segunda-feira, 24 de outubro de 2011

a palavra e os guarani


Palavra indígena
A história da tribo Sapucaí, que traduziu para o idioma guarani os artefatos da era da computação que ganharam importância em sua vida, como mouse (que eles chamam de angojhá) e windows (oventã)

Terciane Alves

Crianças da aldeia sapucaí, em Angra dos Reis (RJ), em contato com o mundo da informática: incorporação vocabular

O índio Algemiro Potty ("flor", em guarani) vive em uma casinha de pau-a-pique coberta de palha, na tribo sapucaí, em Angra dos Reis (RJ). Filho do cacique Verá Mirim (João da Silva), cozinha em fogão a lenha e prefere assar o peixe na folha de bananeira. Como muitos integrantes da sua tribo, Potty tenta resistir aos sedutores confortos da vida contemporânea, signos de uma aculturação que preferem evitar o quanto podem. A casa, sem divisórias de cômodos, tem como piso o chão de terra batida, e Potty não usa fogão a gás, geladeira ou outro aparelho doméstico. Mas com o computador, a conversa é diferente.
Quando a internet chegou àquela comunidade, que abriga em torno de 400 guaranis, há quatro anos, por meio de um projeto do Comitê para Democratização da Informática (CDI), em parceria com a ONG Rede Povos da Floresta e com antena cedida pela Star One (da Embratel), Potty e sua aldeia logo vislumbraram as possibilidades de comunicação que a web traz.
Ele conta que usam a rede, por enquanto, somente para preparação e envio de documentos, mas perceberam que ela pode ajudar na preservação da cultura indígena.
A apropriação da rede se deu de forma gradual, mas os guaranis já incorporaram a novidade tecnológica ao seu estilo de vida. A importância da internet e da computação para eles está expressa num caso de rara incorporação: a do vocabulário.
- Um dia, o cacique da aldeia sapucaí me ligou. "A gente não está querendo chamar computador de 'computador'". Sugeri a eles que criassem uma palavra em guarani. E criaram aiú irú rive, "caixa pra acumular a língua". Nós, brancos, usamos mouse, windows e outros termos, que eles começaram a adaptar para o idioma deles, como angojhá (rato),  oventã (janela) - conta Rodrigo Baggio, diretor do CDI.
Conversão natural
Potty diz que o vocabulário guarani para os componentes do mundo virtual não é amplo, mas espera que o número de vocábulos cresça à medida que o uso da internet avance e haja mais instrutores para formar educadores por lá. É também o anseio da missionária de Jesus Crucificado Eunice Pereira, freira que participou da capacitação para ajudar os guaranis no uso da internet.
- A gente enfrenta dificuldade, não consegue professores voluntários, aguarda mais instrutores para acompanhar o programa, que fica muitas vezes parado.
Para o filho do cacique, a conversão dos nomes se deu de forma natural. Para assegurar os costumes e tradições guaranis, Potty escolheu duas vertentes de trabalho: preservar a língua e a comida. A primeira, baseada na importância que o idioma tem para novas gerações, e a segunda, numa alimentação de subsistência, não predatória.
- Há trabalho de conscientização para preservar o tipo de alimentação e a língua. As lendas ajudam a manter a cultura.
Ele defende que as lendas não podem ser contadas em português.
- Ninguém fala português na aldeia, a não ser quando o homem branco chega.
Seja entre os acadêmicos ou missionários, ou lideranças indígenas, os guaranis que migraram para o litoral do país, indo para São Paulo e Rio de Janeiro, são considerados com espanto por conseguirem manter-se nos dias atuais ainda mais apegados aos seus costumes do que outras comunidades indígenas do país. É o caso do subgrupo que se instalou em Angra dos Reis, a 20 quilômetros da cidade.
- Ainda assim, é uma comunidade que sofreu muito, assim como a maioria das tribos que estão no nordeste do país, mas conseguiu resistir - conta Virgínia Pontes, antropóloga e uma das coordenadoras do núcleo do programa.
Virgínia ressalta que lá existe uma mobilização para a sobrevivência do grupo. As crianças da aldeia têm alfabetização bilíngüe; aprendem guarani e português.
- Estão agora fazendo a revitalização da língua dentro da escola.
Sensibilidade do idioma
O povo guarani tem uma cultura muito sensível, define Ailton Krenac, líder indígena que militou na criação da ONG Povos da Floresta. Ele relembra o fato com admiração. Esse povo costuma dizer que o mundo dos juruás (brancos) é "carregado de sentido". Por isso, diz Krenac, o contato com a internet tem sido feito com cuidado.
Explica que o computador fica numa sala de aula e as crianças são monitoradas, não por economia, afinal a comunicação é por satélite, mas por controle social, para evitar acesso à pornografia.
A adaptação da linguagem da computação para o idioma indígena retrata a importância que a ferramenta assumiu na vida da tribo.
Ele diz que foi uma experiência muito importante, porque mostra que, se uma ferramenta como a internet chega às mãos de um povo que está num processo de autonomia e de organização, ela é apropriada. Se chega a um povo que está com os seus caminhos ainda cercados, precisa ser decifrada, adaptada e transformada num item aplicável.
Sustentabilidade
Os mentores da Rede Povos da Floresta, criada há quatro anos, explicam que o projeto nasceu com a proposta de envolver comunidades tradicionais da floresta (quilombolas, caiçaras, ribeirinhos e indígenas, mesmo de aldeias isoladas) e grupos de apoio a essas culturas. A tecnologia da informação, com acesso à internet, é considerada um mecanismo de sustentabilidade desses povos.
O índio Algemiro Potty ao lado de João Fortes, coordenador institucional da Rede Povos da Floresta: críticas à inclusão do computador ao cotidiano lexical guarani

