domingo, 11 de setembro de 2011


David Silva um açor-americano é um excelente profissional esteve presente no nosso colóquio em 2007 com um trabalho sobre fonética açoriana que podem ler em anexo. posteriormente JÁ TIVEMOS OUTROS INVESTIGADORES A USAREM ESTE MATERIAL NAS SUAS APRESENTAÇÕES NOS NOSSOS COLÓQUIOS, PASSE A PUBLICIDADE
Chrys C:
    

Prof. Dr. David J. Silva  e' natural de Massachusetts, U.S.A..  Os pais são de Sao Miguel, A,cores.
 
 
David J. Silva, Ph.D.
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2011 © David J. Silva
Office of the Provost, Department of Linguistics and TESOL, UT Arlington, Arlington, TX 76019
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David J. Silva
The University of Texas at Arlington

David Silva (The University of Texas at Arlington), nasceu em Somerville, Massachusetts em 1964. De pais açorianos, cresceu e educou-se num ambiente quase exclusivamente americano. O seu interesse pela língua dos seus pais veio à luz durante os seus estudos de licenciatura na Harvard University, onde recebeu um A.B. em linguística em 1986. Continuou os seus estudos linguísticos a nível de pós-graduação na  Cornell University, onde se dedicou e especializou em fonética e fonologia da língua coreana e doutorou-se em linguística em 1992. É director do departamento de “Linguistics and TESOL” na Universidade de Texas em Arlington (localizada entre Dallas e Fort Worth). Os seus estudos de investigação científica  têm sido publicados em várias revistas académicas, tais como Korean Linguistics, Korean Studies, Language Variation and Change e Phonology. Dedica-se à pesquisa fonética e sociolinguística coreana, mas de vez em quando, visita o seu interesse pelo dialecto do seu pai, o da ilha de São Miguel.

TRAÇOS FONÉTICOS SOBREVIVENTES NO FALAR MICAELENSE DE ALGUNS IMIGRANTES AÇORIANOS EM GREATER BOSTON

Sinopse
Entre os vários dialectos do português mundial, a variedade falada na ilha de São Miguel (Açores) exibe traços fonéticos que não se encontram noutras partes do mundo lusófono. As características mais emblemáticas deste dialecto são as vogais anteriores arredondadas [ü] e [ö], que correspondem a [u] e [oi/ou] (respectivamente) no Português padrão. Há também diferenças sistemáticas na pronúncia das vogais tónicas, que são reflexos de um “movimento em cadeia” (Martinet 1955): por exemplo, sete pronuncia-se como [sæt], avó como [avô] e avô como [avú]. Embora estas características micaelenses estejam bem atestadas no falar contemporâneo da ilha (viz. Silva 1986, 2006; Blayer 1992; Bernardo 2003), persistem na pronúncia dos emigrantes açorianos nos Estados Unidos? Essa pergunta merece a nossa atenção, se considerarmos as forças sociolinguísticas com que os micaelenses se deparam dentro da comunidade luso-americana, em relação aos falantes naturais de outras partes do mundo lusófono onde o sistema vocálico se conforma mais ao português «normal». Neste estudo, apresentamos uma análise fonética de quatro emigrantes da vila do Nordeste (agora residentes na região de Boston), os quais patenteiam sistemas vocálicos distintos. Alguns falantes conservam a maioria das características típicas da ilha, mas outros compreendem formas correspondentes à da língua padrão de Portugal. Nesta variabilidade interpessoal detecta-se uma tensão entre as acções articulatórias que são emblemáticas da identidade micaelense (como a [ü] em lugar da [u]) e as que manifestam uma resposta comprometida às forças linguísticas e sociais da norma padrão portuguesa.

1.    Introdução

Entre os vários dialectos do português, a variedade falada na ilha de São Miguel exibe traços fonéticos que não se encontram noutras partes do mundo lusófono. As características mais emblemáticas deste dialecto são, sem dúvida, as vogais anteriores arredondadas [ü] e [ö], acentuadas, que correspondem a u e oi/ou (respectivamente) no português padrão. A vogal micaelense [ö] aparece também no contexto de [o] seguida pela fricativa palatal j.

 (1)          u-escrita = [ü]                                                       oi-, ou-, oj-escritas = [ö]
[‘üvâ]                       uva                                         [öt]                           oito
[‘frütâ]                     fruta                                        [nöt]                        noite
[krüš]                      cruz                                        [pök]                       pouco
[â’zül]                      azul                                        [öž]                          hoje

Há também diferenças sistemáticas na pronúncia das vogais tónicas, que são reflexos de umas “modificações em cadeia” (Martinet 1955). Por exemplo, a palavra dedo pronuncia-se como [déd(u)], perna como [pærnă], avó como [avô], avô como [avú], etc.

