsidiou tais provas conclui sem nenhum remorso que 94% deles não aprenderam e/ou os seus docentes nada ensinaram da Matemática em doze anos de estudos.
 
No entanto, o elemento cultural que sustenta a tese, o que venha ser moralidade pública, faz com que essas provas usadas na produção de tais dados sejam sigilosas, ser criminoso querer saber e até vergonhoso publicá-la. Nem mesmo tal conclusão carregar conjuntamente uma crença dos estudantes ter alguma debilidade cognitiva, não o faz desconfiar de nada. E nem mesmo dados de cotistas, e de todos os casos, provar que esses são até melhores em alguns cursos superiores é capaz de acender uma reflexão de alerta sequer.
 
Da mesma forma, ¨contar¨ é cultural. Um exemplo disso é quando em feira de municípios paraenses, como Igarapé-Mirim, Cametá, São Miguel do Guamá, Viseu, etc encontrarmos quem venda açaí em cacho, sendo esse um fruto da base alimentar regional – juçara no Maranhão. Se alguém perguntar para ele o que vende, dirá que é cacho de açaí. Se aquele retirar alguns frutos e depois faça a mesma pergunta, obterá a mesma resposta. Transparece então que esse não sabe contar, pois ante a retirada de frutos esse continuar concebendo permanecer a mesma coisa.
 
Essa é uma conclusão falsa. Contar ele sabe, só não é da forma que tal pessoa foi treinada. Assim como, não é que ele seja incapaz de aprender contar tal, mas apenas pode ser que isso não o interesse. E, tudo tem que ser concebido ao natural, sem qualquer conotação quanto à capacidade cognitiva deste. Se perceber que tal pergunta é para inferiorizá-lo quanto ao saber é muito capaz dizer quantos frutos havia antes e quantos sobraram depois. E complementando, caso expresse dúvida, precisarás contar todos e ele sabe como mexer no cacho, fazendo você perder tal contagem. Deixar que  tome-o por otário é o que ele nunca venderá barato. Sendo esse outro aspecto cultural.
 
O óbvio que é um professor do MIT no meio de uma tribo indígena, e mesmo entre poucas do espectro social brasileiro, já não é natural. Depois, mesmo que isso fosse possível, para precisar que esse sabe contar deveria, por exemplo, ir numa pescaria com um desses e quando esse já achasse que tinha pescado o bastante, tentasse fazer com que ele trouxesse um peixe a mais ou de menos. Ele iria mostrá-lo que sabe quantos precisa alimentar com o quantitativo que já pescado, em quantos pedaços os peixes serão repartidos, quem comerá cada pedaço. Ou seja, ele sabe contar, só não é usando ¨um¨,  ¨dois¨, ¨três¨..., como o professor decorou que se conta na tribo dele.
 
Outro exemplo bem simples é: se você perguntar para uma jovem indígena de algumas tribos brasileiras o porquê das listas que aparecem no seu rosto ser retas paralelas, ela não vai entender nada por não saber o que seja ¨retas paralelas¨. No entanto, caso você proponha pintá-la de tal forma que, quando ela ao olhar-se em espelho, perceba que os riscos se encontram, sabe qual seria a cara dela? Tal qual se uma jovem da cidade lhe pedir, digamos, antes de sair para sua festa de casamento, que você lhe passe batom e você lambuze todos os lábios dela.
 
Ou seja, culturalmente a indígena sabe o conceito matemático de paralelismo e concorrência de retas, aplica-o no seu cotidiano, mas não é da mesma forma que em outras tribos. Portanto, o conhecimento matemático é o mesmo, mas com diferentes formas de expressá-lo, aplicá-lo, denotá-lo, etc. Isso fica visível em quesito de prova de matemática aplicado em escala mundial pelo PISA/OCDE. Em língua inglesa, antes de perguntarem esclarecem que chamam dado como sendo um cubo especial em que suas faces opostas foram pintadas de tal forma que: a soma dos pontos dessas faces sejam sempre sete. Já para países como o Brasil, a mesma pergunta é como se essa hipótese que o caracteriza já fosse verdade sempre para todo que chamam por dado.
 