Ao mesmo tempo que quilombolas e caiçaras são valorizados por sua contribuição à preservação ambiental, estão impedidos de realizar atividades tradicionais, como a roça de coivara e o extrativismo do palmito. Os indígenas sofrem com o problema da extinção. Segundo a OMS, a expectativa de vida deles é de 42,5 anos, enquanto a de um brasileiro médio é de 67 anos.
Krenac diz que a tecnologia é uma ferramenta fundamental, hoje, para as populações indígenas defenderem sua cultura e se preservarem contra agressões internas e externas. 
Aprendendo a usar
A proposta inicial do projeto era interligar as aldeias indígenas e conectá-las à internet, como forma de defender e preservar a cultura dessas comunidades, estimulando ações comunitárias de vigilância de áreas protegidas. Começaram o projeto populações como as dos axamincas e iauanauás (no Acre); guarani (RJ) e xacriabás (MG).
- Hoje são 186 pontos listados para ser conectados - diz Virgínia Pontes.
O projeto explora uma das possibilidades de uso da tecnologia informática na preservação cultural e econômica dos índios.

Krenac explica que essas comunidades são ameaçadas, sobretudo por invasores de países fronteiriços, como madeireiros da Bolívia, e nesses casos a tecnologia os ajuda a denunciar os abusos e a buscar o apoio de autoridades. Isso já aconteceu diversas vezes, o que reforça quanto o uso da tecnologia pode favorecer as populações que vivem em áreas isoladas.
No entanto, diz ele, com públicos especiais, tem-se de pensar em algo além de uma capacitação em informática. Por isso, o CDI adota uma metodologia (com base em Paulo Freire) que investe na apropriação da tecnologia por parte dos educandos de suas Escolas de Informática e Cidadania. Instaladas em cidades, em áreas rurais, em presídios ou em comunidades indígenas, as EICs apresentam a informática a usuários em situações de risco social para que conheçam melhor o mundo em que vivem, se aproximem de outras realidades, troquem informações e busquem desenvolvimento e autonomia. Se isso é feito, de fato, há de se verificar, mas a versão guarani da linguagem do computador é indício do potencial apelo de iniciativas do gênero.
Religião e palavra
Os guaranis da costa do Brasil são oriundos de vários estados e até de outros países. Começaram a se distribuir pelo litoral na década de 1940, por motivação religiosa.
- Eles acreditam em uma terra sem mal, em um paraíso geográfico - explica Eduardo Almeida Navarro, livre-docente da área de línguas indígenas da USP.
Navarro finaliza o seu Dicionário de Tupi Antigo, a ser lançado no início de 2008. Segundo ele, os guaranis estão mais presentes em Peruíbe, Mongaguá, Parelheiros (em São Paulo) e Angra dos Reis, num movimento que Navarro chama de expansão.
- Eles são surpreendentes. Estão em contato há décadas com a sociedade, mas ainda preservam costumes antigos. Esse contato com a vida urbana sempre se mostrou negativo para as comunidades indígenas, mas os guaranis são uma exceção.
Para Navarro, uma das causas de conservação da língua pode ser a adesão de princípios religiosos que os mantêm firmes à sua cultura.
- Mas eles já sofrem a influência da TV, vemos crianças vendo Batman e ao mesmo tempo cantando canções em guarani e contando lendas.
Mesmo sem escapar de influências como essas, a fidelidade lingüística da aldeia sapucaí ao guarani pode representar um sinal de uma rara vitalidade cultural. A de quem assimila o que lhe é estranho sem necessariamente perder a identidade.

Alguns termos da era da informática traduzidos pelos guaranis
Versão brasileira
Computador
Mouse
Windows
Versão guarani
Aiú irú rive
Angojhá
Oventã
Sentido original
Caixa pra acumular a língua
Rato
Janela


Um idioma andante
Conservadorismo e impulso migratório caracterizam língua guarani no Brasil
Por Aryon Dall'Igna Rodrigues
Toda língua é de importância fundamental para seu respectivo povo. Isso, que vale para qualquer povo no mundo, vale naturalmente para os guaranis. É no processo de aprender e usar a língua materna que as pessoas se humanizam, aprendem sua cultura e se identificam como seres humanos. Essa identificação se dá não só com respeito aos usos e costumes sociais, mas também às crenças espirituais, estas naturalmente com conceitos próprios menos traduzíveis em outras línguas.
Os guaranis que estão em Angra dos Reis são falantes do dialeto que tem sido chamado de mbyá, diferente do dos kaiwá de Dourados (MS) e do dos nhandéva de Araribá, (SP) e Laranjinha ( PR), mas idêntico ao dos demais mbyá: guaranis do Espírito Santo, de São Paulo (litoral e Pico do Jaraguá), do Paraná (litoral e Laranjeiras do Sul), de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, assim como do sudeste do Paraguai e nordeste da Argentina.
Dos três grupos de guaranis que falam esses dialetos, os mbyá são os mais conservadores lingüística e culturalmente, e isso é que talvez explique o constante impulso migratório que os tem levado a deslocar-se tanto no século 20, já que todas as suas comunidades têm sua origem na fronteira do Paraguai com o Brasil e a constante migração que os trouxe para a costa brasileira, e nesta os tem levado sempre mais para o norte, parece denunciar seu apego a crenças tradicionais e o desapego à fixação em determinado lugar.
Todo povo é apegado ao conhecimento herdado de seus antepassados. Não se pode contrastar os guaranis com os demais povos indígenas do Brasil, que são um pouco mais de 200 (uma lista e a informação sobre esses povos pode ser vista no site do Instituto Socioambiental, www.isa.org.br), todos procurando sobreviver com seus conhecimentos e suas crenças sob a violenta pressão contínua da sociedade majoritária. Esta os oprime de múltiplas maneiras: tomando suas terras, invadindo suas aldeias, introduzindo nelas missionários de outras religiões, que não hesitam em criticar e condenar suas crenças mais sagradas. Aliás, qual o brasileiro comum (não índio) que concebe poder ser brasileiro senão falando português?
Aryon Dall'Igna Rodrigues pesquisa línguas indígenas desde 1940, criou e dirige o Laboratório de Línguas Indígenas na Universidade de Brasília.
Marcas de identidade
As principais diferenças do guarani em relação ao português
O guarani ("guerreiro") é a língua indígena mais falada do país, com 30 mil falantes (comunidades nhandéva, caiuá, mbiá). Está no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Só oito outras línguas indígenas têm mais de 5 mil falantes: guajajara, sateré-maué, xavante, ianomami, terena, macuxí, caingangue e ticuna. A flexão anteposta (o plural no início da palavra) é uma diferença do guarani em relação ao português. Exemplo do professor Waldemar Ferreira Netto, da USP:

- Aguata - ando.
- Reguata - andas.

Enquanto no português a flexão de "andar" ocorre no fim do verbo, com a letra o em primeira pessoa e s, na segunda do plural, no guarani ela vem no início, com a e r.  O idioma indígena tem dois pronomes para a primeira pessoa do plural: 

- Jaguatá - nós andamos.
- Roguata - quando eu e você andamos, mas em separado.
Almeida Navarro, livre-docente na USP, prepara um dicionário de tupi antigo, o que exige conhecimentos do guarani, línguas tão próximas. Lembra que, no português, temos preposições, mas no guarani há proposições.

- São Paulo-gui - leia-se de São Paulo.
- Curitiba-gui - leia-se de Curitiba.

E há fonemas específicos que não existem em português. Em guarani há o y  = ã (pronuncia-se com boca de i e fala u), de ka'a (mata).

Waldemar Netto pesquisou em campo a relação dos guaranis com seu modo de falar. E percebeu uma motivação mística para a língua remanescente do descobrimento.

- Eles acreditam que têm duas almas. Uma é a linguagem, que podemos entender como uma capacidade cognitiva. E a outra a força para se relacionar com o mundo animal, o instinto de sobrevivência. (T.A.)

a despedida de Cesária (Èvora)


Em dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br, Margarida Castro <margaridadsc@...> escreveu
"casa_amadis_montpellier

October 23, 2011 3:51 PM



 CASA AMADIS Lusophonie / Lusofonia 
CASA AMADIS Lusophonie / Lusofonia  
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1. 
CESARIA ÉVORA, O ADEUS AO PALCO E O REGRESSO DE UMA LENDA De :  Casa Voir tous les thèmes | Créer un nouveau thème  Message  
1. 
CESARIA ÉVORA, O ADEUS AO PALCO E O REGRESSO DE UMA LENDA  
Envoyé par :      "Casa" amadis_montpellier@...    amadis_montpellier  
Samedi 22. Octobre 2011  21:53 
CESARIA ÉVORA, O ADEUS AO PALCO E O REGRESSO DE UMA LENDA

