Mostrar mensagens com a etiqueta adriano moreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta adriano moreira. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

adriano moreira


As crispações identitárias
por prof. ADRIANO MOREIRA

Sem ignorar a utilização confusa dos conceitos do globalismo, mundialização e identidades, o primeiro visando sobretudo exprimir uma interdependência em estruturação, o segundo cobrindo um consumismo que aproxima as aparências culturais, e o terceiro afirmando o mapa das raízes dos povos, sem estes não é fácil construir um futuro inovador de resposta aos avanços científicos e técnicos da conjuntura. É, todavia, nesta última faceta que cresce a evidência de quanto é difícil e grave de consequências a falha de harmonização das três vertentes.

A crise mundial das finanças e da economia, sobretudo a evidência de que se adensa e alarga a geografia da pobreza, sem grande capacidade científica e técnica demonstrada para combater os efeitos do desastre, está a contribuir para que a crispação identitária tome a dianteira das reacções contra os efeitos sofridos, quer por falhas próprias, quer por consequências das alheias, atingindo não apenas as fortes dependências da globalização sem plano de regência, mas também as atitudes estratégicas das identidades que a história foi moldando e que adoptaram planos racionalizados de convergência e cooperação, como acontece com a União Europeia. Talvez a reacção tenha especial dependência dos efeitos nefastos atribuídos com fundamento à globalização sem governança, o facto de alguns Estados, que tinham consolidado a sua definição antes das guerras mundiais, estarem a enfrentar fracturas preocupantes, como são designadamente os
casos de Espanha, da Bélgica, da Inglaterra, e mesmo com sinais na França da primavera dos povos. Com diferenças que não afectam o perfil dessas afirmações identitárias, analistas destacam agora nacionalismos visando a independência soberana, como foi o caso do Kosovo, dos curdos, dos infelizes palestinos, sem que a pobreza, ou a falha de história da independência procurada, lhes consinta identificar míticas origens que abonariam uma legitimidade com raízes. A semente da revolta fornece um impulso para o recurso à violência em defesa da unidade, se existente, em perigo. Tudo factos que pareciam longe de afectar o movimento de unidade europeia, suficientemente vacinada pelos efeitos das guerras mundiais e pelos anos da Guerra Fria, para não regressar às crispações nacionalistas, de novo tendo em vista as relações saudáveis com os vizinhos de geografia, de cultura e de história política, e não as agressões vindas do exterior,
necessariamente inovadoras quanto aos meios e com efeitos devastadores. Nos países europeus, sobretudo os que se imaginam ricos, e também nos EUA, que começam a sentir que a debilidade os pode atingir, as variações de ânimo nos órgãos de soberania, as oscilações do eleitorado, o afloramento de forças organizadas para intervir, o horror da Noruega, são sinais inequívocos de que a crispação identitária, com perfil nacionalista acentuado, está a inscrever-se visivelmente no panorama das definições políticas, acreditando em futuros mais aceitáveis do que o presente, de carências, dúvidas e perplexidades.

Uma reflexão responsável, que tenha os sinais por avisos a ter em conta, parece exigível aos responsáveis no sentido de evitar que, aos erros que conduziram à angustiante situação presente, sobretudo dos povos europeus já abrangidos pela fronteira da pobreza, venham somar-se os erros derivados de visões que imaginam que um regresso ao modelo passado de soberania absoluta será um remédio eficaz. Pode ser o resultado da falta de saber e imaginação para definir a maneira nova de, em cooperação, salvaguardar a identidade e a igual dignidade num futuro a construir, para o que infelizmente não abundam lideranças manifestas, confiáveis e eficazes. Mas se a defesa das raízes, o aceitar o passado sem benefício de inventário, são condições necessárias para redefinir um futuro de progresso em paz, tudo necessariamente tem de evoluir, num mundo que mudou fisicamente, politicamente, cientificamente, culturalmente: não tem fundamento a
convicção de que o passado tem um caminho de regresso. No caso europeu, o regresso ao passado seria a renúncia definitiva a ter futuro.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1965207&seccao=adriano%20moreira&tag=opini%e3o%20-%20em%20foco


.