Entretanto, crianças muitas do Brasil, como foi o meu caso, para brincar de dado precisam, por exemplo, assar caroço de  mucunã (fruto seco), fazer um cubo e pintá-lo. Quanto o mais importante é pintar de um ao seis nas faces, independentemente de quais números fiquem em face opostas, pois isso não importa para jogar dado. E ninguém poderia chamá-las por isso, como fizeram com os resultados do PISA, de otária, dado que isso é da vivência, das oportunidades de cada um e do gosto pessoal até. Porquanto, não serve para dizer quem sabe mais ou menos matemática. Pior ainda, para fazer o que não existe: induzir qual é mais ou menos inteligente.
 
Finalmente, isso acontece no macro, mas não deixa de ocorrer no mundo micro de uma aula e isso explica muito, não tudo eu sei, do que estão chamando de fracasso do ensino da matemática no Brasil.
 
 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

AS IMPOSSÍVEIS RENÚNCIAS DE AGOSTINHO NETO E ELIANE POTIGUARA


Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
Carta para Eliane


AS IMPOSSÍVEIS RENÚNCIAS DE AGOSTINHO NETO
E ELIANE POTIGUARA

por:
LEONEL COSME


     Tenho de começar por dizer que a minha memória não regista, depois da Renúncia Impossível, do maior poeta negro angolano Agostinho Neto, outro livro tão perturbador como é "Metade cara, metade máscara", da escritora e poeta índia brasileira Eliane Potiguara, a cuja apresentação assisti, na cidade do Porto, a 13 de Novembro de 2010, em Portugal.
     Perturbador, a todos os títulos, mas logo pelas epígrafes escolhidas para introduzir a sua mensagem de autora índia vinda do Brasil, face a uma audiência expectante porque, na generalidade, distanciada, física e culturalmente, de uma mensageira talvez só (mal) imaginada no recôndito das selvas brasileiras, onde, segundo raras notícias veiculadas pela comunicação social, os fazendeiros latifundiários continuam a não deixar os nativos em paz na terra-mãe que lhes pertence desde a Criação.
   Começando por uma significativa advertência recolhida do poema O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa,

     Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.

     adianta:

     No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente colectivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos.

     Penso: que outra voz igual, vinda de África, ressoando a uma impossível renúncia e à crença numa sagrada esperança, ecoava na minha memória?

     Ah!
     Faça-se luz no meu espírito
     LUZ!
     Calem-se as frases loucas
     desta renúncia impossível.
     Eu-todos nunca me negarei
     nunca coincidirei com o nada
     não me deitarei nunca debaixo dos comboios.

  Sou um valor positivo
     da Humanidade
     e não abdico,
     nunca abdicarei!

     Seguirei com os homens livres
     o meu caminho
     para a Liberdade e para a Vida.

     A minha memória ia direita à voz de Agostinho Neto, o poeta revolucionário angolano, que depois da Renúncia Impossível escrevera Sagrada Esperança, para transmitir ao seu o povo a força motora 

     Nós somos
     Mussunda amigo
     Nós somos!

     da mensagem conclusiva:

     Do caos para o reinício do mundo
     para o começo progressivo da vida
     e entrar no concerto harmonioso do universal
    digno e livre
    povo independente com voz igual
    a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.

    Não é uma voz igual, esta, também épica, a de Eliane Potiguara?

     Nós, povos indígenas
     Queremos brilhar no cenário da História
     Resgatar nossa memória
     E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
     Radicalmente
     Entre milhares de aldeados e “desplazados”
     Como nós.

     Ah, a História, lembrando-nos sempre que começa com o que vem de trás! Faço minhas estas palavras de Graça Graúna, no prefácio:

     Em verso ou em contação de histórias, a visão dos povos indígenas em Potiguara é fruto da somatória de saberes ancestrais e dos chamados tempos modernos. Não é à toa que ela questiona a representação da mulher indígena na sociedade não-índia, mostrando que desde a colonização essa mulher foi e continua sendo tratada com requintes de malícia, discriminação, brutalidade, preconceito. Basta um olhar nas cartas que falam do “Descobrimento” das Américas, ou no antidiálogo de jesuístas para aquilatar a imagem da mulher indígena: pecado em carne e espírito, perversão, encarnação do mal.

     E em poema, o retrato feito pela própria Eliane é ainda mais trágico:

     Que faço com a minha cara de índia?
    E meu sangue
     E  minha consciência
     E minha luta
     E nossos filhos?

     Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

     Não sou violência
     Ou estupro
     Eu sou história
     Eu sou cunhã
     Barriga brasileira
    Ventre sagrado

Povo brasileiro

     Ventre que gerou
     O povo brasileiro
     Hoje está só…
     A barriga da mãe fecunda
     E os cânticos que outrora cantavam
     Hoje são gritos de guerra
     Contra o massacre imundo.

     E regresso a um segundo prefácio, de Daniel Munduruku:

     Houve um tempo que pertencer a um povo indígena era quase uma maldição. Falava-se destes povos como atrasados, selvagens, inoportunos para o progresso, sem razões e sem convicções. Havia quem falasse que desapareceriam à mercê do capitalismo selvagem, já que não teriam como resistir ao impacto da “civilização”. Havia, porém, quem ousasse defendê-los, encorajá-los, informá-los sobre o seu real papel dentro da sociedade envolvente. Estes amigos acreditaram na verdade destes povos, acreditaram em sua índole, acreditaram no seu futuro.

     Tendo eu vivido quase metade da minha vida, a partir dos dezasseis anos, em Angola, - como o Brasil, país com minorias tidas como “inoportunas para o progresso” – cedo me ocorreram as vozes amigas de escritores e antropólogos, já falecidos,  como Henrique Abranches, Alfredo Margarido e Ruy Duarte de Carvalho (estes dois últimos tendo lecionado em Universidades brasileiras), que, sendo portugueses de origem, consagraram a sua vida e obra à defesa dos indígenas angolanos “inoportunos para o progresso” porque  resistindo aos “impactos da civilização e do capitalismo selvagem, dentro e fora da sociedade envolvente”.
     No mesmo contexto sociológico, não deixarei de juntar àqueles estudiosos das identidades primigénias angolanas o nome de A.F.Nogueira, que em 1880 deu à estampa um livro básico para o estudo da colonização de Angola: A RAÇA NEGRA – Sob o ponto de vista da civilização da África – Usos e costumes de alguns povos gentílicos do interior de Moçâmedes – As colónias portuguesas.
      Diga-se que António Francisco Nogueira, de seu nome completo, foi um dos primeiros colonos portugueses, entre duas centenas, saídos em 1849/50 de Pernambuco, fugindo à Revolução Praieira, para o território namibiano, pouco povoado, do sul de Angola, onde viveu um quarto de século. Etnólogo autodidacta, levava do Brasil uma visão realista que o levou a prever, como inevitável, a independência dos povos colonizados. E – surpresa, hoje! – apresentava a independência do Haiti como um paradigma da libertação. No Brasil, ele aprendera o que era visível da escravidão africana, certamente lamentando que os missionários jesuítas só tivessem investido o seu humanismo na preservação das almas índias, conferindo-lhes um direito de cidadania que porém só acabaria por ser exercido, como que silenciosamente, à margem dos colonizadores, no recôndito das florestas. Zumbi e Palmares viriam por acréscimo…
     Nogueira não se deixou iludir pelo “acertos naturais” dos Camurus e Paraguaçus, que já não tinham entusiasmado o clássico Gregório de Matos, - apesar de também ter casado com uma mulher de cor e vivido um ano de desterro em Angola, por ser “Boca do Inferno” - como se calcula partindo da primeira quadra de um “multirracial” verso oferecido “Aos principais da Bahia chamados os Caramurus”:

     Há cousa como ver um Paiaiá
     Mui prezado de ser Caramuru,
     Descendente de sangue de Tatu,
     Cujo torpe idioma é cobé pá.

     Gilberto Freyre ainda não existia para pregar as virtudes da miscigenação e da multiculturalidade, ele que, no relato da Vida Social no Brasil do Século XIX, já não registara a presença de índios entre os escravos negros amansados ao serviço da Casa-Grande, que vestiam de preto durante meses, em sinal de luto pelos seus ioiôs e iaiás…
     Sempre houve muitos “brasis”, antes e depois de Cabral. Como houve muitas outras “américas”, antes e depois de Colombo, e muitas “áfricas”, antes e depois de Diogo Cão. E todas consignando, distintamente, a brancos, negros e pardos, o direito à preservação da identidade primária, uns por meio da posse, outros pela resistência à posse. Também foi, e continua a ser assim, em África, onde o otimismo do académico e então diplomata brasileiro na Nigéria, nos anos 60, Antônio Olinto, podia ainda levá-lo a escrever, em Brasileiros na África:

     Nos meus primeiros tempos de África, em Dacar, Freetown, Acrá, Porto Novo (Daomé) e Lagos, os jovens negros de Abidjan, lendo sob os postes, eram o signo de uma verdade nova no mundo, de um modo diferente de fazer democracia e buscar o socialismo, de formas ainda não muito conhecidas de reestruturar as bases da administração pública, no esforço de “africanização” que, em maior ou menor grau, ocorre em qualquer parte do continente negro. Que as Africas são muitas, mas todas caminham para uma unidade.