(2)           Correspondência                            Pronúncia                     Pronúncia                     Forma
Fonética                                            padrão                           micaelense                  ortográfica
                PP [i]       ~ PM [i]                               [‘ditu]                              [dit]                                  dito
                PP [ej]    ~ PM [ê]                              [‘lejtĭ] ~ [‘lăjtĭ]                 [le:t]                                 leite
                PP [ê]     ~ PM [é]                              [‘dêdu]                            [déd]                               dedo
                PP [é]     ~ PM [æ]                            [‘pérnă]                          [‘pærnă]                         perna
PP [a]     ~ PM [α:]                             [‘patu]                             [pα:t]                               pato
PP [ó]     ~ PM [ô]                              [ă’vó]                               [ă’vô]                               avó
PP [o]     ~ PM [u]                              [ă’vô]                               [ă’vu]                               avô
PP [u]     ~ PM [ü]                              [‘tudu]                             [tüd]                                tudo

Estas características micaelenses estão bem atestadas no falar da ilha (viz. Rogers 1940, 1948; Silva 1986, 2005; Blayer 1992; Bernardo 2003). Com certeza, a investigação mais detalhada é aquela de Bernardo (2003), em que se encontram descrições acústicas refinadas, lugar por lugar por toda parte da ilha. (Os factos apresentados aqui nesta obra representam e foram mais ou menos generalizados para facilitar a exposição.) Foi Rogers que notou que estas correspondências vocálicas entre a língua padrão e o falar micaelense resultaram dumas modificações em cadeia (“chain shift”):

(3) As Modificações em Cadeia  (viz. Rogers 1940, 1948; Martinet 1952)

Text Box: i       ü      u
ei ê    ô
é  ó
     æ         a

Estas modificações, ao lado de vários processos de monotongação – eu > [e], pai > [pa:], chapéu > [šă’pé:], foi > [fö], e couve > [köv] – dão à pronúncia da ilha o seu perfil original na lusofonia.  No fim da sua obra sobre a fonética deste dialecto, Bernardo escreve o seguinte: “... a frequência e a sistematização de emprego das vogais [ü], [ö] e até mesmo [α], ainda que esta última seja evitada nos meios citadinos, não encontram paralelo no universo da Lusofonia, constituindo marcas indeléveis de um modo de falar muito típico da ilha de São Miguel “ (p. 115).

Embora estes traços fonéticos estejam atestados no falar contemporâneo da ilha, persistem na pronúncia dos emigrantes açorianos nos Estados Unidos? A pergunta merece a nossa atenção, se considerarmos as  forças sociolinguísticas com que os micaelenses se deparam dentro da comunidade luso-americana, em relação aos falantes naturais de outras partes do mundo lusófono onde o sistema vocálico se conforma mais ao português «normal». Vamos descobrir que alguns micaelenses que  se integram na comunidade lusófona deixam ao lado umas manifestações típicas do dialecto e, com efeito, adoptar uma pronúncia similar à língua padrão. Outros locutores, que participam na comunidade lusófona mas a um nível menos intenso, preservam os traços estereotípicos – a [ü], a [ö], e a [æ] (em lugar da é) – mas não manifestam todos resultados das modificações em cadeia. Finalmente, locutores que não têm ligações além da sub-comunidade micaelense preservam a maioria das características do dialecto; estes, que são uma minoria, manifestam um sistema bem tradicional e conservativo – e, pode-se dizer – estereotípico e estigmatizado.

2.    Vogais Orais Acentuadas na Língua Padrão

Antes de considerar os fatos do sistema vocálico micaelense (na ilha e na América), repassamos um pouco as características básicas do vocalismo da língua padrão. É bem conhecido que na língua padrão há sete vogais orais acentuadas: i, ê, é, a, ó, ô, e u.[1] Martins (1988) informa-nos que cada vogal ocupa uma área acústica distinta; os valores de frequência dos primeiro e segundo formantes não manifestam nenhuma parte sobreposta no espaço acústica.[2]

Figura No. 1: As vogais acentuadas do português padrão, 9 falantes (Martins 1988)

Duma perspectiva tipológica, este sistema não manifesta nada estranho; a maioria das línguas no mundo contém cinco ou sete vogais orais num sistema mais ou menos simétrico e paralelo, como se apresenta no português.

3.    Vogais Orais Acentuadas no Falar Micaelense

As observações auditivas de Rogers e Blayer sobre o vocalismo do falar micaelense foram confirmados pelas investigações acústicas. Por exemplo, Silva (2006) apresenta o seguinte para ilustrar as posições relativas das vogais orais acentuadas no falar duma mulher, Senhora T, residente da Vila do Nordeste. Os sinais grandes representam os valores médios de cada vogal; os pequenos representam as posições vocálicas na língua padrão. As flechas enfatizam os resultados das modificações em cadeia, um processo diacrónico.

Figura No. 2: O espaço vocálico da Sra. T, natural e residente do Nordeste.

No falar desta locutora, as vogais avançadas pronunciam-se mais abaixo (ê > [é] e é > [æ]); é assim mesma a posição da vogal baixa, a. As vogais médias, recuadas e arredondadas (ó e ô) estão situadas quase na mesma posição em que se localizam os correspondentes no português normal. A vogal i está um pouco avançada e a u fica bem longe da sua origem na faixa alta e recuada, mas é bem arredondada.
                Na Figura No. 3 vê-se o espaço vocálico doutra residente do Nordeste, Senhor F. Aqui encontra-se uma melhor evidência do movimento em (3), indicada pelas flechas.

Figura No. 3: O espaço vocálico da Sr.ª F, natural e residente do Nordeste.

É claro que os espaços vocálicos destes dois falantes não se conformam à situação que nos apresentou Rogers – o movimento “contra o sentido horário”. Mas como escreve Bernardo, “Colheram-se interessantes registos que dão testemunho da consciência, que os locutores demonstram ter, da existência de variação no português falado na ilha” (p. 113). Em breve, a variação fonética é normal. Mas a variação individual não deve obscurecer a presença de características emblemáticas do dialecto, que se patenteiam nas figuras acima.

