terça-feira, 8 de março de 2011

FLORBELA ESPANCA, homenagem às mulheres no dia internacional


homenagem às mulheres no dia internacional 8 março por Rolando Galvão in
 FLORBELA ESPANCA, Poetisa: 1894 – 1930 por Rolando Galvão

           QUANDO TUDO ACONTECEU...
- 1894: 8 de dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa.
- 1915: Casa com Alberto Moutinho.
- 1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa.
- 1919: Primeira obra, Livro de Mágoas.
– 1923: Publica o Livro de Soror Saudade.
– 1927: A 6 de junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo.
- 1930: Em Matosinhos, Florbela põe fim à vida.
- 1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Reliquiae e Juvenilia e ainda das coletâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. Reedições dos dois primeiros livros editados. Verdadeiro começo da sua visibilidade generalizada.

           FLOR BELA, RAÍZES E RAMOS

Vila Viçosa, final do ano de 1894, noite de sete para oito de dezembro. Antónia da Conceição Lobo sente as dores do parto. Nasce uma menina. Não vem ao encontro das alegrias da família. Não há assim lugar ao habitual regozijo de tais momentos. Não parece ter sido desejada por qualquer das partes. É batizada como filha de pai incógnito. Avôs e avós também incógnitos. É-lhe posto o nome de Flor Bela de Alma da Conceição. Na literatura portuguesa será chamada Florbela Espanca. Apelido que receberá do pai, João Maria Espanca, já então levantado o véu encobridor. Curiosamente, o padre que a batiza e a madrinha usam o mesmo apelido.
A mãe morre algum tempo depois. Tem infância sem falta de carinhos e a sua subsistência não será ensombrada por insuficiências que atingem muitas das crianças que nascem em circunstâncias semelhantes. O pai não a deixará desprovida de amparo. Ela própria assim o diz quando aos dez anos, em poema de parabéns de aniversário ao "querido papá da sua alma" escreve que a "mamã" cuida dela e do mano "mas se tu morreres/ somos três desgraçados". Será acarinhada pelas duas madrastas, como revelará na sua própria correspondência.
Ingressa no liceu de Évora. Num tempo em que poucas raparigas frequentam estudos, e bonita como é, apesar de umas tantas vezes afirmar o contrário, põe à roda a cabeça dos colegas. Não são aqueles os primeiros versos. Antes já os escrevera com erros de ortografia. Naturalmente infantis, mas avançados em relação à idade. De algum modo, prenunciam o que virá depois. Esta precocidade contrasta com um quê de desajustamento futuro, quando a sua escrita divergirá dos conceitos de poesia dos grupos do Orfeu, Presença e outras tendências do designado "Modernismo", e que emergem como as grandes referências literárias da época. Das quais Florbela parecerá arredada. Inicialmente sem dificuldades económicas, como deixa perceber.
Explicadora, trabalhará ensinando francês, inglês e outras matérias. Mais tarde, com vinte dois anos, irá cursar Direito na Universidade de Lisboa. Publica vários poemas em jornais e revistas não propriamente dedicados à poesia, como seja Noticias de Évora e O Século ou de circulação local. Edita os seus primeiros livros, Livro de mágoas em 1919, e em 1923 Livro de Soror Saudade, onde incluirá grande parte da produção anterior. Refere o seu Alentejo e os locais ligados às suas origens, e exalta a Pátria em alguns poemas. Mas a sua escrita situar-se-á sobretudo no campo da paixão humana. Contrai matrimónio por três vezes.
Do primeiro marido, Alberto Moutinho, usa o apelido em alguns escritos, nomeadamente correspondência. Do terceiro marido, Mário Lage, juntará o apelido à assinatura usual, nas traduções que efetuará. Do segundo, António Guimarães, não parece haver reminiscências explicitas nos escritos de Florbela, que lhe terá dedicado obra que publica como Livro de Soror Saudade, titulo diferente do projetado e esquecendo a dedicatória.

           AS FACES DUMA PERSONALIDADE

  Inquietações de Florbela: alma, amor, saudade, beijos, versos...
Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.                                
Como dizem vários estudiosos da sua pessoa e obra, Florbela surge desligada de preocupações de conteúdo humanista ou social. Inserida no seu mundo pequeno burguês, como evidencia nos vários retratos que de si faz ao longo dos seus escritos. Não manifesta interesse pela política ou pelos problemas sociais. Diz-se conservadora. Uma quase inventariação das suas diferentes personalidades desenha-se nas palavras de um dos seus contos, a que deu o titulo “À margem de um soneto” que integra o volume intitulado “O Dominó Preto”. Inicia-o falando duma poetisa, a dizer que "vestida de veludo branco e negro, estendeu a mão delgada, onde as unhas punham um reflexo de joias.", informando um visitante de que tinha fechado o seu "livro de versos... com um belo soneto! "Segue, "num olhar... afogado em sonho" e "numa voz macia e triste" a leitura do soneto e termina com "o mal de ser sozinha"...suportando "o pavoroso e atroz mal de trazer/ tantas almas a rir dentro da minha!"
O conto continua em tons e quadros que Florbela frequentemente considera como de si própria e aqui atribui a suposta romancista brasileira: "feia, nada elegante, inteligente, mas com o talento, o espírito e a graça, e sobretudo o encanto, duma imaginação extraordinária, palpitante de vida, apaixonada e colorida, sempre variada, duma pujança assombrosa. "Pondo na mente do marido da personagem, o seu próprio discurso, vai enunciando as "almas diversas que eram dela" e que "ocultava dentro de si".
Entrevê a personagem "imaculada, ingénua, fria, longínqua"; "inacessível e sagrada" de "imaterial beleza" e "a morrer virginal e sorridente".
Referindo um outro imaginário romance apresenta-se "ardente e sensual, rubra de paixão, endoidecendo homens, perdendo honras..."
Com alusão a terceiro presumível livro, qualifica-se "cética e desiludida, irónica, desprezando tudo, desdenhando tudo, passando indiferente em todos os caminhos, fazendo murchar todas as coisas belas". Mente "dia e noite só pelo prazer de mentir" e "beija doidamente um amante doido."
Quem, ao ler a sua obra poética, a sua prosa, as suas cartas, os seus outros escritos, não a vê usar um milhar de vezes para si própria, termos semelhantes, ultrapassando até tais qualificativos e exageros?
Antes do final ainda a exaltação do ser poeta, que se pode considerar uma das suas constantes:"- As almas das poetisas são todas feitas de luz, como as dos astros: não ofuscam, iluminam...."
Quem é realmente Florbela? Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades. Todo o ser é uma interseção de adjetivações diferentes e até opostas, ensina-me, desde a juventude, o meu amigo Diogo de Sousa, que cursava Filosofia. No caso da poetisa tem a particularidade de ser ela própria a evidenciá-lo, permanentemente e sem constrangimentos.
Parafraseando António José Saraiva e Óscar Lopes na História da Literatura Portuguesa: estimula e antecede o "movimento de emancipação literária da mulher" que romperá "a frustração não só feminina como masculina, das nossas opressivas tradições patriarcais." Na sua escrita é notável, como dizem os mesmos mestres, "a intensidade de um transcendido erotismo feminino". Tabu até então, e ainda para além do seu tempo, em dizeres e escreveres femininos.
Os referidos autores, em capitulo sob o titulo Do simbolismo ao modernismo, enumerando várias tendências como "método de exposição... pedagógica" incluem Florbela num grupo que designam como "Outros poetas". Qualificam-na como "sonetista com laivos parnasianos esteticistas" e "uma das mais notáveis personalidades líricas". O seu egocentrismo, que não retira beleza à sua poesia, é por demais evidente para não ser referenciado praticamente por todos. Sedenta de glória, diz Henrique Lopes de Mendonça, transcrito por Carlos Sombrio.
Na sua escrita há um certo número de palavras em que insiste incessantemente. Antes de mais, o EU, presente, dir-se-á, em quase todas as peças poéticas. Largamente repetidos vocábulos reflexos da paixão: alma, amor, saudade, beijos, versos, poeta, e vários outros, e os que deles derivam. Escritos de âmbito para além dos que caracterizam essa paixão não são abundantes, particularmente na obra poética. Salvo no que se refere ao seu Alentejo. Não se coloca como observadora distante, mesmo quando tal parece, exterior a factos, ideias, acontecimentos. Curiosa é a posição da poetisa quanto ao casamento. Mau grado dizer que a única desculpa que se atribui é ter casado por amor (!!!), várias vezes se afirma inteiramente contra, apesar de ter contraído matrimónio por três vezes...
Entre os poetas seus preferidos destacam-se António Nobre, Augusto Gil, Guerra Junqueiro, José Duro e outros de correntes próximas. Interessa-se também por Antero. Pela não-publicação das suas obras, ora se mostra descontente por não encontrar editor para os livros que, após os dois primeiros, deseja dar a público, ora pretende mostrar-se desinteressada, mesmo desdenhosa pelo facto. Embora o desgosto seja saliente.
Passados perto de setenta anos sobre a sua morte são falados comportamentos menos ortodoxos em relação à moral sexual do seu tempo. Algumas expressões de emocionalidade um tanto excessiva para a época, embora não exclusivas da escritora, ajudam a suspeita. Lembramos a sua correspondência e as referências ao irmão, Apeles. Os seus excessos verbais parecem não passar disso mesmo - imoderação para exprimir uma paixão. Aqui, exaltação fora do comum de um amor fraternal mas que não destoa do falar dos seus sentimentos. Semelhante escrever na correspondência com uma amiga. Afinal nunca esteve junto dessa mesma amiga e apenas a viu em retrato. Esses limites alargados na expressão do amor, da amizade e das afeições, são uma constante.
Fernanda de Castro, em escrito retido por Carlos Sombrio, explica as suas contradições, ao dizer" não soube viver sem quebrar preconceitos, algemas, correntes - e não teve coragem de os quebrar todos". Florbela, poetisa, não pode ser separada da sua condição de mulher, das suas paixões, da sua maneira de ser, da sua vida, das suas contradições, humildade e orgulho, preconceitos, sua presença e ausência, seus amores e desamores, explica-me a minha jovem amiga Clara Santos, florbelista militante.
A sua única preocupação é ela própria, o amor, a paixão... o querer e o não querer. A par duma vida pouco comum para os cânones vigentes - dois divórcios e três casamentos em cerca de quinze anos - essa relação mulher-paixão e a exaltação ao exprimir-se sobre si própria, podem ter contribuído para os conceitos aludidos.
Repare-se neste começo de um dos seus mais conhecidos sonetos:         
Eu quero amar, amar perdidamente!  
Amar só por amar: Aqui ... além...         
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... 
Amar ! Amar! E não amar ninguém !