«Mim já'm bá pa nha terra »
« Sexta-feira», disse entrelaçando os dedos, um olhar de menino encabulado. E carregou : â€" « se Deus quiser! » 
Sexta-feira, 21 de outubro. Todos os argumentos foram poucos para convencer a Cise a atardar-se ainda algum tempo em Paris â€" simples precaução depois desse grande solavanco que a levou de urgência, sem fala e quase sem fôlego, ao hospital La Pitié-Salpétriè re. No primeiro dia deu água pela barba ao corpo médico que chegou a t(r)emer pela sua sobrevivência. Graças a Deus o pior também foi curto â€" uff !
De coração generoso, quem a conhece sabe que nunca foi de muitas falas, a Diva dos Pés Descalços. No palco canta e encanta, mas falar, nem por isso. Agora, não convém provocá-la: « Sabes, Cesária, que és a voz das as mulheres sem voz ? » E ela : - « Ah ! psuda !, mim nha voz ê d'meu! ». E outra vez : que mensagem tinha a passar às mulheres japonesas ? - « Ês bá desinrascá ! » 
Nem mais. É assim a Cise : se a sua humildade faz o seu charme, que dizer desse seu humor natural com que empolgou palcos e plateias? Com os amigos, Cise deixa falar o coração. Agora, se for para convencê-la de alguma coisa, melhor mesmo é passar ao largo! «Cis txa'me bá pa nha terra » - e ninguém fala mais nisso ! 
Se existe uma pessoa que funciona ao « feeling », essa pessoa é Cesária Évora. Autêntica e sincera, suas francas gargalhadas têm essa espontaneidade de criança que às vezes nos falta a nós-outros, submetidos que vivemos à ditadura da aparência que a vida em sociedade cruelmente nos impõe.
Uma mulher de carácter, ou a força da humildade
Mas não nos iludam as aparências ! Por trás dessa inocente serenidade existe uma mulher de pulso e de carácter, impondo-se por essa rara virtude que é a humildade, paradoxalmente o segredo e a fonte da sua força. Conta quem sabe que essa força « inocente » pode traduzir-se em caprichos nem sempre muito fáceis de gerir… disso falarão aqueles que, por razões profissionais ou afectivas, estejam investidos dessa missão. Na tarde do seu último domingo em Paris, no lar familiar onde se instalou para convalescer, ainda veio à baila, assim muito a medo pa'l ca bá chatiá, se não seria melhor esperar mais um pouco, o que achas Cise, antes de regressares de vez a Cabo Verde… E a mesma resposta categórica: - «Já m'crê  bá'mbora, m'ca tem más nada k'fazê li». Traduzindo  : a dúvida ao seu dono , eu cá já decidi. E ponto final! 
Escusado insistir. Nem mesmo a Fantcha, jovem cantora nossa, uma espécie de filha espiritual vinda para a ocasião da América, logrou ir mais longe. Uma amiga segreda-me ao ouvido, a propósito de uma feliz e inesperada visita : - « Um belo dia, ligou-me que ia a caminho da minha casa… quando au já desesperava de a convidar sem resultado ! Cise não se convida, é deixá-la que vem sozinha ». 
Caprichos de star ? Nada disso, Cise é assim mesmo! Nos anos oitenta, era ela uma cantora do Mindelo como tantas outras, e eu, jovem jornalista da Rádio, lembro-me ainda: o que não suávamos para conseguir levá-la ao estúdio para uma entrevista ! Melhor mesmo era ter à mão uma alternativa para a emissão, sabendo que tanto podia vir como não ! 
Mas caprichos de star, isso nunca ! Quanto mais não seja porque Cesária não era star nessa altura e sequer sonhava vir a sê-lo. E se hoje é quem é, nem por isso deixou de ser quem era! Por mais que  falem dela em jornais e livros, que por onde passa as pessoas se extasiem  e lhe estendam o tapete vermelho, Cesá ria nunca entrou na pele dessa vedeta planetária que ouve dizer que é! Tirando as rugas do tempo e os adornos em ouro que sempre afeccionou â€" e isso é muito caboverdeano, â€" quem a viu há 30 anos, assim a vê agora : igual a si mesma, fiel aos seus hábitos e aos amigos de sempre. Assim o enfatizou Christine Albanel, ministra da Cultura, ao outorgar-lhe, em nome do Presidente da República Francesa, a Legião de Honra em 2009 : « Ni vos nominations aux Grammy awards, ni vos Discs d'or, ni la présence de Madonna aux premiers rangs de vos concerts new-yorkais n'ont réussi à entamer votre authenticité, votre vérité qui ont
 forgé votre succès ».
Com essa mesma simplicidade, agora inspirando alguma emoção por causa da doença, fomos encontrar a Cise no seu leito de hospital, eu e mais o encarregado de negócios António Lima. Éramos portadores de uma mensagem de Sua Excia o Presidente da República, Dr. Jorge Carlos Fonseca, que ela agradeceu, comovida quanto baste mas nem por isso envaidecida. Tampouco se envaidece de ter recebido uma carta do presidente Sarkozi.
Cesária é simplesmente única. E as honras, cuidado porque, se mexem com ela, até as declina! Quem não se lembra do avião que ia levar o seu nome mas que ela recusou ir baptizar por, numa das suas viagens, lhe terem faltado as suas bagagens no desembarque? ! Fez finca-pé, disse que não ia - e não foi!
Para os amigos, aqueles que convivem de perto com a Cise ou a frequentam na sua casa em S. Vicente, a coisa é outra : cachupada, bom humor, cavaqueira descontra&#1612;í da. Visitar a Cesária, verdadeira « peregrinação » para certos fãs, é impregnar-se da morabeza caboverdeana. Aqueles que conheço regressaram embevecidos com a simplicidade dessa vedeta mundial de lenço e avental, servindo seus convidados como Cristo lavando os pés aos apóstolos ! Para os franceses (e não só), Cabo Verde é Cesária : quem não teve a felicidade de a ouviu cantar, decerto ouviu falar. Que resida em part-time na cidade-luz, seu « port d'attache » de onde partiu um dia à conquista do mundo com o seu canto mágico, é motivo de orgulho para eles. 
Um exemplo para seguir e reflectir
A cada geração, seus filhos dilectos. Nossos filhos dirão que tivemos sorte em sermos testemunhas dessa formidável « victoire du talent sur la fatalité ». Não vou aqui recapitular este destino singular, ao mesmo tempo singelo e palpitante, que já deu tantos livros biográficos e que certos fãs já conhecem de cor. Para as gerações vindouras fica este legado vivo, gravado em vinil e não sei quantos CD's e outros tantos sucessos, a testemunhar que foi essa grande senhora, discreta e sem título, quem tirou Cabo Verde da penumbra do anonimato! 
Sirva de exemplo às gerações vindouras…
E de lição aos deuses do Olimpo ! Que a vanglória de mandar não prime sobre o amor à terra daqueles caboverdeanos que carregam no ombro a bandeira desta grande Nação sem nada pedir em troca! Reflictam aqueles políticos e governantes que, carregados de títulos e brasões (de grandeza mais que de obra feita), andaram gaguejando pelo mundo (quando não entraram mudos e sairam calados !) enquanto Cesária e seus músicos seduziam multidões ! Que agora, no regresso à casa após ter bebido nos oásis do mundo que lhe abriram as portas, meditem aqueles que lhe recusaram uma caneca d'água quando, sozinha, atravessava o deserto das agruras da vida! Que a nossa « gente grande » se acalme na sua soberba, que a história não é feita somente de títulos e de poder, que estes vão passando, mas sobretudo de valores que perduram na memória e no tempo.
Uma reforma bem merecida
« Si ca bado ca ta birado ». Cumprida esta profecia de Nhô Eugénio, o poeta, e após ter frequentado « la cour des grands », é chegada a hora da reforma. Bem merecida é ela após uma vida inteira a cantar Cabo Verde e metade dela a levar Cabo Verde ao Mundo. 
Porque conquistar o mundo, Cise, convenhamos, é dose para leão. Lembras-te ? Entre as voltas que o mundo dá e as voltas que deste ao mundo, em 2008 já o coração havia acusado um primeiro choque : por pouco ia parando lá pela longínqua Austrália, nas antípodas do « Mindelo, nôs querido cantim ». Estoica te ergueste e continuaste a caminhada. Mas agora, descansá bô corp, vivê bô vida sem stress. E por favor, tmá bôs ramêd e largá kel cigarrim da mon. Kês "matutano" tambê. Sabes que ainda tens muito para dar : deixaste as tournées, que isso de andar pelo mundo não é brincadeira, mas sempre poderás, porque não, voltar aos palcos uma vez por outra. Os teus admiradores hão-de gostar e Cabo Verde agradece. Afinal, Cise, és a nossa bandeira. És um padrão a assinalar ao mundo inteiro que no meio do Atlântico existe um arquipélago com gente e com alma, que não apenas um produto exótico para consumo turístico e
 « outros » consumos para quem dá mais. 
Se acaso não merecesses o nosso carinho, ainda te devíamos a gratidão. Bom descanso na Tapadinha.
Mantenhas da Terra-longe, 21 de outubro de 2011
David Leite