4.    O Falar Micaelense na América

Então, quando os micaelenses deixam o seu lugar natal para emigrar aos Estados Unidos, que se passa com o desempenho fonético? Mantêm-se as características da ilha ou adoptam-se outras pronúncias? Depende da pessoa, com certeza, mas creio que há generalizações para notar.
Nesta apresentação, vamos considerar as produções orais de quatro falantes: uma mulher velhinha e os três filhos dela. A mãe (“MB”) tinha uns 70 anos; nasceu nos Estados Unidos, mas foi para o Nordeste quando tinha dois anos. Cresceu na vila do Nordeste, onde se casou com um homem natural da Ribeira Grande. Deu à luz três filhos em São Miguel entre 1943 e 1946. Em 1949, a família emigrou para os Estados Unidos e moram em Cambridge e Somerville. Em 1956, nasceu o último filho. Os três filhos que foram entrevistados são o mais velho (“L”), o segundo (“J”), e o mais jovem (“S”).
A recolha dos materiais que servem de base a este trabalho foi feita no verão de 1997, nos arredores da cidade de Boston, onde moram muitos imigrantes açorianos (em particular, nas cidades de Somerville e Cambridge). Apresentei a cada falante uma série de fotos de coisas comuns: um rádio, umas uvas, uma tesoura, uns sapatos, uma bola, etc. As entrevistas foram gravadas numa fita de audiocassete e depois convertidas a uma forma digital num computador portátil. Os ficheiros acústicos foram analisados com o programa “Praat” (da Universidad de Leiden), em que afirmei os valores de dois pontos críticos de cada vogal: o valor do primeiro formante (F1—a abertura) e o valor do segundo formante (F2—o recuo).

4.1. Espaço Vocálico de MB (mulher, ~75 anos). O espaço vocálico da mãe, MB, apresenta-se na Figura No. 4. Nesta figura vêem-se várias características típicas da ilha: a anteriorização da vogal alta u (até [ü]), a anteriorização do ditongo ortográfico ou (> [ö]), o movimento em cadeia das vogais anteriores para abaixo, e o abaixamento do vogal baixo a, mas sem recuo significativo. As vogais ó e ô ficam mais ou menos na região em que  se situam estes segmentos na língua padrão, sem movimento. Este espaço é parecido com o da Sra. T.
Figura No. 4: O espaço vocálico da Sra. MB.
Os pequenos sinais representam os valores dos vogais na língua padrão (de Martins 1988)

4.2. Espaço Vocálico de L (filho mais velho, ~55 anos). O espaço vocálico do Sr. L é diferente daquele da mãe. Na Figura No. 5 podemos ver as modificações em cadeia das vogais anteriores ê e é, mas não há movimento significativo da vogal baixa, a. Vemos também que o ditongo ortográfico ou apresenta-se como um monotongo centralizado (e não bem como o anterior), e que as duas vogais médias recuadas ô e ó ocupam quase o mesmo espaço, numa amalgamação dos dois (um “vowel merger”). Finalmente, e mais importante, a vogal ortográfica u fica na sua posição normal, na esquina alta e recuada. Não há [ü], uma das características mais fortes do dialecto.
Figura No. 5: O espaço vocálico de L.

4.3. Espaço Vocálico de J (filho segundo, 53 anos). O espaço vocálico de J é mais uma vez diferente. Na Figura No. 6, vemos que a vogal i se aproxima a ê, que fica (mais ou menos) no espaço normal. A vogal é fica bem longe da ê, numa posição bem perto da a, que é recuada. Enquanto as ô e ó ficam em posições normais, a u fica ao lado da i, e o ditongo ou manifesta-se como vogal central, mas mais anterior do que se apresenta no espaço de locutor L.

Figura No. 6: O espaço vocálico de J.

4.4. Espaço Vocálico de S (filho mais jovem, 42 anos). O espaço vocálico de S merece atenção especial porque representa melhor o padrão mais “típica” (ou, talvez, “estereotípica”) da ilha. Nem a i nem a ê participa na modificação em cadeia, mas as outras vogais, sim. A vogal é fica bem abaixo; a a está recuada; a ó e a ô estão levadas às posições de ô e u, respectivamente, e a u manifesta-se como [ü]. O ditongo ou é um monotongo central.
Figura No. 7: O espaço vocálico de S.

5.    Análise

Aqui apresentamos uma análise fonética de quatro emigrantes da vila do Nordeste (agora residentes na região de Boston), os quais patenteiam sistemas vocálicos distintos. Cada falante conserva algumas das características típicas da ilha, mas os padrões específicas são diferentes. Julgo que o Sr. L manifesta o sistema mais parecido com a língua padrão; vemos que as sete vogais principais ocupam áreas distintas e em posições relativamente parecidas com as do sistema padrão. A excepção é a posição relativa de ô e ó, que se aproximam. Há monotongação e anteriorização do ou, mas não há a [ü] característica dos micaelenses. Por outro lado, o espaço do filho mais jovem, P, é mais típico da ilha. Entre esses dois pontos e as extremidades ficam os sistemas da mãe e do filho J; esses casos representam uma acomodação do sistema insular ao sistema essencialmente padrão que predomina na comunidade luso-americana.