e no final da quadra seguinte  
  Quem disser que se pode amar alguém          
Durante a vida inteira é porque mente!

Na época, conservadora como diz ser, leva a crer muito provavelmente, num viver que nos factos se coadunará e não se distanciará dos conceitos morais e sociais vigentes. 

           FLORBELA, A ESCRITORA E O CULTO

             Pergunto-me o porquê da visibilidade de Florbela e da sua aceitação por um público muito mais vasto que o de muitos outros escritores seus contemporâneos, anteriores e posteriores, de qualidade se não superior, pelo menos semelhante, e de interesse e caracter mais universalista, com preocupações capazes de fazerem apelo a um mais vasto e amplo leque de sensibilidades.
Se a sua obra apresenta inegável interesse e beleza, não deixa de constituir surpresa para alguns críticos, o impacto junto do público leitor, comparado com o de outros autores de igual valia e que fora dos meios ditos intelectuais pouco ou nada são conhecidos.
Abrimos a referida História da Literatura Portuguesa, contamos os vários nomes de escritores aí citados na mesma época, atentamos na análise deles feita pelos insuspeitos autores e constatemos o numero dos que praticamente continuam envoltos numa bruma.
Mesmo para leitores de mais largos voos muitos não passam de meros desconhecidos. Após vasta inventariação de publicações, José Augusto França, na sua obra “Os anos vinte em Portugal”, indicando umas dezenas de escritores, a Florbela se refere dizendo-a "escondida de todos", acrescentando todavia que "foi ela o caso de mais profunda criação entre as mulheres que publicaram nos anos 20 portugueses".
Para outros não é um astro da grandeza de vários dos seus contemporâneos. Estará um tanto em atraso, quer quanto à forma, quer quanto às suas preocupações. Como explicar então que seja qualificada por muitos como um dos vultos do século - e o seja, pela projeção que acaba por atingir?
Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Alguns críticos entrelinham a análise do seu comportamento e da sua obra com dizeres onde se pressente um esforço para evitarem uma sentença relativamente dura.
Natália Correia, em longo prefácio a uma edição de Diário do último ano fala do "coquetismo patético" e refere a sua "poesia maquilhada com langores de estrela de cinema mudo, carregada de pó de arroz". E continua, exagerando um tanto, dizendo que a escritora "estende-se na chaise-longue dos seus quebrantos de diva de versos. Muito a preceito da corte dos literatos menores. Uma cadelinha de luxo acarinhada no chá-das-cinco das senhoras do Modas e Bordados e do Portugal Feminino para explicar que isso nasce da sua insensibilidade "a ruturas engendradas pelas crises do discurso lógico masculino".
Porquê então tal expansão? O seu culto começa nela própria. Leia-se o poema, cantado por conhecido grupo musical e um dos mais belos:   
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior         
Do que os homens! Morder como quem beija!         
É ser mendigo e dar como quem seja         
Rei do Reino de Aquém e Alem Dor!          .............................         
É ter cá dentro um astro que flameja,         
É ter garras e asas de condor!          .............................         
É ter fome, é ter sede de Infinito!          ............................          
É condensar o mundo num só grito!          ............................

E quantas e quantas vezes Florbela nos recorda que é poeta! E com que euforia:          
 Sonho que sou a Poetisa eleita,          
Aquela que diz tudo e tudo sabe,          
Que tem a inspiração pura e perfeita,          
Que reúne num verso a imensidade!          
Sonho que um verso meu tem claridade          
Para encher todo o mundo! E que deleita          
Mesmo aqueles que morrem de saudade!          
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Poucos poetas o farão tão repetidamente...
De modo algum pomos de lado a beleza do que escreve, da maneira como se exprime, e do que ocupa a sua escrita. Sem excluir a qualidade literária, não serão porém inteiramente estranhos ao multiplicar da sua leitura, aspetos que de certo modo lhe serão alheios. Entre outros, o autorretrato da sua vida que desenha um tanto distante do ordenamento e preconceitos sociais da sua época, as variadas contradições, ou aparência de contradições (como admite José Régio) a tragédia da sua morte, o seu empenhamento na publicação, esforçado e continuado, os locais onde vive, propensos à glorificação dos naturais ou próximos, o seu proto-feminismo diferenciado do que se lhe seguirá uns anos mais tarde, mas capaz de chamar a atenção.
Um nome, Guido Batelli, italiano, professor da Universidade de Coimbra, não poderá ser esquecido. Ao traduzir para a sua língua vários dos poemas de Florbela, cria um facto que não se pode dizer muito comum.
E admirando-a sinceramente, contribuirá para a edição (póstuma) de Charneca em Flor, Reliquiae e Juvenilia. É provavelmente com a sua intervenção que se fazem as primeiras reedições do Livro de Mágoas e do Livro de Soror Saudade.
Régio, sobre o silêncio da Presença, de que diz ter vergonha, explica que só mais tarde a conhece. Chama-lhe "poesia viva" que "nasce, vive e se alimenta do seu (...) porventura demasiado real caso humano".
Acompanhará sucessivas reedições de uma parte dos poemas com extenso e elucidativo prefácio, datado de 1950, onde faz análise valiosíssima, exaltando a obra e destacando alguns dos mais brilhantes momentos da poetisa...
Mas é, possivelmente, António Ferro que, em artigo do Diário de Noticias, logo em janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela e provoca um acordar de críticos e leitores que até ao presente se não extingue. 

           POESIA. CONCEITOS E PRECONCEITOS DE AMOR

 "Beija-me as mãos, Amor, devagarinho", diz Florbela. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.        
É a poesia que fará de Florbela o vulto que é. Quase sempre em forma de soneto.
Salvo umas tantas exceções. Algumas quadras incluídas por Rui Guedes em valiosa edição abrangendo a totalidade ou quase da poesia de Florbela .Uma delas, com um certo sabor à chamada quadra popular:         
Tenho por ti uma paixão         
Tão forte tão acrisolada,         
Que até adoro a saudade         
Quando por ti é causada ou esta         
Que filtro embriagante          
Me deste tu a beber?         
Até me esqueço de mim          
E não te posso esquecer...