O LIVRO E O TEXTO


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O livro e o texto

por Braulio Tavares

É preciso distinguir entre “texto”, que é um conjunto de sinais verbais possível de se reproduzir de diferentes formas, e “livro”, que é um objeto de papel onde esses sinais são reproduzidos através de impressão gráfica. O livro é um objeto vinculado a uma maneira de registrar e transmitir informação. Texto e livro são dependentes até um certo ponto. Um mesmo texto pode ser transformado em livros diferentíssimos entre si. Basta pensarmos em toda a variedade de edições que qualquer grande clássico literário já teve. E alguém pode gostar de um livro sem se interessar pelo seu texto: gosta apenas pela beleza ou pela originalidade de seu aspecto gráfico. O texto é atemporal, maleável, adaptativo. O livro é datado, cheio de ressonâncias afetivas, carregado de nuances. É a cara da sociedade e da época que o produziram.

TEXTO COMPLETO:  Coletiva.net

Use maiúsculas nos seguintes casos:

ADAIL SOBRAL EM FORUM LITTERATI DIZ

Use maiúsculas nos seguintes casos:

    Conceitos políticos importantes – Constituição, Estado
(significando uma nação), Federação, União, República, Império, Poder
Executivo, Legislativo, Judiciário, Justiça, Direito, Igreja. Obs.:
Vão em minúsculas governo federal, governo estadual e governo
municipal.
    Instituições, órgãos e unidades administrativas – Presidência da
República, Supremo Tribunal Federal, Câmara dos Deputados, Senado
Federal, Assembléia Legislativa, Ministério da Ciência e Tecnologia,
Exército, Forças Armadas, Casa Civil, Prefeitura de Recife (mas
escreva em minúsculas se o termo não acompanhar o nome: "a prefeitura
determinou..."), Estado de São Paulo (mas escreva em minúsculas se o
termo não acompanhar o nome: "o estado é produtor de café...").
    Nomes de datas, feriados, eventos históricos ou festas religiosas
e populares – Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, Natal, Dia de Reis,
Círio de Nazaré, Guerra da Bósnia.
    Títulos de obras e eventos – "A RNP e a Educação no Brasil",
"Manual de Implementação do Serviço NTP", "Seminário de Capacitação
Interna".
    Regiões e marcos geográficos – Ocidente e Oriente (como conceitos
geopolíticos), Hemisférios Sul e Norte (idem), Regiões Norte, Sul,
Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste etc. (idem), Chapada Diamantina, Norte
Fluminense, Vale do Ribeira, Pólo Norte. Use inicial minúscula, porém,
para designações como interior, exterior, litoral, litoral sul, zona
leste, zona sul, etc.
    Período histórico consagrado ou geológico – Idade Média,
Peleolítico, Era do Gelo. Em minúsculas, porém, quando não se
configurar uma era histórica: era espacial, era nuclear, era
industrial, idade das trevas.
    Leis, normas e tributos quando constituírem nome próprio ou forem
consagradas por sua importância – Lei de Informática, Lei de
Diretrizes e Bases, Plano Diretor, Lei Afonso Arinos, Imposto de
Renda. No entanto, se a lei for conhecida apenas por seu número, use
minúscula: lei nº 8.248, decreto nº 3.800, portaria nº 739.
    Prêmios e distinções – Prêmio Nobel de Economia, Ordem do Cruzeiro
do Sul, Medalha Pedro Ernesto, Prêmio Príncipe das Astúrias.
    Ramos do conhecimento humano, quando tomados em sua dimensão mais
ampla – Ética, Filosofia, Medicina, Português, Matemática, Computação,
Arte, Cultura. Se não houver necessidade de relevo especial, use
minúsculas: "estuda português", "gosta muito de matemática",
"formou-se em agronomia".
    Nomes de vias, lugares públicos e acidentes geográficos – Rio
Amazonas, Avenida Brasil, Pão de Açúcar, Parque do Ibirapuera, Oceano
Atlântico, Pico da Neblina.
    Títulos, formas de tratamento e suas abreviações – Dom (D.), Vossa
Excelência (V. Exa.), Doutor (Dr.), Senhor (Sr.).
    Siglas - ABNT, RNP , UFRJ, PUC, MCT, CGEE (Exceções: PoP, QoS,
CNPq, CPqD, UnB)
    Acrônimos (siglas que formam palavras) com até três letras - ONU,
RAU, MEC. A partir de quatro letras, use minúsculas - Banerj, Unicef.
    Continuará com inicial maiúscula a palavra que servir para
designar o nome de dois ou mais órgãos, empresas, entidades, leis,
normas econômicas ou políticas, corporações, repartições, prêmios,
feiras, edifícios, monumentos, estabelecimentos, estádios, ginásios,
ruas, vias, regiões, acidentes geográficos, etc.: os Ministérios da
Economia e da Justiça, as Federações da Indústria e do Comércio, as
Leis Falcão e Fleury, os Impostos Predial e de Renda, os Planos
Cruzado e Real, os Colégios Objetivo e Arquidiocesano, os Prêmios
Eldorado e Molière, os Aeroportos de Cumbica e Congonhas, os Edifícios
Itália e Copan, os Cines Ipiranga e Marabá, os Estádios do Pacaembu e
do Morumbi, os Palácios do Planalto e da Alvorada, os Atos
Institucionais n.º 2 e n.º 5, as Torres Eiffel e do Tombo, as Igrejas
da Candelária e da Consolação, as Copas União e Brasil, as Baixadas
Santista e Fluminense, as Regiões Sudeste e Nordeste, os Vales do
Paraíba, do Ribeira e do Jequitinhonha, os Campeonatos Paulista e
Gaúcho, as Ruas Augusta e Direita, as Avenidas Paulista e Ipiranga, os
Parques do Ibirapuera e do Carmo, as Marginais do Pinheiros e do
Tietê, as Rodovias Castelo Branco e Fernão Dias, as Baías de Guanabara
e de Paranaguá, os Picos do Jaraguá e da Neblina, os Rios Tocantins e
Xingu.