Como se explica essa diferenças entre os quatro falantes, que são membros da mesma família? Creio que é importante considerarmos factos sociológicos, incluindo as relações entre as comunidades e sub-comunidades linguísticas. É importante reconhecermos que na comunidade lusófona açoriana, o falar micaelense é individual e, desafortunadamente, estigmatizado por muitos. No contexto insular (que quer dizer aqui, na ilha), o estigma perde o seu poder na presença dos esforços da rede social (“social networking”) que apoia o uso regular e a avaliação positiva do dialecto local. Porém no contexto imigrante, quando os micaelenses chegam a viver lado a lado com lusofalantes de dialectos mais parecidos com a língua padrão, encontram pressões novas a conformam-se a pronúncia na direcção da língua padrão.

Consideramos a situação social do falante L. Vive principalmente na comunidade anglófona, mas têm entrelaços importantes na comunidade açoriana. O esforço linguístico mais forte na vida dele é, com certeza, a língua da esposa e a família dela, naturais da ilha do Faial, que moravam no mesmo edifício durante os primeiros cinco anos do casamento. Anos depois, a sogra morava com a família de L. Dia a dia, L encontrou o falar faialense, que é na maior parte fonologicamente equivalente à norma padrão portuguesa. Por outras palavras, L entrou numa relação de alta densidade (“high density relationship”, Milroy 1987) com a comunidade lusófona: as interacções com falantes de dialectos normais portugueses são quotidianas e relativamente significativas. Por isso, vemos que L modificou os seus padrões fonéticos.

Noutra extremidade encontramos S, que fala uma variedade típica. Mesmo que fale o dialecto micaelense como língua primeira, não tem ligações significativas na comunidade lusófona: está quase completamente integrado exclusivamente no mundo anglófono. O seu único contacto com a língua portuguesa vem das interacções com os pais, avós, e tios – todos naturais do São Miguel. (Com os irmãos e os primos fala inglês tão-só.) S entrou numa relação de baixa densidade com a comunidade lusófona: as interacções com falantes de outros dialectos portugueses são raras e relativamente insignificantes. Sem ligações regulares com lusofalantes (de qualquer dialecto), S nunca recebeu o “input” necessário para estabelecer nem a competência linguística nem as atitudes da comunidade mais larga.

Ao contrário, os falantes MB e J têm ligações na comunidade lusófona, as mais significativas daqueles são com outros micaelenses. Por isso, a pronúncia deles manifesta uma resposta comprometida às forças linguísticas e sociais da norma padrão portuguesa, sem deixar de lado os indicadores (o que William Labov chama “indicators”) principais do dialecto. Eles não entram em contacto com a língua padrão tão frequentemente quanto o locutor L. Portanto, por causa destas relações de média densidade, não padecem das mesmas pressões sociolinguísticas para abandonar esses indicadores fonéticos; no mesmo tempo, dão-se conta das diferenças entre o falar micaelense e a pronúncia padrão e, por consequência, modificam o comportamento linguístico até às normas da comunidade.


 









                     
 



           





            Figura No. 8: Esquema das relações sociolinguísticas entre os participantes.
                (“Esp” = “esposo/a”)

6.    Conclusão

Este trabalho apresentou uma descrição e análise das manifestações fonéticas de quatro membros da comunidade  micaelense na área de Boston. Como vimos, as pronúncias atestadas no falar contemporâneo da ilha persistem na pronúncia dos emigrantes açorianos nos Estados Unidos. Porém, esses locutores patenteiam sistemas vocálicos distintos. O falante menos ligado à comunidade lusófona conserva a maioria das características típicas da ilha, por não ter interacções de alta densidade com falantes de outras partes do mundo lusófono. Ao contrário, o locutor com ligações íntimas e diárias com falantes de dialectos não-micaelenses manifesta um espaço vocálico mais ou menos correspondente à da língua padrão de Portugal. A variabilidade interpessoal detecta-se numa tensão entre as acções articulatórias que são emblemáticas da identidade micaelense (como a [ü] em lugar da [u]) e as que manifestam uma resposta comprometida às forças linguísticas e sociais da norma padrão portuguesa.

David J. Silva, Department of Linguistics and TESOL, The University of Texas at Arlington, UTA Box 19559 – Hammond Hall 403, Arlington, TX  76019-0559   USA david@uta.edu  / http://ling.uta.edu/~david