O seu Alentejo merece-lhe palavras de exaltação. Em soneto a que chama No meu Alentejo que inclui em carta à diretora de Modas e Bordados exprime-a nos tercetos finais          
Tudo é tranquilo e casto e sonhador...         
Olhando esta paisagem que é uma tela         
De Deus, eu penso então: Onde há pintor         

Onde há artista de saber profundo,         
Que possa imaginar coisa mais bela,         
Mais delicada e linda neste Mundo?

Escreve também poemas de sentido patriótico. Um deles, dirigido às mães, apelando que calem as suas mágoas pelos filhos que lutam e morrem na guerra em defesa da Pátria, e alguns outros de sentido semelhante. Mas Florbela lembra claramente que o que a preocupa é o Amor, e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: a solidão, a tristeza, a saudade, a sedução, a evocação da morte, entre outros... E o desejo. Mesmo quando trata outros temas, diz-me alguém que a admira. Olhemos uma das quadras do soneto que intitulou Toledo         

 As tuas mãos tateiam-me a tremer...         
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,         
É como um jasmineiro em alvoroço,         
Ébrio de Sol, de aroma, de prazer!

O grande paradoxo.
 O amor, como muitas vezes se lhe refere, sugere um sentir onde o erotismo é componente permanente. Exaltado em vários escritos, noutros pretende ser limpo do que na época se consideram impurezas. Após os vários casamentos, diz desejar morrer virginalmente. Tudo produto duma moral que interditava à mulher exprimir o seu prazer sexual, segreda-me uma outra minha amiga, para quem Florbela é o grande expoente da escrita no feminino. As sugestões mais ousadas sobre sexo eram tidas como degradação ou, complacentemente, como provocação, recorda-me.
Pergunta que não terá resposta fácil é saber se Florbela escreve, aproximando-se do explícito, porque pretende romper com os comportamentos tidos como convenientes e dentro do moralmente correto.
Olhamos o soneto Passeio ao Campo onde começa

Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!          
Colhe a hora que passa, hora divina,
bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!

e depois de referir a "cinta esbelta e fina..." e outros atributos da sua própria elegância física, continua                
E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras                
Dos caminhos selvagens e escuros,                
Num astro só as nossas duas sombras...Num outro                  
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,                 
A essa hora dos mágicos cansaços,                     
Quando a noite de manso se avizinha,                  
E me prendesses toda nos teus braços...      

para concluir                 
E é como um cravo ao sol a minha boca...                 
Quando os olhos se me cerram de desejo...                 
E os meus braços se estendem para ti... 
O erotismo não fica por aqui.
Num outro poema diz:                  
Sonhei que era a tua amante querida                  .....
.................................................                  ........................................
anelante                  
estava nos teus braços num instante,                 
fitando com amor os olhos teus

E ainda em sentido semelhante, estes tercetos                 
Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...                 
Como se os dois nascêssemos irmãos,                 
Aves, cantando, ao sol, no mesmo ninho...                 
Beija-mas bem!...Que fantasia louca                  
Guardar assim, fechados, nestas mãos,                 
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

Mau grado dizeres que, pelo sensualismo, sugerem um sentido libertário, uma interpretação do conjunto da sua obra faz pensar em posição cultural divergente. contraditoriamente com essa sensualidade sempre presente, afirma não poder olhar para o relacionamento sexual sem um sentimento de impureza, de brutalidade. Em alguns trechos, onde mais fortemente sugerido, as mulheres são impuras, megeras ou sujeito de outros qualificativos semelhantes.
O casamento e a posse são brutalidades, afirma e repete.

           A PROSA

   A prosa de Florbela exprime-se através do conto e de um diário que antecede a sua morte e em cartas várias, de natureza familiar umas, outras tratando de questões relacionadas com a sua produção literária, quer num sentido interrogativo quanto à sua qualidade, quer quanto a aspetos mais práticos, como a sua publicação. Nas diferentes manifestações epistolares sobressaem qualidades que nem sempre estão presentes na restante produção em prosa - naturalidade e simplicidade. Nos contos, compilados em dois volumes, “O Dominó Preto” e “As Máscaras do Destino”, muitas vezes um certo sentido autobiográfico, intimista.
No já referido “À margem de um soneto”, como atrás dizemos, parece pretender retratar as diferentes personalidades em que se vê, contraditórias e provocantes em relação à época.
Num outro conto, Amor de outrora, pressente-se um recordar de ocorrências da sua vida e dos seus enganos e desenganos de amor, desde o primeiro ao terceiro casamento. Várias cartas, para os maridos e para os apaixonados que aparentemente pretende afastar, e para o pai, em que procura justificar algumas situações, ajudam a este entendimento. Em Crime do Pinhal, ao lado dos "lavadores de honra" pelo assassinato de um sedutor, duas mães no afeto da mesma criança.
As suas "madrastas mães" cujo grande e simultâneo afeto por Florbela é retribuído? No inicio de As Máscaras do Destino, dedicatória a Apeles, o seu Morto, para quem mais uma vez palavras de exaltação e dor, que complementa em O Aviador, visão mítica da morte do irmão amado.
Ao longo dos contos encontram-se frases de grande beleza e força. As expressões de desejo, carregadas de erotismo, atribuídas à personagem do segundo dos referidos contos – que, de algum modo, exprimem as suas contradições na transição para a libertação da mulher. Não podemos porém deixar de os considerar por vezes carecendo de uma certa densidade.
Um excessivo uso de palavras e imagens, que pouco ou nada acrescentam ao que pretende sugerir, contribui para uma menos conseguida "análise profunda dos sentimentos e paixões", observa Y. Centeno. E, como nota a mesma escritora, quase permanente é a qualificação das mulheres em puras e impuras, em excelentes e megeras. As suas cartas, sem a pretensão da criação literária, e talvez por isso, a par da informação factual, apresentam uma visão muito menos enfeitada e artificiosa da sua vivência. Permitem conhecê-la melhor e exprimem estados de alma mais próximos duma humanidade real do que a sua prosa formal e, até, alguns dos seus momentos poéticos.
Sobressaem as que envia à sua amiga Júlia Alves, com quem nunca se encontrará, com quem troca impressões sobre os mais variados assuntos e a quem expõe a sua alma à medida que o relacionamento vai progredindo. Numa delas dirá: "preciso tanto de ser embalada devagarinho... suavemente... como uma criança pequenina, sonhando de olhos fechados, num regaço carinhoso e quente!..." O que talvez ajude a compreender a sua vida e a sua morte.
Numa outra, já após o primeiro casamento, afirma - e isto é por ela redito e contradito: "uma das coisas melhores da nossa vida... é o amor, o grande e discutido amor... " acrescentando umas linhas a seguir que "no entanto, o casamento é brutal, como a posse é sempre brutal..."
Escreve à sua amiga com frequência que não deixa de surpreender. Em dias seguidos. Num mesmo dia três missivas distintas. Na que se presume ser a última, um pouco menos de um ano depois da primeira, e já sem o calor que se pressente nas anteriores, agradece dizendo que não esquece o ter-se sentido compreendida e estimada Em correspondência dirigida a outras personalidades mostra-se triste pois não vê facilitado o caminho para a publicação dos seus livros.
A Raul Proença deixa claro o seu desânimo com o que este pensa dos seus versos, juntando outros sonetos perguntando se desses gosta. O escritor virá a proporcionar-lhe a publicação (Livro de Mágoas).Traduzirá dois livros (e possivelmente outros), um de Pierre Benoit, Mademoiselle de la Ferté, que constitui leitura obrigatória dos adolescentes da década seguinte à sua morte, e Dois Noivados de Clambol, editados pela Liv. Civilização, do Porto. Assina as traduções como Florbela Espanca Lage. Antes, em várias circunstâncias, usara Florbela Moutinho, apelido do primeiro marido.