     Era uma época propiciadora de muitas “sagradas esperanças”, em que os negros de todo o mundo, falando a língua do colonizador,  chamassem-se Agostinho Neto, Abdias do Nascimento, Frantz Fanon ou Thiongo wa Ngugi, subscreveriam o ditame de Sécou Touré:

     Como cada um de nós traz em si uma parte de educação saída do regime colonial, e por isso mesmo um pouco de “complexo” herdado desse regime, devemos impor-nos a nossa própria e completa reabilitação, isto é, que cada um de nós regresse às fontes culturais e morais de África, que se reintegre na sua própria consciência e que se reconverta, em pensamentos e acções, aos valores, às condições e aos interesses de África.

     Mas, o tempora! o mores! a sede e/ou a necessidade de poder, que começaram para assegurar, por razões de sobrevivência, as conquistas das terras ricas de flora e fauna, dividiriam os povos entre conquistadores e conquistados, mostrando, afinal, que conforme a sua força e representação étnica, homo homini lúpus, em vez de homo sum, humani nihil a me alienum puto. Ou entre os kimbundus, kala nguvulu ni utuminu uê, kala nvula ni maloua mê, que o cronista angolano Óscar Ribas traduziu por “cada governador com o seu administrar, cada chuvada com os seus lamaçais”. Hoje, se fosse vivo na sua pátria (morreu triste em Portugal), aquele sábio mestiço, que exaltara a independência da sua terra-mãe, não deixaria de reflectir sobre os caminhos ínvios perspectivados pelo escritor guerrilheiro Pepetela nos seus perturbadores romances Mayombe, de 1980, e A Geração da Utopia, de 1992.
     Era, pois, preciso escapar aos “lamaçais” endógenos e exógenos e retomar o “caminho” do regressso à “terra sem males”, no dizer de Eliane falando da “ancestralidade histórica” dos Guaranis, “uma terra que lhes permita viver com dignidade, sem interferências paternalistas, enfim, um paraíso mítico de sua ascendência.” O líder guineense de origem cabo-verdiana, Amílcar Cabral, sendo mais específico, corroborava:

     A nossa resistência cultural consiste no seguinte: enquanto liquidamos a cultura colonial e os aspectos negativos da nossa própria cultura no nosso espírito, no nosso meio, temos que criar uma cultura nova, baseada nas nossas tradições também, mas respeitando tudo quanto o mundo tem hoje de conquista para servir o homem.

     Por sua vez, Agostinho Neto, nacionalista pragmático, reiterava, quando Angola acabava de conquistar a independência:

     Nós somos uma encruzilhada de civilizações, ambientes culturais, e não podemos fugir a isso de maneira nenhuma, mas da mesma maneira que nós pretendemos manter a nossa personalidade política, também é preciso que nós mantenhamos a nossa personalidade cultural.

     Tratava-se, simplesmente, de defender as identidades nacionais, preservando a “ancestralidade histórica”. Todavia, como observava em 1986 o então jovem ensaísta angolano Luís Kandjimbo, em Apuros de Vigília,

     É forçoso considerar que existindo nos nossos países várias ex-nações, existem concomitantemente vários níveis de desenvolvimento sócio-económico e cultural. Dito de outro modo: existem concomitantemente diversos modos de produção social. A identidade nacional terá a sua verdadeira dimensão quando às solicitações da humanidade, em circunstâncias necessárias, a nação responder através da sua harmónica unidade. É dizer através de um desenvolvimento económico, social, cultural, político, jurídico e ideológico de unidade.
     (…) Se as resistências dos povos africanos ao colonialismo, durante todo o processo colonizador para a recuperação de uma personalidade anteriormente existente, são uma premissa para o processo prospectivo de unidade nacional dos povos africanos, a verdade é que só com o surgimento dos movimentos de libertação nacional e nas condições do desenvolvimento histórico mundial a identidade se torna um projecto real e efectivo.