7.    Obras Citadas

Bell, R. T. Sociolinguistics. London: B. T. Batsford, 1983.
Blayer, Irene Maria Ferreira. "Aspects of the Vocalic System in the Speech of the Azores Islands." Diss. U of Toronto, 1992.
Chambers, J. K. Sociolinguistic Theory. Oxford: Blackwell, 1995.
Gonçalves Vianna, Aniceto dos Reis. "Notas sobre a fonética dialectal de Ponta-Delgada." Revista Lusitana I (1887-89): 223-26.
Labov, William. Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: U of Pennsylvania Press, 1972.
Leite de Vasconcellos, José. "Dialectos Acoreanos (contribuições para o estudo da Dialectologia Portuguesa." Revista Lusitana II (1890-92): 289-307.
Martinet, André. "Function, Structure, and Sound Change." 1952. Readings in Historical Phonology: Chapters in the Theory of Sound Change. Eds. Philip Baldi and Ronald N. Werth. University Park: Pennsylvania State UP, 1978. 121-59.
Martins, Maria Raquel Delgado. Ouvir Falar, 3a edição. Lisboa: Caminho, 1988.
Milroy, Lesley. Language and Social Networks, 2nd edition. Oxford: Basil Blackwell, 1987.
Rogers, Francis M. "The Production of the Madeira and Azores Dialects as Compared with Standard Portuguese." Diss. Harvard U., 1940.
 ---. "Insular Portuguese Pronunciation: Porto Santo and Eastern Azores." Hispanic Review XVI.1 (1948): 1-32.
Silva, David James. "New Perspectives on the Portuguese Vowel Shift." Undergraduate Thesis, Harvard U., 1986.
---. Vowel Shifting as a Marker of Social Identity in the Portuguese Dialect of Nordeste, São Miguel (Azores). Luso-Brazilian Review 42.1 (2005): 1-27.



[1] Não nos preocupamos com o estado da vogal â por ser marginalizada na fonologia das vogais tónicas na língua.
[2] Por convenção, nos quadros acústicos aparecem os valores de frequência do primeiro formante (F1) no eixo-y e a diferença entre os valores de frequência do segundo formante e o primeiro (F2-F1) no eixo-x. Estes valores representam a abertura e recuo das vogais (respectivamente) na boca do falante.

ao 1990 e os Colóquios da Lusofonia


sabia que este guia gratuito distribuido pela Impresa na revista VISÃO, JORNAL EXPRESSO E JL contém como uma das principais fontes a página dos colóquios da lusofonia??????

sábado, 10 de setembro de 2011

Novo dicionário escolar reconhece gírias como "periguete" e "tuitar"


sábado, 10 de setembro de 2011

Novo dicionário escolar reconhece gírias como "periguete" e "tuitar"

"Aurélio Júnior" tem lançamento na Bienal do Livro do Rio


Globo.com/G1
Lançada na Bienal do Livro, que acontece no Rio até dia 11 de setembro, a nova edição escolar do dicionário “Aurélio” tem como novidade a inclusão das palavras “periguete”, “tuitar” e outras expressões que circulam nas bocas das novas gerações entre seus 30 mil verbetes.

Segundo definição do “Aurélio Júnior”, “periguete” significa “moça ou mulher que, não tendo namorado, demonstra interesse por qualquer um”, enquanto “tuitar” é definido como “postar ou acompanhar algo postado no Twitter”.

“O uso é o que habilita uma palavra a entrar para o dicionário”, diz a Valéria Zelik, responsável pela edição do manual. “A língua tem muitas nuances, e o dicionário é um reflexo disso, não o contrário”, afirma a editora.


Ela também cita os termos bullying, blog e deletar entre os verbetes integrados recentemente, além do verbo “ficar”, que ganhou novo significado: “trocar carinhos por período curto, mas sem compromisso de namoro”.

Outra modificação nos verbetes foi a reintegração do termo “presidenta” ao manual escolar. “A solicitação da Dilma Rousseff aflorou o uso desse feminino, que tem uma carga ideológica, é um feminino feminista”, diz a editora.
Editora do Aurélio Júnior na Bienal do Livro (Foto: Carla Meneghini/G1)

Palavras em quarentena

Valéria conta que a equipe de dicionaristas que trabalha no “Aurélio” pesquisas constantes nos meios de comunicação de massa e em obras literárias e acadêmicas em busca de novas palavras a serem reconhecidas. Para entrar para o dicionário, uma nova expressão leva em torno de cinco anos de “quarentena”, em que seu uso será estudado.

“Checamos se é um registro que veio para ficar ou se é um simples modismo”, diz a editora, que conta que o termo “tuitar” acabou superando mais rapidamente esse processo por conta de sua ampla aceitação. “Até os membros da Academia Brasileira de Letras tuitam”, explica.

Os menores livros do mundo


sábado, 10 de setembro de 2011

Os menores livros do mundo na XV Feira Pan-Amazônica do Livro

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

o crime do vale do Tua

Um artigo de Daniel Deusado, jornalista (JN - 08SET2011).
 
Atentamente,
Célia Quintas.
 
 
 
NOVAS BARRAGENS = CRIMES
O JN trazia esta semana dois artigos que se interligam profundamente. Num, o Norte como região turística preferida dos portugueses, sobretudo pela natureza e paisagem. No outro, o retrato da futura barragem do Tua. Questão: é possível destruir um rio como o Tua e manter-se a ficção de que o turismo é o maior activo do país?
 
As barragens foram propagandeadas por Salazar como o milagre da energia barata e são hoje responsáveis por uma parte da produção de electricidade nacional, além de terem melhorado o controlo do caudal dos rios. Foi assim por todo o Mundo. Mas já se evoluiu muito desde então e hoje percebe-se melhor que elas têm um custo implícito, porque os ecossistemas vão sendo profundamente alterados e a nossa saúde paga todos os dias a factura...
 