           O FIM

             No último ano de vida elabora um Diário, onde deixará anotações até escassos dias antes do trágico fim. Prefácio a esse fim. Logo no início explica não ter qualquer objetivo ao escrevê-lo.
Pouco depois do começo espera que "quando morrer é possível que alguém" ao lê-lo "se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão," sobre o que foi ou julgou ser. "E realize o que eu não pude: conhecer-me".
Define-se "honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, reta sem princípios, e sempre viva", o que encaminha para algumas das questões que se põem.
Depois de recordar os nomes de companheiros e mostrar uma vez mais o amor pelo irmão, Apeles, aviador, cujo desaparecimento em desastre do seu avião a faz sentir mais só. Diz não compreender o medo que a morte causa à jovem autora de um Diário de que reproduz algumas frases.
Examina-se diante do espelho e dizendo-se "grosseira e feia, grotesca e miserável" põe em dúvida se saberia fazer versos. Colocando-nos uma vez mais em face das contradições que a atormentam permanentemente e que exprime numa outra frase: "Viver é não saber que se vive".
À medida que caminha para o final as anotações são cada vez mais raras e curtas. Afirma que as cartas de amor que escreveu resultavam apenas da sua necessidade de fazer frases. E em oposição frontal com o dito páginas atrás escreve "se os outros não me conhecem, eu conheço-me".
Poucos dias antes de morrer interroga-se "que importa o que está para além?" Responde, repetindo o que diz no soneto A um moribundo: seja o que for será melhor que o mundo e que a vida.
A morte anunciada ao longo da sua escrita ocorrerá pouco depois. Põe fim à vida em 8 de dezembro de 1930, dia em que faz trinta e seis anos, em Matosinhos, onde vive. Aí é enterrada sendo mais tarde trasladada para a sua terra natal.Com Florbela morre, não talvez a maior poetisa do seu tempo, mas uma das que mais agudamente e sem temor exprimiu as grandes contradições da sensibilidade feminina nas suas paixões. Ao mesmo tempo, com uma certa ingenuidade, impregnada das verdades simples ou complexas do que é a mulher, na convergência da cultura e do ser
.Que conduz Florbela para a morte?
Fernanda de Castro, em escrito citado por Carlos Sombrio, sintetiza a resposta: "Porque nunca soube pôr de acordo o seu corpo, o seu espírito e a sua alma". Do acontecimento os jornais quase não dão notícia. Fá-lo-ão a partir daí. Postumamente são publicadas, por iniciativa do professor Guido Batelli, como atrás se diz, os dois livros de poemas Charneca em Flor e Reliquiae, duas coletâneas de contos, Dominó Negro e Máscara do Destino e uma outra de poesia, Juvenilia. Começo de uma sucessão de reedições que no caso da poesia alcança já, em alguns casos, a ordem das três dezenas, ou mais, se recordarmos a dispersão editorial. E alem das de Guido Batelli, algumas traduções, não apenas para italiano. 

Texto REVISTO EM 2011 para o Acordo Ortográfico de 1990

domingo, 6 de março de 2011

a favela - origem do nome




Interessante esse breve histórico sobre o porquê do nome 'favela'...

 

Favela com o Cristo Redentor ao fundo


Você já parou para pensar qual o motivo de chamarmos os bairros pobres e sem infraestrutura de "FAVELAS"?
Eu sempre achei que fosse um nome indígena ou qualquer coisa assim, mas a história é bem mais interessante que isto.
O origem do nome "FAVELA" remete a um fato marcante ocorrido no Brasil na passagem do século XIX para o século XX: a Guerra de Canudos. Na Caatinga nordestina, é muito comum uma planta espinhenta e extremamente resistente chamada "FAVELA"

Produz óleo comestível e combustível
 
 
Entre 1896 e 1897, liderados por Antônio Conselheiro, milhares de sertanejos cansados da humilhação e dificuldades de sobrevivência num Nordeste tomado de latifúndios improdutivos e secas, criam a cidadela de Canudos, no interior da Bahia, revoltando-se contra a situação calamitosa em que viviam. 

Mapa da Região de Canudos - Bahia

Em Canudos, muitos sertanejos se instalaram nos arredores do "MORRO DA FAVELA", batizado em homenagem a esta planta.
Estátua de Antonio Conselheiro olha pela Nova Canudos.
 A cidade original foi alagada para a construção de um Açude
Morro da Favela em dois momentos: Guerra de Canudos (esquerda) e atualmente (Direita)
 
Com medo de que a revolta minasse as bases da República recém instaurada, foi realizado um verdadeiro massacre em Canudos, com milhares de mortes, torturas e estupros em massa , num dos mais negros episódios da história militar brasileira, feito com maciço apoio popular.
Quando os soldados republicanos voltaram ao Rio de Janeiro, deixaram de receber seus soldos, e por falta de condições de vida mais digna, instalaram-se em casas de madeira sem nenhuma infraestrutura em  morros da cidade (o primeiro local foi o atual "Morro da Providência"), ao qual passaram a chamar de "FAVELA", relembrando as péssimas condições que encontraram em Canudos.

Morro da Providência em foto antiga. Onde tudo começou...

Morro da Providência atualmente

Este tipo de sub-moradia já era utilizado a alguns anos pelos escravos libertos, que sem condições financeiras de viver nas cidades, passaram também a habitar as encostas. O termo pegou e todos estes agrupamentos passaram a chamar-se FAVELAS.
Mas existem vários "MITOS" sobre as Favelas que precisam ser avaliados...

01 - Costumamos achar que as maiores Favelas do mundo encontram-se no Brasil, mas é um engano. Nenhuma comunidade brasileira aparece entre as 30 maiores do Mundo. México, Colômbia , Peru e Venezuela lideram o Ranking, em mais um triste recorde para a América Latina.

 


 

 
Vista aérea da Favela de NEZA, nas proximidades da Cidade do México.
A Maior do Mundo, com mais de 2,5 milhões de Habitantes

02 - Outro engano comum é achar que as Favelas são um fenômeno "terceiro-mundista", restrito a países subdesenvolvidos ou emergentes. Apesar de em quantidade bem menor, países desenvolvidos como Espanha também tem suas Favelas, chamadas por lá de "Chabolas".
 
 
Chabolas madrileñas, as favelas espanholas

03 - E um terceiro mito é o de que as Favelas apenas aumentam, não importa o que o governo faça...A especulação imobiliária e planos governamentais já acabaram com algumas favelas, mesmo no Rio de Janeiro . O caso mais famoso é o da Favela da Catacumba, ao lado da Lagoa Rodrigo de Freitas, que foi extinta em 1970. A Favela do Pinto também é um outro exemplo...
 
 
Favela da Catacumba na Década de 60. Hoje, parque e prédios de luxo
Dizia-se que no local existiu um Cemitério Indígena.

                            ORIGEM DOS NOMES DE ALGUMAS FAVELAS DO RJ
 
 

Vista do Morro da Babilônia com Corcovado ao fundo

 
Babilônia
A vegetação exuberante e a vista privilegiada de Copacabana levou os moradores a compararem o local com os "Jardins Suspensos da Babilônia".

Rocinha

Rocinha
Nos anos 30, após a crise da Bolsa de 1929 que levou vários produtores de café à bancarrota, o terreno da Fazenda Quebra-Cangalha foi invadido e dividido em pequenas chácaras, que vendiam sua produção na Praça Santos Dumont, responsável pelo abastecimento de toda a Zona Sul da cidade. Quando os clientes perguntavam de onde vinham os legumes, diziam: "-É de uma tal Rocinha lá no Alto da Gávea"

 
Morro da Mangueira

Mangueira
Nos anos 40, na entrada da trilha de subida do Morro, que na época ainda era coberto pela mata, foi colocada uma placa que dizia: "Em breve neste local, Fábrica de Chápeus Mangueira". A fábrica nunca foi construída, mas a placa permaneceu, batizando uma das mais emblemáticas comunidades cariocas.


Morro do Vidigal

Vidigal
Em homenagem ao dono original do terreno onde hoje se localiza a Favela, o Major Miguel Nunes Vidigal, figura muito influente durante o Império



                                                                         





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sexta-feira, 4 de março de 2011

Timor-Leste aposta em futuro promissor para o português

Lusofonia

Timor-Leste aposta em futuro promissor para o português, diz Xanana Gusmão

Em entrevista à Rádio ONU, Xanana Gusmão argumentou que 'o idioma
ajudou a afirmar' a jovem nação do sudeste da Ásia, após a
independência da Indonésia em 2002, e deve crescer com as novas
gerações.

Da Redação
Nova York - O futuro da língua portuguesa no Timor-Leste é promissor,
na opinião do primeiro-ministro do país, Xanana Gusmão. A oitava nação
a adotar o português, o Timor-Leste, no sudeste da Ásia, também tem o
tétum como outra língua oficial do país.

Em entrevista à Rádio ONU, em Nova York, Xanana Gusmão disse que a
língua portuguesa ajudou o Timor a se afirmar como nação, logo após a
sua independência da Indonésia, em 2002.