Use minúsculas nos seguintes casos:

    Acrônimos com quatro letras ou mais – acrônimos são siglas que
formam palavras, como Remav, Petrobras, Embratel, Clara, Alice, Géant,
Reuna, Cudi etc. (Exceção: CAIS)
    nação, país, governo (mesmo acompanhado de especificação: federal,
estadual, municipal), exterior e interior – sempre, a menos que
integrem nome próprio (País de Gales, Ministério do Interior).
    ensino fundamental, ensino médio, ensino superior – sempre, a
menos que integre nome próprio.
    república e monarquia – quando designarem forma de governo.
    ministério – quando aparecer sozinho no texto ("o ministério aprovou...").
    ministro – sempre ("o ministro Roberto Amaral...").
    norte, sul, leste, oeste – quando se referirem a ponto cardeal,
direção ou posição ("o Brasil está ao sul do Equador", "o trem rumava
para leste", "a bússola sempre aponta para o norte").
    Cargos e profissões – diretor, presidente, gerente, técnico,
jornalista, analista de sistema, ministro, secretário, governador,
professor. A norma oficial determina maiúsculas para os "nomes que
designam altos cargos, dignidades ou postos", como Presidente da
República, Cardeal de São Paulo, Ministro da Educação, Embaixador do
Peru, etc.
    Estações do ano, meses e dias da semana – abril, dezembro,
segunda-feira, domingo, verão.
    Gentílicos – soteropolitano, francês, gaúcho, alemão, etc.
    Nomes de personagens ou entidades do folclore: saci,
mula-sem-cabeça, curupira, caipora, cuca, lobisomem, iara.

* Ver também ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua
Portuguesa. § 144-145.

sábado, 22 de outubro de 2011

Encontros: Alves Redol, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira


Encontros: Alves Redol, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira

COMUNICADO DE IMPRENSA
A Associação Portuguesa de Escritores vai realizar no próximo dia 24 de Outubro, no São Luiz Teatro Municipal, na Sala Jardim de Inverno, às 18h30, a sessão evocativa - ENCONTROS ALVES REDOL, MANUEL DA FONSECA e CARLOS DE OLIVEIRA
  • Alves Redol (100 anos do nascimento), com João Tordo
  • Manuel da Fonseca (100 anos do nascimento), com Afonso Cruz
  • Carlos de Oliveira (30 anos do falecimento), com Gonçalo M. Tavares
Leitura de fragmentos das obras dos autores evocados por
Carmen Santos (participação especial)
José Manuel Mendes

Muito agradecíamos a divulgação da notícia, bem como a presença de um representante desse Órgão de Comunicação Social. 

A Direcção
______________________________________________________
( Tel | (+ 351) 21 39718 99
6 Fax | (+ 351) 21 397 23 41
+ Morada | Rua de S. Domingos à Lapa, 17
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Português: um nome, muitas línguas


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Português: um nome, muitas línguas

SUMÁRIO

PORTUGUÊS: UM NOME, MUITAS LÍNGUAS
PROPOSTA PEDAGÓGICA
Carlos Alberto Faraco

PGM 1 - LÍNGUA PORTUGUESA: UM BREVE OLHAR SOBRE SUA HISTÓRIA
Carlos Alberto Faraco

PGM 2 - UMA LÍNGUA, MUITAS GENTES
Silvio Renato Jorge

PGM 3 - A DIVERSIDADE E A DESIGUALDADE LINGÜÍSTICA NO BRASIL
Dante Lucchesi

PGM 4 - VARIAÇÃO NO PORTUGUÊS FALADO E ESCRITO NO BRASIL
Ana Maria Stahl Zilles

PGM 5 - A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA DO BRASIL E A ESCOLA
Stella Maris Bortoni-Ricardo

TEXTO COMPLETO:  Salto Para o Futuro, Ano XVIII, Boletim 08 - Maio de 2008, TV Escola

Jeanne Pereira: «O galego é português e o português é galego»


da AGAL SE TRANSCREVE

Jeanne Pereira: «O galego é português e o português é galego»