Infelizmente, para a maioria das pessoas, isto é conversa. O que importa é se a conta da luz é mais barata. Começo então por aqui: o plano de barragens posto em marcha pelo Governo Sócrates inclui uma engenharia financeira tipo "scut" cujo custo só vamos sentir daqui a uns anos de forma brutal - e aí já será tarde. Uma plataforma de organizações ambientais entregou esta semana à troika um documento que explica onde nos leva o plano da outra "troika" (Sócrates-Manuel Pinho-António Mexia). As 12 obras previstas que incluem novas barragens e reforço de outras já existentes produzem apenas o equivalente a três por cento de energia eléctrica do país, mas vão custar ao Orçamento do Estado e aos consumidores 16 mil milhões de euros... O documento avisa que a conta da electricidade vai, a prazo, incluir um agravamento de 10% para suportar mais este negócio falsamente "verde". A EDP, a Iberdrola, etc., receberão um subsídio equivalente a 30% da capacidade de produção, haja ou não água para produzir. Mesmo paradas, recebem. A troika importa-se com isto?
 
Os especialistas das organizações ambientais dizem, desde o princípio, que as novas barragens poderiam ser evitadas se houvesse aumento de capacidade das barragens existentes. Era mais barato e a natureza agradecia. Infelizmente a EDP apostou milhões para conseguir novas barragens, e isso incluiu antecipação de pagamentos de licenças que ajudaram o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos a cobrir uma parte do défice de 2009, além da mais demagógica e milionária campanha publicitária da década, em que se fazia sonhar com barragens como se fossem os melhores locais do Mundo para celebrar a natureza...
 
Estes monstros de betão vão agora destruir dois rios da região do Douro, desnecessariamente. O Sabor, por exemplo, é uma jóia de natureza ainda selvagem. À medida que o turismo ambiental cresce globalmente, mais Portugal teria a ganhar com um Parque Natural do Douro Internacional ainda inóspito, genuíno. Já não será assim. A barragem em construção inclui uma albufeira de 40 quilómetros onde se manipula o rio de trás para a frente, com desníveis súbitos, acabando com a vida fluvial endógena e o habitat das espécies em redor.
 
Não menos grave é a destruição do rio Tua e da centenária linha do comboio. Uma vez mais o argumento é "progresso" - os autarcas e as populações acreditam que os trabalhadores da construção civil, que por ali vão andar por uns anos a comer e a dormir nas pensões locais, garantem a reanimação da economia... Infelizmente, não vêem o fim definitivo daquela paisagem e da mais bela história ferroviária de Portugal. Uma linha erigida a sangue, suor e lágrimas. Única. E que deveria ali ficar, mesmo que não fosse usada ou rentável, até ao dia em fosse entendida como um extraordinário monumento da engenharia humana e massivamente visitada enquanto tal.
 
Ao deixarmos cometer mais estes crimes, em troca de um mau negócio energético, não percebemos mesmo qual o nosso papel no Mundo. Esquecemos que a Natureza nos cobra uma factura muito pesada quando destruímos a fauna e a flora. Estamos a comprometer a qualidade da água e das colheitas de que precisamos para viver, com consequências para a nossa saúde e a das gerações vindouras. Se ainda não sabemos isto, sabemos zero. E ainda por cima vamos pagar milhões. É triste.
 