"O português parece-me mais como um instrumento de identidade. Somos
diferentes pela história e pela cultura e aí é que nós nos apegamos.
Somos Timor-Leste por causa da presença portuguesa, que nos deu uma
identidade e o direito de sermos um povo", disse.

O primeiro-ministro reconheceu que o ensino da língua para a geração
jovem, que fala principalmente indonésio e tétum, ainda é um desafio.
Mas ele contou que o governo tem investido no ensino do idioma a longo
prazo.

Xanana Gusmão disse ainda que metade da população timorense tem menos
de 15 anos, e que as próximas gerações já deverão falar português com
mais facilidade.


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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Português excluído com a cumplicidade do Governo

Português excluído com a cumplicidade do Governo

António Justo
A gora que o Parlamento Europeu pôs na ordem do dia a votação das línguas a empregar no regime europeu de patentes muitos dos nossos deputados comportaram-se como mercenários de legiões estrangeiras.

O Português foi excluído com a cumplicidade do nosso governo. Ficou só a ser em inglês, francês e alemão.

Esta iniciativa desrespeita a igualdade e discrimina a capacidade de concorrência no mercado interno. Assim, os mais fortes ficam ainda mais competitivos. Facto é que o Instituto Europeu de Patentes tem seis mil funcionários… Os portugueses que paguem o serviço.

Fonte competente revela que votaram “a favor do interesse nacional, só CDS (Nuno Melo e Diogo Feio), PCP (Ilda Figueiredo e João Ferreira) e dois PSD (Carlos Coelho e Graça Carvalho). Contra o interesse nacional, votou todo o PS e a maioria do PSD”.

Os nossos boys são bem comportados. Depois os países fortes dão-lhes alguns tachos que os compensam do que roubam a Portugal. Depois queixam-se que Portugal vai mal. A democracia diminui em benefício da partidocracia.

Esperemos que os espanhóis levem a coisa a tribunal!

António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.eu

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os três círculos da lusofonia * Fernando Cristóvão**



Os três círculos da lusofonia * 

Fernando Cristóvão**

Situa-se a lusofonia na convergência de várias dinâmicas que a História lusa tem despertado ao longo dos séculos: a das utopias de Vieira, Sílvio Romero, Pessoa, Agostinho da Silva e muitos outros, e a dos factos e situações criadas a partir da colonização portuguesa e das opções livres partilhadas pelos novos países que reafirmaram a língua portuguesa como sua língua materna, oficial ou segunda. 

Actualmente, oito países independentes dialogam em português e o usam como língua materna, língua de comunicação internacional, língua de ciência, cultura, ensino, religião: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor. 

Na construção de uma utopia de Quinto Império, arquétipo mítico da Lusofonia, Vieira imaginou um império de carácter religioso e universal, como o descreveu visionariamente na História do Futuro: «É conclusão, e de fé, que este Quinto Império de que falamos, anunciado e prometido pelos profetas, é o Império de Cristo e dos cristãos (…) contudo, a sentença comum dos santos e recebida e seguida como certa por todos os expositores é que (…) é Império da Terra e na Terra (…) espiritual no governo, espiritual no uso, nas expressões e no exercício (…) Em qualquer tempo futuro será sempre espiritual.»1 

Fortemente inspirado naquele a quem apelidava de “Imperador da Língua Portuguesa”, Pessoa entendeu o Quinto Império não como religioso mas como cultural, uma Pátria, na expressão do heterónimo Bernardo Soares, em que a língua portuguesa seria o cimento da união de vários povos, pois outro sentido não tem o seu “atlantismo”: 

«Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, contêm, por sistema, uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam. 

«(…) Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa, (…) Condições imediatas do Império da Cultura é uma língua apta para isso, rica, gramaticalmente completa, fortemente nacional.»2 

Língua esta desse Império e dessa Pátria que claramente Pessoa explicou ser a língua portuguesa. 

Entre os “papéis” da famosa arca dos textos manuscritos de Pessoa, uma das investigadoras da sua obra declara ter encontrado «o plano de um tratado para a defesa e ilustração da Língua Portuguesa», que seria formado por duas partes distintas, uma ortográfica e prosódica, e a outra sobre a sintaxe dos verbos, pois o seu objectivo era «a fixação dos meios materiais do Império.»3 

Bem antes de Pessoa, em 1902, e apesar do ambiente antilusista que se vivia então no Brasil, olhando a realidade europeia e mundial com alguma preocupação, o brasileiro Sílvio Romero preconizou que, na base da língua e tradições portuguesas que são raízes do Brasil, e inspirado no exemplo inglês, se organizasse um bloco linguístico, político e cultural. E o seu objectivo seria obstar, à recolonização de potências imperialistas e racistas europeias, inspirada na Conferência de Berlim de 1884. 

«Uma das ideias mais ousadas, atribuída, creio que a Cecil Rodhes, é a de uma imensa federação de gentes que falam a língua inglesa, e é verdadeiramente um pensamento genial. 

«(…) Sim, meus senhores: Não é isto uma utopia, nem é um sonho a aliança do Brasil e Portugal, como não será um delírio ver no futuro o Império Português de África unido ao Império Português da América, estimulado pelo espírito da pequena terra de Europa que foi berço de ambos.»4 

E, insistindo no papel aglutinador desempenhado pela língua, relembra que Portugal ««que transplantou para aqui a nossa língua (...) teve o intuito superior de aliar-se às raças que encontrou no país, consideradas por ele fundamentalmente coloboradoras e amigas, e às quais, dando-lhes a língua, equiparou a si (...). 

«Bastaria o facto extraordinário, único, inapreciável, transcendente da língua para marcar ao português o lugar que ele ocupa em nossa vida (…) Ela só por si, na era presente, serve para individualizar a nacionalidade.»5 

Agostinho da Silva visionou, por entre sonhos e metáforas, um Quinto Império sob a égide do Espírito Santo, inspirado tanto nas teorias de Joaquim de Floris, como no culto do Divino praticando nos Açores e outras partes do mundo. 

Caracterizava-se esse reinado pela construção de uma nova sociedade baseada na inocência, de que as crianças são modelo, na partilha dos bens como na das «sopas do Divino», e na liberdade que destruísse todas as prisões. 

«Com esta religião do Espírito Santo, e nada mostra melhor o eclipse do espírito português do que ter sido ela relegada a uma espécie de curiosidade folclórica, quando representa o essencial da nossa vivência religiosa, ainda se mostrava que se não esquecera aquela palavra do Evangelho que manda tomar por modelo de vida santa a humildade, a fragilidade, a generosa alegria, a capacidade de imaginação, o gosto do jogo e a inocência dos meninos. E chamo inocência à capacidade que eles têm de não separarem seu corpo da sua alma, mas de os viverem num conjunto de espírito. 

«(…) Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do Império (…), este Quinto Império de que falamos, o Império do Espírito Santo. 

«(…) Deveremos promover uma cultura geral pluriforme, em que estejam nítidas, bem marcadas, todas as especificidades de cada uma das culturas dos diferentes países, e dentro desses países, as culturas das suas religiões, e dentro das religiões as culturas individuais de cada homem.»6 

Não admira, pois, que, tendo absorvido esta ambiência utópica, o linguista brasileiro Sílvio Elia construa o conceito arquetípico da “Lusitânia” como outro nome da Lusofonia mapeando esse grande espaço linguístico-cultural desta forma: Lusitânia Antiga (Portugal), Lusitânia Nova (Brasil), Lusitânia Novíssima (países africanos lusófonos), Lusitânia Perdida (antigos territórios como Goa, Macau, emtrepostos vários na Ásia e África)7, a que deveríamos agora acrescentar Timor como integrante da “Lusitânia Novíssima”. 

Tem sido neste fundo cultural, simultaneamente místico e pragmático, que a teoria e a prática da Lusofonia se vem construindo, com avanços e recuos, vitórias e derrotas, mas sempre em progressão. 

Porque a Lusofonia não é só a soma de territórios e populações ligados pela língua. É também um certo património de ideias, sentimentos, monumentos e documentação. 

Num universo populacional que ultrapassa os duzentos e dez milhões de pessoas, nem é possível nem desejável que uma homogeneização de pensamento e acção se estabeleça, mas tão-somente a tomada de consciência progressiva de muita coisa que une os oito países, na língua, nas tradições históricas e culturais, na religião, numa certa forma de relacionamento humano, afinidades que o passado nos legou, a língua comum facilita, e a vontade dos povos pode fazer avançar, marcando a diferença e o contraste com as características de outros grupos de povos de outras fonias. 