__,_._,___

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A língua portuguesa é mestiça, diz Adriano Moreira

A língua portuguesa é mestiça, diz Adriano Moreira

Que a língua tem uma origem, um princípio todos sabemos. Que a língua tem particularidades, influências e transformações também entendemos, então porque não conviver com o seu dinamismo, com a sua mestiçagem?

Foi pela vontade de descobrir os caminhos da terra incógnita, entre outras missões, que a língua portuguesa se expandiu para territórios impensáveis e hoje é a sexta língua mais falada no mundo e também o ponto de partida para a sustentabilidade da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Para o Professor Adriano Moreira, que defende a afirmação do português, a língua portuguesa é mestiça: "Desde as influências ameríndias, às africanas, às alemães no Brasil, por exemplo, às influências que existem em Moçambique, ou em Timor que dorme com o inimigo (Indonésia) e tem a pressão da Austrália, todas elas contribuem para o enriquecimento de qualquer um dos países, mas ao mesmo tempo cabe à CPLP defender a língua portuguesa, instrumento comum dos países que pertencem a este espaço.

O Professor também reconhece tratar-se de uma missão complicada devido aos parcos recursos financeiros da organização. Sendo o Brasil a única economia emergente e nele estão depositadas as esperanças de que seja o país que vai conduzir a liderança do consenso da comunidade, segundo explicou Adriano Moreira.

Que vantagens traz esta mestiçagem?

Se por um lado há o medo, a resistência à mudança, por outro há um horizonte alargado a que a língua portuguesa deve estar aberta. Na semana em que se comemora o dia da língua portuguesa e da cultura da CPLP, Hélder Lucas, Embaixador de Angola junto da CPLP lança o repto: "olhar para a cultura da diversidade como um instrumento para a adversidade".

Apesar da mistura, é cada vez mais evidente a vontade de uma maior simplificação, sem prejuízo de ninguém daquilo que une todos os povos da comunidade. Assim, em 1990 foi ratificado o novo Acordo Ortográfico, que Adriano Moreira defende, lembrando no entanto que nestas situações é melhor fazer Declarações e não Tratados, porque "a língua não é dominável, embora possa ser submissa no plano politico-económico".

Ana Paula Laborinho, antiga presidente do Instituto Camões (IC), realçou a importância de uma maior investigação em torno dos números que demonstram a expansão da língua pelo mundo e também o papel do Instituto, numa comunicação que evidenciava o "valor da língua portuguesa".

Para a professora universitária, há um interesse crescente na aprendizagem do português e também na adopção como segunda língua. Países como o Senegal, China ou República Democrática do Congo têm feito esforços nesse sentido.

Aquilo que nos junta muitas vezes também é o que nos separa, desta feita importa saber o que quer dizer Domingos Simões Pereira, Secretário Executivo da CPLP, por cultura desta comunidade.

"É algo que ainda estamos à procura de definir e identificar, mas no fundo é um encontro onde o português original se deixa influenciar pelas culturas africanas, brasileiras e timorenses".

Se por um lado a miscigenação ajuda-nos a identificar as identidades e a sabermos de onde vimos, por outro ela também contribui para o desenvolvimento da ciência e do conhecimento, como instrumento comum.

"A CPLP pode ajudar para uma maior liberdade na circulação de pessoas e de criação de obras, mas acima de tudo para uma maior abertura às instituições educativas, de saúde ou da cultura. Escolhemos a educação como o mais importante no meio de tudo isto, esse vai ser o nosso foco", explica o Secretário Executivo.

@Mayra Prata Fernandes

http://noticias.sapo.ao/vida/noticias/artigo/1150487.html

http://videos.sapo.pt/5IusZPWYn6SdD52DnFSr