autobiografia Saramago


Autobiografia
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Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago... Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.
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Talvez por ter participado na Grande Guerra, em França, como soldado de artilharia, e conhecido outros ambientes, diferentes do viver da aldeia, meu pai decidiu, em 1924, deixar o trabalho do campo e trasladar-se com a família para Lisboa, onde começou a exercer a profissão de polícia de segurança pública, para a qual não se exigiam mais "habilitações literárias" (expressão comum então...) que ler, escrever e contar. Poucos meses depois de nos termos instalado na capital, morreria meu irmão Francisco, que era dois anos mais velho do que eu. Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias. Durante todo este tempo, e até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.
fjsFui bom aluno na escola primária: na segunda classe já escrevia sem erros de ortografia, e a terceira e quarta classes foram feitas em um só ano. Transitei depois para o liceu, onde permaneci dois anos, com notas excelentes no primeiro, bastante menos boas no segundo, mas estimado por colegas e professores, ao ponto de ser eleito (tinha então 12 anos...) tesoureiro da associação académica... Entretanto, meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura. Como não tinha livros em casa (livros meus, comprados por mim, ainda que com dinheiro emprestado por um amigo, só os pude ter aos 19 anos), foram os livros escolares de Português, pelo seu carácter "antológico", que me abriram as portas para a fruição literária: ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante. Terminado o curso, trabalhei durante cerca de dois anos como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.
Quando casei, em 1944, já tinha mudado de actividade, passara a trabalhar num organismo de Segurança Social como empregado administrativo. Minha mulher, Ilda Reis, então dactilógrafa nos Caminhos de Ferro, viria a ser, muitos anos mais tarde, um dos mais importantes gravadores portugueses. Faleceria em 1998. Em 1947, ano do nascimento da minha única filha, Violante, publiquei o primeiro livro, um romance que intitulei A Viúva, mas que por conveniências editoriais viria a sair com o nome de Terra do Pecado. Escrevi ainda outro romance, Clarabóia, que permanece inédito até hoje, e principiei um outro, que não passou das primeiras páginas: chamar-se-ia O Mel e o Fel ou talvez Luís, filho de Tadeu... A questão ficou resolvida quando abandonei o projecto: começava a tornar-se claro para mim que não tinha para dizer algo que valesse a pena. Durante 19 anos, até 1966, quando publicaria Os Poemas Possíveis , estive ausente do mundo literário português, onde devem ter sido pouquíssimas as pessoas que deram pela minha falta.
Por motivos políticos fiquei desempregado em 1949, mas, graças à boa vontade de um meu antigo professor do tempo da escola técnica, pude encontrar ocupação na empresa metalúrgia de que ele era administrador. No final dos anos 50 passei a trabalhar numa editora, Estúdios Cor, como responsável pela produção, regressando assim, mas não como autor, ao mundo das letras que tinha deixado anos antes. Essa nova actividade fjspermitiu-me conhecer e criar relações de amizade com alguns dos mais importantes escritores portugueses de então. Para melhorar o orçamento familiar, mas também por gosto, comecei, a partir de 1955, a dedicar uma parte do tempo livre a trabalhos de tradução, actividade que se prolongaria até 1981: Colette, Pär Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nikos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel, Raymond Bayer foram alguns dos autores que traduzi. Outra ocupação paralela, entre Maio de 1967 e Novembro de 1968, foi a de crítico literário. Entretanto, em 1966, publicara Os Poemas Possíveis, uma colectânea poética que marcou o meu regresso à literatura. A esse livro seguiu-se, em 1970, outra colectânea de poemas, Provavelmente Alegria, e logo, em 1971 e 1973 respectivamente, sob os títulos Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante , duas recolhas de crónicas publicadas na imprensa, que a crítica tem considerado essenciais à completa compreensão do meu trabalho posterior. Tendo-me divorciado em 1970, iniciei uma relação de convivência, que duraria até 1986, com a escritora portuguesa Isabel da Nóbrega.
Deixei a editora no final de 1971, trabalhei durante os dois anos seguintes no vespertino Diário de Lisboa como coordenador de um suplemento cultural e como editorialista. Publicados em 1974 sob o título As Opiniões que o DL teve, esses textos representam uma "leitura" bastante precisa dos últimos tempos da ditadura que viria a ser derrubada em Abril daquele ano. Em Abril de 1975 passei a exercer as funções de director-adjunto do matutino Diário de Notícias, cargo que desempenhei até Novembro desse ano e de que fui demitido na sequência das mudanças ocasionadas pelo golpe político-militar de 25 de daquele mês, que travou o processo revolucionário. Dois livros assinalam esta época: O Ano de 1993, um poema longo publicado em 1975, que alguns críticos consideram já anunciador das obras de ficção que dois anos depois se iniciariam com o romance Manual de Pintura e Caligrafia, e, sob o título Os Apontamentos , os artigos de teor político que publiquei no jornal de que havia sido director.
Sem emprego uma vez mais e, ponderadas as circunstâncias da situação política que então se vivia, sem a menor possibilidade de o encontrar, tomei a decisão de me dedicar inteiramente à literatura: já era hora de saber o que poderia realmente valer como escritor. No princípio de 1976 instalei-me por algumas semanas em Lavre, uma povoação rural da província do Alentejo. Foi esse período de estudo, observação e registo de informações que veio a dar origem, em 1980, ao romance Levantado do Chão, em que nasce o modo de narrar que caracteriza a minha ficção novelesca. Entretanto, em 1978, havia publicado uma colectânea de contos, Objecto Quase, em 1979 a peça de teatro A Noite, a que se seguiu, poucos meses antes da publicação de Levantado do Chão, nova obra teatral, Que Farei com este Livro?. Com excepção de uma outra peça de teatro, intitulada A Segunda Vida de Francisco de Assis e publicada em 1987, a década de 80 foi inteiramente dedicada ao romance: Memorial do Convento, 1982, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984, A Jangada de Pedra, 1986, História do Cerco de Lisboa , 1989. Em 1986 conheci a jornalista espanhola Pilar del Río. Casámo-nos em 1988.
Em consequência da censura exercida pelo Governo português sobre o romance O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), vetando a sua apresentação ao Prémio Literário Europeu sob pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos, transferimos, minha mulher e eu, em Fevereiro de 1993, a nossa residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias. No princípio desse ano publiquei a peça In Nomine Dei, ainda escrita em Lisboa, de que seria extraído o libreto da ópera Divara, com música do compositor italiano Azio Corghi, estreada em Münster (Alemanha), em 1993. Não foi esta a minha primeira colaboração com Corghi: também é dele a música da ópera Blimunda, sobre o romance Memorial do Convento, estreada em Milão (Itália), em 1990. Em 1993 iniciei a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote, de que estão publicados cinco volumes. Em 1995 publiquei o romance Ensaio sobre a Cegueira e em 1997 Todos os Nomes e O Conto da Ilha Desconhecida . Em 1995 foi-me atribuído o Prémio Camões, e em 1998 o Prémio Nobel de Literatura.
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Em consequência da atribuição do Prémio Nobel a minha actividade pública viu-se incrementada. Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferências, recebendo graus académicos, participando em reuniões e congressos, tanto de carácter literário como social e político, mas, sobretudo, participei em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.
Creio ter trabalhado bastante durante estes últimos anos. Desde 1998, publiquei Folhas Políticas (1976-1998) (1999), A Caverna (2000), A Maior Flor do Mundo (2001), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a Lucidez (2004), Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (2005), As Intermitências da Morte (2005) e As Pequenas Memórias (2006). Agora, neste Outono de 2008, aparecerá um novo livro: A Viagem do Elefante, um conto, uma narrativa, uma fábula.
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No ano de 2007 decidiu criar-se em Lisboa uma Fundação com o meu nome, a qual assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos, além da atenção que devemos, como cidadãos responsáveis, ao cuidado do meio ambiente. Em Julho de 2008 foi assinado um protocolo de cedência da Casa dos Bicos, em Lisboa, para sede da Fundação José Saramago, onde esta continuará a intensificar e consolidar os objectivos a que se propôs na sua Declaração de Princípios, abrindo portas a projectos vivos de agitação cultural e propostas transformadoras da sociedade.
Nota - Depois de A Viagem do Elefante, José Saramago escreveu Caim e O Caderno I e O Caderno II, livros que não chegou a acrescentar à sua Autobiografia.
© José Saramago 2010