«O pequeno império deixa claro que a Galiza é unha periferia de Madrid e não uma nação com identidade própria»
«Deixemos de lado esse discurso ultrapassado dito por muitos galegos de que o português se parece muito ao galego e mudemos para este: de que o galego é português e o português é galego»
Sexta, 21 Outubro 2011 08:18
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Jeanne defende o galego como língua «extensa e útil»
PGL - Jeanne Pereira, brasilega, achava estranho o galego se escrever com ortografia castelhana e pensa que temos que ter a ousadia de dizer a verdade sobre a língua da Galiza. É uma magnífica embaixadora do nosso país e da nossa língua.
PGL: Jeanne Pereira é baiana. Que te motivou a vires para a Galiza e como sentiste a integração no nosso país?
Jeanne Pereira: Por questões pessoais necessitava sair do Brasil. Eu já sabia que aqui havia um idioma que era parecido ao português. Por que era exatamente o que pensava por ter pesquisado algo em relação a Galiza, à sua historia, em sites de pesquisas que nada tinham a ver com a realidade do país. Lembro bem que procurei saber da realidade política, e porque esse idioma 'parecido' ao meu. O que me chamou a atenção foi a ortografia, achava estranho um idioma com uma escrita igual ao espanhol, principalmente porque diziam ser 'parecido' ao português. E pensei como é possível?
PGL: Falando em integração, como foi o teu contato primeiro com o reintegracionismo?
JP: Através de José Alvaredo, que foi um pessoa muito especial que no seu momento se dedicou a mostrar a verdade em relação a realidade da Galiza. Uma pessoa que foi importante para que eu pudesse chegar à realidade sociolinguística. Era interessante o que ele fazia, era uma preocupação diária, ja que colocava como página principal o site da AGAL e Vieiros. Quando eu abria o computador, estavam ali, então lia e tirava as dúvidas com ele, mesmo quando chegava em casa cansado do trabalho, nunca se negou a explicar-me e dedicar todo o tempo possível para dar-me esclarecimentos com uma paixão pela Galiza, pelo nosso idioma em comum, que me contagiava.
Foi a primeira pessoa que me disse que...o português nasceu na Galiza. As dúvidas eram tiradas e muito bem esclarecidas ao ponto de me deixar mais curiosa. Inclusive a realidade política veio a través dele. O meu primeiro comentário sobre a língua foi em Vieiros, que passei a difundir a realidade do país através deste jornal.
O primeiro dicionário consultado foi o Estraviz. Comecei a comentar artigos em Vieiros para chegar a outros brasileiros que não conheciam a realidade da Galiza. Aproveito para agradecer todo o apoio dado por esse grande mestre que no seu momento, como disse, foi extremamente importante para mim. Um muito obrigada Zé! Sigo adiante e com muita força valorizando tudo que aprendi.
PGL: Estás a estudar galego, versão ILG-RAG, na EOI. Este formato de galego pode funcionar bem na interação com pessoas do Brasil e de Portugal?
JP: Não, pela ortografia, que é espanhola, que nada tem a ver com português. É uma norma isolacionista que foi imposta pelo Estado espanhol, já que a Galiza pertence ao Estado e o governo autonômico, em vez de aproximar o galego ao português, pretende aproximá-lo ao espanhol, diluindo assim a identidade galega. É uma estratégia política do pequeno império, uma forma de colonizar a população galega, separando o nosso idioma em comum. Inclusive alguns brasileiros dizem que é um galego 'feio', 'mal escrito'. É uma questão tanto da fala como da escrita. Existem vícios de linguagem que infelizmente são muito utilizados pelos/as galegos/as pela influência do espanhol, daí que os/as brasileiros/as se aproximem ao espanhol e não ao galego, já que o galego raguiano é um dialeto do espanhol, e vista como uma língua 'misturada' do espanhol.
PGL: Não sei se sabias que nas EOI existe a figura de língua ambiental, aquelas que a priori existem na sociedade onde está inserido o centro. Na Galiza são três, galego, português e castelhano. Isto facilitou o teu dia a dia, não é?
JP: Deixemos de lado esse discurso ultrapassado dito por muitos galegos de que o português se parece muito ao galego e de que um galego pode aprender português por ser parecido, e mudemos para este: que o galego é português e o português é galego. A prova é que o galego já está no dicionário da Porto Editora desde 2008 no vocabulário comum e breve nos dicionários brasileiros.
A facilidade de entendimento é grande desde quando se abra a mente para isso. Para mim sempre tem sido fácil porque não importa se falam comigo em espanhol, eu falo em galego-português, estou na Galiza, e isso tenho claro. Já escutei muita gente falarem para mim “Não te entendo”. Eu respondo, “pois deveria, estamos na Galiza, a língua do meu país nasceu aqui, temos inclusive um vocabulário comum.
Palavras que foram levadas daqui para o Brasil, que surgiram aqui”. Infelizmente, por questões de imposição do estado espanhol, não podemos usar a nossa língua nas traduções juramentadas. Por exemplo, um título universitário do Brasil, tem que ser traduzido ao espanhol e não à língua própria do país.
PGL: No Brasil existe um desconhecimento da Galiza e da sua língua. Qual a reação média de uma pessoal do Brasil quando descobre?
JP: Muitos galegos que visitam o Brasil, de férias, para estudar, os emigrantes que vivem ali uma boa parte não são vistos como galegos e sim espanhóis. Inclusive Santiago de Compostela é destino para quem está a aprender espanhol. O pequeno império deixa claro que a Galiza é unha periferia de Madrid e não uma nação com identidade própria. Escuto de muitos galegos como uma brasileira pode saber tanto da Galiza ao ponto de dizer que o português e o galego é o mesmo e que eles sendo galegos não sabem nada da realidade e alguns se aborrecem afirmando que tudo isso é uma mentira, que a história mostra claramente as diferenças nas duas línguas que é impossível serem um único idioma com variantes diferentes.
Sempre cito como exemplo muitos galegos que estiveram ali no Brasil e que muitos brasileiros perguntavam de que região faziam parte, ou até mesmo de que estado. Infelizmente a realidade da Galiza ainda é desconhecida no meu país, mas faço minhas as palavras do José Carlos da Silva, que diz: “Reclamo um maior conhecimento da realidade da Galiza no Brasil”.
Agora, o dia 6 de novembro estarei de volta a Salvador, mas levo comigo o compromisso de mostrar essa realidade, a de um país que possui um idioma em comum com o meu, e de que a sua língua nasceu aqui na Galiza. É com muito orgulho e muita gratidão por um país que aprendi a amar como sendo meu, um país que me acolheu, porque sempre deixo claro que fui acolhida pela Galiza e não pela Espanha, que lutarei para que esse conhecimento seja real no Brasil.
PGL: Achas que existem diferenças entre a cidadania galega na sua perceção do Brasil e da lusofonia em geral?
JP: Muitos galegos veem o Brasil como um destino turístico, não como um país com uma língua em comum. O Brasil ultimamente é visto por ser a sétima economia mundial e nos meios de comunicação aparece muito este facto, mais nada em relação questão da língua. O Brasil infelizmente não conhece essa realidade.
PGL: Certos círculos sociais em Santiago falam da figura do(a) brasilego(a), uma pessoa que vive na nossa língua cá na Galiza frente a atitude mais habitual de desenvolver-se em castelhano no dia a dia. É exportável esta forma de viver a outras cidades?
JP: Em Santiago sim, mais noutras cidades não porque a fala predominante é o espanhol. Em Santiago também depende do ambiente que frequente ou que esteja. Há lugares que inclusive falo o meu 'baianês' com uma rapidez como se estivesse em Salvador. Chego a mudar completamente o meu sotaque e falar com uma desenvoltura que as vezes não me dou conta que estou em Santiago.
PGL: Tu segues os passos da estratégia luso-brasileira para o galego. Que tipo de táticas achas mais produtivas e quais achas que se deveriam implementar para a cidadania galega viver o galego como sendo extenso e útil?
JP: Táticas temos muitas, inclusive as redes sociais, são meios de grande importância para divulgar a nossa realidade. Há que sensibilizar e ter muita valentia e ousadia no falar, na hora de dizer a verdade sobra a realidade o país, sobre o seu idioma próprio e cultura, afirmando com muita força que “Galiza não é Espanha”, e que isso fique bem claro, não tendo medo de falar a verdade em alto e bom som,para todo mundo ouvir.
O incentivo a leitura dos jornais na nossa língua, dando prioridade as publicações em galego-português, também nas redes sociais. Ao invés de estarmos publicando notícias de meios espanholistas, publicarmos noticias com o nosso idioma.
Aproveitar o momento político do Brasil pode ser algo importante, para mostrar que além de um país em crescimento com ofertas de emprego, para os galegos, há a vantagem de termos um idioma em comum, o que facilita muito no mercado de trabalho. A ousadia e a valentia de sempre dizer a verdade, sobre a realidade da Galiza, é importante. Já passou da hora de vencer todo esse auto-ódio que nos contamina de forma negativa, tirando a coragem e a força de muitos em falar a realidade e de lutar pelo seu país, livrando-se da colonização mental imposta pelo 'Reino de Espanha', por um pequeno Império fracassado, prepotente e complexado, em que infelizmente a Galiza tem sofrido por estar sendo Desgovernada por um partido que em nada representa o país, levando a Galiza ao retraso.
PGL: Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?
JP: A nossa língua é extensa e útil, a nossa língua é internacional, e a AGAL cumpre perfeitamente esse papel como representante do nosso idioma, com muita seriedade e responsabilidade divulgando de forma séria o seu trabalho em prol da nossa língua e da realidade sócio-linguística do país. Levando ao conhecimento inclusive a nível internacional. Parabenizo a associação pelo grande trabalho que vem sendo realizado nesses 30 anos de existência, mostrando a internacionalidade da nossa língua em comum. Espero sempre o melhor e que esse trabalho cresça e continue recebendo todo o apoio merecido para dar continuidade a divulgação da nossa língua.
PGL: Como vai ser o Brasil do futuro?
JP: Espero que seja um país com menos desigualdade social, investindo em políticas sociais, fortalecendo a saúde pública como direitos de todos, com qualidade. Que o presidente ou presidenta que ali esteja, chegue a ONU, um dia no seu discurso, reivindicando e reconhecendo a liberdade e soberania de muitas nações como a Galiza.