     Todavia, os movimentos de libertação, civis ou militares, tiveram de partir para uma construção nacional prefigurada pelos colonialistas, que mapearam num determinado espaço geográfico uma artificial entidade territorial, sem atender à identidade dos autóctones. Na verdade, a maioria dos países reconhecidos como Estados-Nações foram “construções” arbitrárias dos conquistadores que os invadiram.
     Há dois séculos, no país chamado Brasil, ainda se contavam duas centenas de etnias falando mais de cem línguas e dialectos. Povos que, não reconhecendo as fronteiras administrativas mapeadas pelo invasor estrangeiro, se disseminavam por paízes vizinhos. Em Angola, a situação, tomada por cerca de metade da brasileira, era similar: as “nações” identificavam-se pelo espaço territorial em que grupos da mesma língua, tradições e práticas exerciam, pacificanente ou em transe de guerras de ocupação, o “direito” de sobrevivência em acordo com a sua natureza. O suposto resto do Mundo envolvente, a sua cosmogonia, cabia bem na epígrafe pessoana escolhida por Eliane Potiguara: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
     Só que a “aldeia” da Poeta e do seu povo originário foi submersa pelos avatares de uma história que, vindo de trás, era fatalmente dialéctica, restando numa “sagrada esperança” de salvação da alma:

     Ah! Já não tenho a minha aldeia/ Minha aldeia é meu Coração ardente! É a casa dos meus antepassados! E do topo dela eu vejo o mundo! Com o olhar mais solidário que nunca! Onde eu possa jorrar! Milhares de luzes! Que brotarão mentes! Despossuídas de racismo e preconceito.

     Lembro-me de que nesses avatares também mingua o espaço para as utopias. Que pensar se um poeta angolano, de raiz bochímane (de que resta, hoje, um povo que se conta por escassos milhares nos territórios semidesérticos de Angola e do Sudoeste namibiano) exclamasse num grito de desesperança:

     Os nossos irmãos-vizinhos bantus pensam-nos como não-gente! Porque temos diferenças anatómicas na cor da pele e no tamanho! Porque falamos numa língua de cliques, vivemos de caça, pastorícia e raízes e enganamos a fome e restauramos energias comendo um certo cacto do deserto (hudya)!

     Defrontando as inclemências ou indiferenças dos vizinhos-homens e as perturbações climáticas por estes também provocadas, em razão de outro “direito” de sobrevivência, dir-se-á que a dialética se consome na salvação da alma. Di-lo a ameríndia Eliane Potiguara e o português-angolano Ruy Duarte de Carvalho, estudioso do ethos do povo herero, - que subsiste, ainda autonomamente, no sul de Angola - ao qual consagrou a sua vasta obra de escritor-antropólogo, até ser sepultado, depois de correr o mundo, conforme a sua vontade, no deserto de Moçâmedes:

     Ainda quererás saber qual é a minha posição no meio de tudo isto? Campanhas, de qualquer forma, não. Estou pronto a esclarecer no que puder mas não me peçam nem que ajude a domesticá-los nem que pugne pela causa da preservação dos seus modelos e sistemas, que de qualquer maneira não seria a deles.(…) Estou a investir-me numa teoria pessoal dos horizontes onde cabe tudo. (…) Não é só a salvação dos Kuvale que está em causa, é a minha também…

     Viajante por natureza assumida (Carvalho saíra de Portugal, para Moçâmedes, com treze anos de idade), entre os hereros aprendeu vivendo o pleno sentido da máxima de Terêncio: “Sou homem e nada do que é humano considero estranho a mim.”

     Aqui me dei, aqui me fiz
     Desfiz, refiz amores.
     Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

     Daqui abalo hoje, parido para o nada
     apalpo a água
     afago um bicho
     ordeno qualquer coisa
     e vou.

     Sempre indo, ele faria coro, certamente, com o grande poeta espanhol António Machado - “Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar”- e o poeta colombiano Manuel Vejia Vallejo: “Si camino siempre hacia adelante/Un dia llegaré/Al punto de partida./Asi he sabido que todo/camino del hombre/ es camino de regresso.”
     Esta será porventura a mensagem do livro de Eliane, a caminhante.

LEONEL COSME
Escritor - Ensaísta Português 

Publicado no http://angolanodeandrade.blogs.sapo.pt/