AO 1990 Debate sobre a língua



Manuel de Sousa opina no wikipedia/9.07.06-Debate sobre a língua
http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Vers%C3%B5es_da_l%C3%ADngua_portuguesa/Arquivo3

Caríssimo,
Nós, os portugueses, temos uma tendência -- às vezes até doentia -- para lamentar as oportunidades perdidas do passado. Mas continuamos, hoje mesmo, a descorar o muito que ainda temos de bom...
Creio que não exagero se disser que nenhum país do mundo desdenharia perante a possibilidade da língua que ostenta o seu nome ser considerada uma das mais faladas do mundo!
Olhe para a Inglaterra, o que eles ganham pelo facto da sua ser a "lingua franca" por excelência do mundo contemporâneo! Olhe para a Espanha, o que eles se esforçam por integrar continuamente os falarem latino-americanos (ao ponto da Real Academia Española considerar como correctos usos próprios dos hispânicos e que os castelhanos mais puristas sentem repugnância em aceitar...) e como eles se envolvem na expansão do idioma nos Estados Unidos! Olhe para a França, que através da sua política de francofonia, se esforça por travar a decadência do idioma francês, enquanto língua de comunicação transnacional...
E nós o que fazemos?
Permitimos que o nosso idioma tenha, há praticamente um século (a completar no, não muito distante, ano de 2011) duas ortografias oficiais diferentes; temos tendência a considerar o "brasileiro" como um outro falar, necessariamente mais pobre e adulterado; tardamos em definir (em conjunto com o Brasil) uma estratégia global para o ensino do português como língua estrangeira; não nos preocupamos com o facto do francês se expandir na Guiné-Bissau ou o inglês em Moçambique;... contrariando a nossa própria história, parece que queremos até "que a nossa língua continue a reflectir o povo português e não uma mescla multicultural"!!!
Li no Público que há 235 milhões de falantes da nossa língua. Já reparou no enorme mercado cultural que isto representa? Já reparou na notoriedade que Portugal tem, pelo simples facto dos falantes da nossa língua serem 23 vezes e meia o tamanho da nossa população? Já pensou que isso se pode traduzir, também, em benefícios políticos e diplomáticos?
Se a prática do "orgulhosamente sós" vingar, um dia os nossos netos vão lamentar o que estamos hoje a fazer ou, talvez melhor, a não fazer! Da mesma forma que nós hoje achamos que foi uma pena que as riquezas das índias e dos brasís se tenham esfumado e pouco, de duradouro, tenha ficado.
Acha verdadeiramente que é este o caminho mais proveitoso para os portugueses? Eu acho que não. Cumprimentos, Manuel de Sousa 23:20, 9 Julho 2006 (UTC)
P.S. - Só um comentário final sobre as consoantes mudas: as pessoas não escrevem inflacção porque lhes soa melhor (aliás, como saberá, inflação nunca se escreveu com dois "cc"!), escrevem assim por uma "suposta coerência" com outros casos em que, apesar de serem completamente desnecessários, as regras ortográficas impõem que seja acrescentado um "c" ou um "p" lá no meio da palavra. Nada mais. Quanto à ortografia francesa, ela não é exemplo para nós. Era, para a ortografia etimológica que seguíamos antes de 1911. Agora, as ortografias do espanhol ou do italiano são mais próximas da nossa, uma vez que concedem uma preponderância maior à fonética do que o francês ou o inglês.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

jorge de sena e a independencia do Brasil



                                             www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena


Celebrando a data de hoje, dia da Independência do Brasil, o "Ler Jorge de Sena" apresenta uma edição especialmente "brasileira":

- Na seção de ficção, trazemos o conto Homenagem ao Papagaio Verde, acompanhado de sua bibliografia crítica.

- Ainda sobre o conto, apresentamos, na seção JS lido na UFRJ, o belo ensaio de Monica Figueiredo, "Com humana crueldade se tece um conto. A propósito de Homenagem ao Papagaio Verde".

- Entre os estudos de Jorge de Sena sobre a Literatura Brasileira, destacamos a conferência "Os Sertões e a epopeia no século XIX", publicada pela primeira vez em 1963.


No noticiário, divulgamos a presença de Jorge de Sena na Revista Pessoa e nas Tertúlias da Universidade de Coimbra.
 
E, mesmo no feriado, seguimos abertos a colaborações e reafirmamos o lembrete de que o "Ler Jorge de Sena" também está presente no Facebook e no Twitter.  
 
Boa leitura!