Porque a Lusofonia está em construção há quem deseje consolidá-la, e quem lhe seja hostil. 

Há quem a olhe sob “suspeita” de uma “invenção meta-histórica”, como um sucedâneo neocolonialista do império colonial perdido. Há quem veja a língua como pátria, no sentido de uma realização pessoal, ignorando ou esquecendo o muito que Pessoa escreveu sobre ela, como fundamento do Quinto Império. Há os que, alérgicos à francofonia, a receiam como modelo... 

Mas há os que acreditam nela e a constroem todos os dias, não só na descoberta do património linguístico e cultural comum e anexo, mas sobretudo na multiplicação de laços entre as instituições e grupos profissionais dos oito, em acções de cooperação, na valorização dos afectos. 

Em consonância com tudo isto, uma realidade funcional é incontestável: os oito países usam e enriquecem com as suas variedades a língua comum de diálogo, e querem ir mais além, em função do tempo e das oportunidades. 

Quem pode, por isso, sem preconceitos ou má-fé, negar a existência da lusofonia? 

Na sua construção, algumas realidades começam a tornar-se especialmente visíveis como caminhos a confirmar, aquilo a que chamaremos os “três círculos da lusofonia”. 

O primeiro círculo, nuclear dos três concêntricos, é o das oito nações lusófonas independentes, e das regiões que, pertencendo a outros Estados independentes, também se consideram lusófonas, sem prejuízo da sua outra identidade e fidelidade nacionais: Galiza, Goa e outros pequenos territórios da Índia, Macau, Casamansa... 

Se a língua é o elemento aglutinador de pessoas, instituições e nações, e se não se preconiza a existência de uma só cultura e língua, pois são múltiplas as culturas e línguas até dentro de várias das nações lusófonas, há que reconhecer que o principal elo de ligação entre as oito é a língua que lhes é mais comum, a portuguesa. E que ela, não só não é substitutiva das outras línguas nacionais ou regionais, mas com elas convive, pois todas têm funções específicas diferentes. Aliás, uma coisa é a “língua de cultura” comum a toda a Lusofonia, e outras as diversas variantes e normas cultas dos vários países. 

Com a autoridade que todos lhes reconhecem, Edgar Renault, Celso Cunha, Celso Luft e outros redigiram, em 1986, umas “directrizes” para todos os professores de Português no Brasil, em que recomendavam, entre outas coisas, um entendimento correcto do que se devia entender por “língua de cultura”, e as suas relações com “norma culta” e “língua culta”. 

«A emergência de variedades linguísticas postulou a existência de duas ou mais normas cultas dentro de uma mesma língua de cultura. É o que ocorre com o nosso idioma no Brasil, em Portugal, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe. O conceito de língua culta, conexo ao de norma culta não coincide, pois, com o de língua de cultura. As línguas de cultura oferecem uma feição universalista aos seus milhões de usuários, cada um dos quais pode preservar, ao mesmo tempo, usos nacionais, locais, regionais, sectoriais, profissionais.»8 

Celso Cunha adiantava ainda, em opúsculo especial: «Essa república do português não tem uma capital demarcada. Não está em Lisboa, nem em Coimbra; não está em Brasília, nem no Rio de Janeiro. A capital da língua portuguesa está onde estiver o meridiano da cultura.»9 

As oito nações lusófonas só têm a ganhar em pertencerem a esta “República” ou “Império”, quer pelos diversos tipos de diálogo e iniciativa que estabelecem entre elas, quer por melhor poderem resistir às invasões de outros grupos linguísticos de ambições hegemónicas que, agora, são, sobretudo, de carácter comercial e cultural mas poderão voltar a transformar-se em projectos de dominância territorial. 

A resistência principal é ao inglês, mas o chamado “internautês” pode representar alguma preocupação a ter em conta. 

É neste grande círculo que se joga o futuro da lusofonia. É nele que se situa a “Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa” (CPLP), criada em 1996, que tarda em impor-se na cena internacional. Não só por circunstância da instabilidade organizativa dos países de África, propondo outras fidelidades estritamente africanas, ou mais vastas de natureza económica, como a do Commonwelth, mas também por ter cometido o gesto precipitado de não ter antes posto a funcionar o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, IILP, criado no papel em 1989. Sendo este instituto o da formação e defesa da língua e da cultura, a sua acção poderia contribuir em muito para estimular a base de apoio popular e institucional da sociedade civil que facilitaria os passos seguintes de iniciativas políticas e económicas. 

O segundo círculo concêntrico deste, que envolve o primeiro, é constituído pelas outras línguas e culturas de cada um dos oito países em que, naturalmente, se estabelece o diálogo e colaboração entre a língua e a cultura comuns e as outras línguas e culturas do país, com vista a estimulá-las e protegê-las, tanto nacionalmente, como internacionalmente. 

Porque nem a língua de comunicação internacional prejudica as línguas locais, nem estas aquela, pois todas têm o seu espaço e funções próprias, e não é admissível, hoje, o imperialismo linguístico de uma língua dentro de um mesmo território, reprimindo ou enfraquecendo as outras. 

Entendemos que nas funções do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que melhor se chamaria “Instituto Internacional Lusófono”, está a de apoiar a valorização das outras línguas do país, a sua escolarização, edição, etc. 

Até porque se não for a “língua de cultura” internacional a proteger as línguas regionais ou locais, em pouco tempo elas desaparecerão, por acção desse grande agente descaracterizador cultural que é a globalização. 

O terceiro círculo da lusofonia, também concêntrico, e o mais amplo, é formado pelas instituições, pessoas e grupos alheios aos países lusófonos mas que mantêm com a nossa língua comum e com as culturas e literaturas lusófonas um diálogo de erudição, de amizade, de simpatia, de interesses vários. 

É integrado por professores e alunos dos ensinos universitário, politécnico, secundário, por familiares e conviventes de emigrantes, empresários, religiosos, eruditos, técnicos... 

São milhares de pessoas de uma qualificação especial, de outros povos, línguas e culturas que se interessam por nós. 

Estão estes lusófonos especiais, ou lusófilos, em situação de algum dinamismo social e intelectual, em condições de intensificarem o intercâmbio entre os nossos países e os seus, de outras línguas e culturas, por isso, há que encorajá-los. 

E fazem-no divulgando em suas terras ideias e realizações lusófonas, e entre nós, ideias e realizações suas, dando-nos a conhecer melhor as suas culturas. Intercâmbios estes que se podem traduzir, se estimulados, em acções de cooperação económica, social, turística, técnica. 

Reconhecer a existência deste terceiro círculo como o de um conjunto de instituições e pessoas abertas à lusofonia devia levar também as instituições lusófonas a uma política de aproximação que não se traduzisse só em reconhecer e premiar os seus méritos mas sobretudo em promover, nos cursos de verão das universidades, programas especiais de interdependência. E para esta tarefa deviam ser especialmente motivadas algumas empresas que cooperam com empresas desses países e, muito em especial, a indústria turística. 

Conhece a lusofonia avanços e recuos, mas estamos em crer que a sua dinâmica interna irá construindo pacientemente um futuro de solidariedade. 

1 História do Futuro, do Padre António Vieira, in Obras Escolhidas, Sá da Costa, Lisboa, 1953, pp. 39, 48, 56 

2 Fernando Pessoa, in Sobre Portugal, de Joel Serrão, Lisboa, Tipografia C. Nacional Editora. 1902, p. 11 

3 Pessoa Inédito de Teresa Rita Lopes, Livros Horizonte, Lisboa, 1993, p. 240 

4 O Elemento Português, de Sílvio Romero, Tipografia C. Nacional Editora, Lisboa, 1902, p. 11 

5 Sílvio Romero, ibidem, pp. 12-14 

6 Disperso, de Agostinho da Silva, Icalp, Lisboa, 1988, pp. 195, 123 

7 A Língua Portuguesa no Mundo, de Sílvio Elia, Ática, S. Paulo, 1989, pp. 16, 17 

8 Directrizes para o Aperfeiçoamento do Ensino/Aprendizagem da Língua Portuguesa, de Edgar Renault e Outros, Ministério da Educação, Brasília, 1986, pp. 5, 6 

9 Uma Política do Idioma, de Celso Cunha, S. José, Rio, 1964, p. 38

* texto publicado originalmente na revista "Humanidades", Lisboa, Setembro de 2002
** Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, membro da Academia das Ciências de Lisboa, presidente da Associação de Cultura Lusófona (ACLUS). 