Conhecendo Jeanne Pereira

  • Um sítio web: são vários, principalmente os relacionados a política e escritos no nosso idioma em comum. Por exemplo, leio todos os dias a revista Carta Maior.
  • Um invento: o que traga beneficio à humanidade
  • Uma música: Apesar de Você (Chico Buarque)
  • Um livro: O Golpe de 64 e a Ditadura Militar, de Júlio José Chiavenato. Esse livro foi uma grande referência para mim, a nível político e um grande presente dado por meu pai, quando tinha apenas 15 anos de idade.
  • Um facto histórico: a independência da Galiza
  • Um prato na mesa: um caruru completo (comida baiana)
  • Um desporto: Fórmula 1
  • Um filme: O auto da compadecida, de Ariano Suassuna.
  • Uma maravilha: a descoberta da vacina contra o vírus da Sida
  • Além de brasileira: brasilega

Comentários  

 
# Re: Jeanne Pereira: «O galego é português e o português é galego» —Carlos Durão 21-10-2011 09:21
Mal posso conter as bágoas, cara Jeanne, mulher valente: sei muito bem que estas belas frases tuas:"Há que sensibilizar e ter muita valentia", "A ousadia e a valentia de sempre dizer a verdade, sobre a realidade da Galiza", não são vazias, que és testemunha privilegiada da nossa situação precária, até tu própria pudeste comprovar em ti mesma essa prepotência, no fundo esse racismo do EE para quem não seja "como ele"; no teu imenso Brasil estaremos contigo, sempre, até pode ser que te visitemos alguns de nós; leva o meu forte, fundo, acarinhado abreço galego. 

Carlos
 
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