2003-04-16 
 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Egipto ou Egito

Língua Como se escreve? Egipto ou Egito
No âmbito do meu trabalho surgiu-me uma dúvida na aplicação do Novo Acordo Ortográfico. Agradecia que me ajudassem. Segundo as regras a palavra “Egipto” deveria manter-se como tal pois o “p” sempre se leu, correto? A minha dúvida é que há vários meios de comunicação a falar “Egito” mas depois mantêm palavras com “Egípcios”, etc. Outra possibilidade é que na palavra em questão seja aceite a dupla grafia, mas mesmo assim seria o mais correto mantermos o “Egipto”, não?
A alínea b) da Base IV do Acordo Ortográfico de 1990 refere explicitamente o topónimo Egipto como uma das palavras em que o p se elimina porque “o c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt” se eliminam “nos casos em que são invariavelmente mudos nas pronúncias cultas da língua: ação, acionar, afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção; adoção, adotar, batizar, Egito, ótimo” (o destaque é nosso). Assim sendo, Egipto deverá passar a ser grafado Egito, porque o Acordo Ortográfico considera que o p dessa palavra nunca se pronuncia, ainda que seja notória a oscilação entre a pronúncia e o emudecimento dessa letra entre os falantes do português europeu. Uma vez que o p de egípcio e das suas flexões (egípcios, egípcia, egípcias) é sempre pronunciado, nestes casos não há alteração de grafia, ainda que possa parecer que se institui uma contradição entre a grafia do nome do país (Egito) e a do seu gentílico (egípcio). A "Nota Explicativa" (ponto 4.3 – Incongruências aparentes) relativa à Base IV tenta justificar a divergência ortográfica entre estas palavras, afirmando que “a aplicação do princípio, baseado no critério da pronúncia, de que as consoantes c e p em certas sequências consonânticas se suprimem, quando não articuladas, conduz a algumas incongruências aparentes [...] De facto, baseando-se a conservação ou supressão daquelas consoantes no critério da pronúncia, o que não faria sentido era mantê-las, em certos casos, por razões de parentesco lexical”.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates

04/01/2010 @17:30

Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates

por Marco Santos
O que escrevi em Junho de 2008 continua a ser a minha opinião, quase dois anos depois. O acordo ortográfico não me causa taquicardia literária. Mais tarde ou mais cedo, acabarei por adaptar-me à nova grafia e escrever exactamente como tenho escrito até hoje. Também não me sentirei menos português por causa disso.
Chateia-me ouvir portugueses dizer que estão contra o acordo ortográfico porque não querem escrever como os brasileiros. Eu ficava mais descansado se essas tomadas de posição fossem em defesa da língua portuguesa bem escrita, com ou sem acordo. E acho notável que se fale de uma revisão ortográfica como se esta implicasse uma mudança na estrutura do nosso idioma.
Sempre me ensinaram na escola que ortografia é uma coisa, gramática é outra. Talvez um professor de Português tenha a amabilidade de explicar ao pessoal qual delas é mais importante para a consistência da nossa língua, a ortografia ou a gramática.
Estejam descansados: mesmo depois desse detestável acordo ortográfico entrar em vigor à séria, uma portuguesa continuará a ter um cu e uma brasileira uma bunda.
Mas a propósito de não querer escrever como os brasileiros, experimentem dizer bunda e cu em voz alta e depois digam-me lá qual das palavras vos parece mais rechonchuda. Cu têm as mães de Bragança. E quem tem cu tem medo. Medo de mudar.
Vivemos demasiados anos sob uma ditadura que incentivava a ignorância. Fizeram-nos uma lavagem ao cérebro de tal maneira que continuamos a sentir o «orgulhosamente sós» do Salazar como a manifestação de um sentimento patriótico – o que essa expressão realmente revela é estupidez e uma mentalidade bota-de-elástico. Desejo que o meu país acompanhe a evolução dos tempos, não o quero ver refugiado numa redoma linguística à conta do orgulho. E digam-me, qual orgulho? O orgulho de ser um país prestador de serviços em vez de ser um país produtor?
Há outro pormenor que escapará a algumas pessoas: desde a Revolução de Abril que deixámos de ser donos da Razão e, por conseguinte, desculpem-me os detractores do acordo, é uma enorme pretensão da nossa parte afirmar que ocupamos o incontestável trono da língua portuguesa quando não somos a única nação a escrevê-la e falá-la. Soberba Universalidade! Se pensássemos sempre desta forma, ainda estaríamos todos a pedir dinheiro emprestado em Latim. Este não mudou, realmente, e se calhar é por isso que se diz que é uma língua morta.
Portanto a questão aqui é deixar de nos vermos como os reis da moralidade linguística e aceitar que a nossa maravilhosa língua está viva e é para partilhar, não para se deixar segregar neste pequeno retângulo.
Por último, essa história do facto que passa a fato é a maior treta de todas. Em primeiro lugar, porque o «c» só cai quando é mudo – não é o nosso caso, pois dizemos facto e não fato. Ainda assim, quem ouve este pessoal falar em «vestir factos» julga que foi este acordo ortográfico a introduzir na nossa língua as palavras homónimas, ou seja, palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significados diferentes.
Que vamos fazer então ao rio, que tanto pode ser verbo como nome comum? Vamos drená-lo? O rio atravessa a cidade, eu rio com facilidade. Não causa estranheza porque já estamos habituados, não é? E que vamos fazer nós ao ser, valha-nos Deus? Vocês são gajos porreiros, mas aquele ali não é um indivíduo são da cabeça. E a pobre rapariga que se chamar São? Já devia ter mudado de nome! E os nossos pobres santinhos? Isto é um escândalo!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

OS NOVOS ARES DA CRIOULIDADE



OS NOVOS ARES DA CRIOULIDADE
 
O contador de histórias africanas também existe no Brasil.As Congadas, tão tradicionais entre os afrodescendentes, tem tudo a ver com as memórias destes. O estudo PALAVRAS AO VENTO: OS NOVOS ARES DA CRIOULIDADE DIANTE DO TURBILHÃO DA NEGRITUDE, de Miriam de Andrade Levy, nos leva a fazer paralelos com a cultura brasileira. Um excelente tema para reflexão!
 
Observa Miriam de Andrade Levy que os anos de escravidão, de subserviência, de humilhação impediam que o negro, antilhano ou africano, se erguesse. A única voz contrária a este sentimento de inferioridade era a do contador crioulo. Este, ao transmitir a palavra do griot africano, o contador de estórias tradicional, apresentava uma forma de resistência ao processo de colonização.
 
Na sociedade ocidental, a luz é uma metáfora recorrente para a razão e para o pensamento lógico. Ralph Ludwig observa que esta imagem é instaurada no Iluminismo, que com seu pensamento analítico procura dissipar as trevas da ignorância (1994, p.18). Expressões como “à luz de”, “clareza”, “elucidar”, “esclarecer” demonstram como este ideal é valorizado. O que podemos pensar de uma literatura da noite, uma estética permeada de obscuridade?
Assim se designa a literatura contemporânea antilhana, como La Parole de Nuit. Esta remonta às fogueiras tradicionais, diante das quais os homens se reuniam para ouvir a palavra do contador de estórias (o griot). Neste ambiente mítico, a memória dos antepassados é relembrada, as adivinhas e cantos são proferidos e a sabedoria ancestral é transmitida.
 
A noite, mesmo na visão ocidental, constitui o universo do prazer, quando as obrigações cessam e dão lugar ao descanso e ao lazer. Este momento corresponde ao que Mikhaïl Bakhtin descreve como “tempo alegre” para definir as festas medievais, que se opõem ao “tempo do trabalho” (1987, p.191
 
Nas Antilhas, durante o período colonial, a oposição ficava ainda mais nítida quando “o tempo alegre” se opunha à jornada de trabalho nos engenhos. Aos negros só restava a noite para escutar o griot, longe da fiscalização e das exigências dos senhores. De acordo com Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, este teria surgido entre os séculos XVII e XVIII, nas seguintes condições:

A casa grande, após o jantar iluminado, apaga-se subitamente. Os cães, feitores e capatazes estão mergulhados no reino dos sonhos. [...] Na senzala, um grupo de escravos se reúne embaixo de uma grande árvore. Eles esperam. Aproxima-se outro negro de bengala, com idade avançada, com semblante discreto, tão insignificante, se não mais, que qualquer um deles. Sob suas pálpebras, nenhuma insolência. De dia, ele vive o temor, a revolta engolida. Mas à noite uma força obscura o habita. [...] De insignificante ele se ergue como o centro da senzala, o mestre da dinâmica dos contos, adivinhas, provérbios, cantigas que ele transforma em literatura, ou mais exatamente, em oralitura18. Receptáculo, transmissor ou propagador de uma leitura coletiva do mundo, eis o nosso contador crioulo. (1999, pp.72 e 73).
 
 
Margarida Castro
05.02.11

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

E se todas as línguas fossem consideradas crioulas?

Para o debate sobre a língua E se todas as línguas fossem consideradas crioulas? Um olhar pós-colonial sobre a linguística* Jeroen Dewulf Faculdade de Letras da Universidade do Porto; jdewulf@letras.up.pt 1492 não é só um ano histórico por causa da descoberta da América, é também o ano em que aparece a primeira gramática da língua espanhola. Em resposta à pergunta da rainha Isabel, que queria saber para que podia servir uma tal gramática, o bispo de Ávila disse-lhe as palavras mágicas: “Serve para governar, Vossa Majestade”. Por mais distintos que estes dois acontecimentos possam parecer, na verdade têm muito a ver um com o outro. Com a descoberta da América, a Espanha passou a ser a primeira potência mundial, tornou-se num império orgulhoso, convicto da sua missão de espalhar pelo mundo todo os seus valores, a sua religião e...a sua língua. De facto, a história de uma língua é sempre o espelho da história política de uma região. Dito doutra forma, a história de uma língua tem tudo a ver com poder.Nada exemplifica melhor esta realidade do que a famosa expressão em Jiddisch, segunda a qual “uma língua não é mais do que um dialecto com um exército”. Na linguística contemporânea, o poder tem-se tornado numa questão fundamental.Isto enquanto durante várias décadas, a linguística tradicional tentava a todo o custo manter uma posição objectiva e apolítica.Para designar a razão desta viragem significativa na linguística,costuma-se recorrer à expressão inglesa:„The Others speakback“. A expressão refere-se àquelas pessoas, que desde o início do colonialismo tinham sido condenadas à passividade, mas que recentemente têm tomado a palavra para questionar o que nunca dantes tinha sido questionado. A primeira ciência a sentir as consequências desta viragem pós-colonial nas ciências humanas foi a antropologia,a “criada do colonialismo” como Claude Lévi-Strauss alguma vez lhe chamou. Depois seguiram-se a história, a sociologia, os estudos literários e, recentemente, também a linguística. De facto, o tempo em que a linguística era o monopólio de cientistas brancos, oriundos quase exclusivamente de países ocidentais, pertence definitivamente ao passado. Sobretudo universidades norte-americanas têm, nos ultimos anos, seguido uma política no sentido de diversificar a origem étnica dos seus docentes e não é por acaso que as vozes mais críticas em relação à linguística tradicional, que tanto medo tinha em abordar questões ligadas ao poder, têm surgido fundamentalmente a partir dos Estados Unidos. Ilustrativo neste contexto foi o que aconteceu no âmbito de uma conferência sobre crioulismo na Universidade de Chicago em Outubro de 1999. Numa discussão que se seguiu a uma das palestras ali apresentadas surgiu a questão se a diferença entre línguas consideradas crioulas e línguas “não-crioulas” não se baseava, afinal, num modelo ocidental, imperialista e racista.Estas dúvidas não são novas. Já há algum tempo, certos linguistas têm insistido no facto de que a linguística não oferece critérios objectivos que permitam distinguir entre línguas crioulas e não-crioulas. Assim, em Language Creation and Language Change (2001) Michel de Graff escreveu que “[...] any property found in creole languages is [...] also found in some noncreole language. In Hall’s words, ‘There are no structural criteria which, in themselves, will identify a creole as such, in the absence of historical evidence.” (DeGraff, 2001:11) Tem-se tornado cada vez mais forte a convicção de que esta distinção na realidade não se faz com base em critérios científicos, mas antes com base em convenções, que, de uma forma ou outra, têm a ver com poder. Em The Ecology of Language Evolution (2001) Salikoko Mufwene defende, por isso, que “[...] creoles have been grouped together and distinguished from other languages more because of similarities in the sociohistorical conditions of their development than for any other convincing reason.” (Mufwene, 2001: XII) Portanto, se nós distinguimos entre uma língua crioula e não-crioula, baseamo-nos em primeiro lugar em condições sócio-históricas; os critérios linguísticos, por sua vez,só aparecem em segundo plano, devidamente adaptados à situação. Mufwene vai até mais longe ao afirmar que estas tais “condições sócio-históricas” são na prática nada mais nada menos que a etnicidade dos falantes: “The main implicit criterion [to identify some new colonial vernaculars as creoles] which is embarrassing for linguistics but has not been discussed, is the ethnicity of their speakers.” (Mufwene, 2001: XIII) Essas teorias pós-coloniais que põem em questão teorias que ainda há poucas décadas pareciam indiscutíveis, têm tido consequências fora da linguística. É interessante ver, por exemplo, como o antropólogo sueco Ulf Hannerz escreve que “there are a number of English-based creole languages in the world, yet hardly anybody would seriously argue that the English language is historically pure.” (Hannerz, 1996: 67) Vejamos também o escritor Édouard Glissant, oriundo da ilha de Martinique, que defende o seguinte: “Quand on étudie raisonnablement les origines de toutes langues données,y compris de la langue française, on s’aperçoit que toute langue à ses origines est une langue créole.” (Glissant, 1996: 21) Com esta sua tese, Glissant coloca uma bomba debaixo de toda a linguística tradicional. O que faz é defender que todas as línguas, sejam elas o português, o neerlandês, o papiamento ou o japonês, poderiam ser consideradas línguas crioulas, já que cada uma delas é, no fundo, o resultado de um processo secular de contacto e de mistura. É um facto que até há meio século atrás, os linguistas teimosamente ficavam presos ao mito da pureza das línguas e que por causa da obsessão com a pureza adâmica e com a estruturação e fixação geográfica e histórica das línguas4 não se queria aceitar que as mais variadas influências estrangeiras têm sido fundamentais para o desenvolvimento de qualquer língua. Uma cultura em que a alegada pureza da língua chegou a ter um estatuto quase mítico é a alemã. Nos seus famosos Discursos à Nação Alemã (1808), o pai do romantismo alemão, Gottlieb Johann Fichte, sublinhava a importância da pureza da língua alemã e o perigo que parte de qualquer tipo de influência estrangeira,já que esta levaria inevitavelmente a uma decadência.5 Erradamente, Fichte considerava o facto de a língua alemã não ser de origem latina como uma prova da sua pureza; por consequência, a presença de tropas napoleónicas em território germânico era muito mais que uma simples humilhação – era vista como um primeiro e irreversível passo em direcção à degeneração. A ilusão da alegada pureza alemã conseguiu manter-se durante vários séculos e culminou com a chegada da ditadura nazi, na qual se usava constantemente a língua para “provar” a pureza da cultura alemã e a impureza das outras. O linguista nazi Wilhelm Blaschke, por exemplo, argumentava que a ortografia inglesa reflectia o “escândalo racial” da língua e do espírito inglês.Quando então Mussolini decidiu tomar medidas para purificar o italiano, também na Alemanha se intensificaram os apelos para se avançar com uma purificação da língua. Em consequência,o ministério alemão da cultura ficou repleto de listinhas de palavras, enviadas por professores que pretendiam contribuir para a nobre causa da purificação da língua – aparentemente sem que ninguém se desse conta que nem a palavra “Ministerium”, nem “Kultur” são de origem germânica. A obsessão era tal que o ministro não teve alternativa senão proibir por lei a publicação de artigos críticos sobre a ortografia alemã e o ministro de propaganda, Joseph Goebbels, chegou mesmo a acusar os zelosos professores de germanomania. (cfr.Birken-Bertsch, 2000: 44) leia este interessante estudo em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4568.pdf ==================================================================== * A presente comunicação insere-se no projecto “literatura e identitades” do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Unidade I& D, financiada pela Fundação paraa Ciência e a Tecnologia no âmbito do Programa Operacional Ciência, Tecnologia e Inovação (POCTI) do Quadro Apoio III.