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quarta-feira, 13 de junho de 2012

GALEGO

esta discussão do galego ser português da Galiza, curiosamente é discutida na Galiza e os Portugueses pouco ou nada sabem dessa discussão e se sabem, pouco lhe ligam. De facto na Galiza a discussão está lançada quer a nível de academias quer a nível político e partidário. Assim,  se o Galego (língua) fosse grafado seguindo o Acordo Ortográfico adoptado pela Academia Galega da Língua Portuguesa, que tem adeptos em grupos e partidos políticos nacionalistas galegos, onde até a União Europeia acabou por aceitar o galego como oralmente sendo português nas intervenções de alguns ex-eurodeputados galegos, dizia eu que a ser aceite esse Galego, pouco diferença faria do actual Português. No entanto, a Real Academia Galega apoiada pelos partidos políticos espanhóis como o PSOE e o PP, já defendem outro Galego, o que actualmente é oficial na administração galega, este já com influências do castelhano e com algumas diferenças em relação ao Português actual e ao outro Galego defendido que é quase Português.


Em Português: Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu.

Em Galego grafado de acordo com a Academia Galega da Língua Portuguesa: Nosso Pai que estás no Céu, santificado seja o Teu nome, venha a nós o Teu reino e seja feita a Tua vontade aqui na terra como nos Céus.

 Em Galego oficial segundo a Real Academia Galega: Noso Pai que estás no ceo, santificado sexa o teu nome, veña a nós o teu reino e fágase a tua vontade aqui na terra coma no ceo.

Já agora, para terminar e comparar, veja-se o que é grafado em Espanhol: Padre nuestro que estás en los cielos, santificado sea tu Nombre, venga a nosotros tu reino y hágase tu voluntad en la tierra como en el cielo.

Tirem daqui as Vossas conclusões que eu sobre o assunto não digo mais nada

domingo, 6 de maio de 2012

Ilustrações fonéticas do Português, do Brasileiro (ou Brasiliano) e do Galego, três línguas galego-portuguesas distintas e inconfundíveis, padronizadas e codificadas distintamente


Este é um comentário tirado do mural do facebook do Henrique Monteagudo:


Ilustrações fonéticas do Português, do Brasileiro (ou Brasiliano) e do Galego, três línguas galego-portuguesas distintas e inconfundíveis, padronizadas e codificadas distintamente — Versão 2, corrigida.
[v.2 com correcções sugeridas pelos Doutores F. Venâncio e H. Monteagudo. Note-se que uma simples tabela com uma dúzia de exemplos lexicais ilustraria mais adequada e conclusivamente do que todas as divergências fonéticas juntas a *identidade própria* das três línguas irmãs]
    • António Emiliano ‎Fernando Venâncio, como poderá imaginar a posição que defendo, e que o Eduardo Paiva Raposo implicitamente defendeu no seu pequeno (mas FUNDAMENTAL) artigo de 1984, não é apreciada por estas (e outras) bandas. Não é politicamente correcto afirmar-se e defender-se a “diferença brasileira”, por razões políticas e culturais que convêm aos governos de PT e BR. Mas só o reconhecimento da diferença, da divergência e da autonomia poderá levar ao respeito mútuo.
      Não tenho qualquer simpatia (científica) por quem na Galiza defende que o GL é o PT da Galiza. Historicamente PT e GL são língua irmãs. Historicamente. Têm um antepassado comum que era língua viva de Portugal e da Galiza há uns séculos atrás. Ponto.
      Os problemas de inteligibilidade mútua que existem a nível acrolectal entre PT e GL evaporam-se qdo visitamos zonas raianas ou ouvimos o PT e o GL do país “profundo”. Por seu lado, no que concerne PT vs. BR, os problemas de inteligibilidade mútua, por causa da acentuada e acelerada divergência luso-brasileira, aumentam quando nos afastamos do nível acrolectal e olhamos para as variedades basilectais europeias e americanas, que apresentam espantosa (colossal) diversidade.
      Mas a questão fundamental é ACROLECTAL: estamos neste respeito a falar de LÍNGUAS NACIONAIS, ergo, línguas normalizadas e codificadas. Nesses termos não há, não deve, não pode haver dúvidas: PT≠BR≠GL. Três línguas de pleno direito, com a sua deriva própria.
      Ganharemos todos — falantes das línguas de matriz galego-portuguesa, as quais incluem naturalmente os crioulos de base portuguesa (que não são nem nunca foram dialectos do PT) — quando a identidade linguística e o particularismo linguístico das nossas comunidades for reconhecido sem ambiguidades e tergiversações. Só nesses termos (históricos e culturais) a lusofonia, ou melhor, a GALEGO-LUSOFONIA, poderá ser conceito-base de uma grande comunidade de falantes.
    • Fernando Venâncio Sim, António. O quadro contém agora o essencial e o suficiente. Eu não iria ao ponto de postular 3 línguas, e admitiria 3 subsistemas, claramente marcados, dentro do sistema a que chamei, em comentário, A NOSSA LÍNGUA (designação diferenciadora de sistemas vizinhos), onde se incluem Galego, Português e Brasileiro. Mas mesmo esta versão "leve" será apupada pelas resistências românticas. Prossigamos, porém. Hoje ainda, em distantes tribos ocidentais, lançarei ao vento estas boas-novas. O António não será esquecido.
    • António Emiliano ‎3 sistemas similares, cognatos, mas sujeitos a standardização e codificação distintas em e por comunidades distintas. Logo, 3 línguas nacionais distintas. A distinção entre línguas nunca poderá relevar apenas de critérios estruturais. Mais do que dia-sistema (o hífen é propositado) o GALEGO-PORTUGUÊS de hoje é arqui-sistema muito clivado. IMHO.
    • António Emiliano Nota fonético-fonológica: houve um comentador atento, falante nativo de GL, que criticou, a propósito da 1.ª versão desta tabela (que é um exercício comparativo muito simples e superficial), a manutenção do “grupo culto” CT [kt] nas formas galegas. A crítica tem pertinência. A questão dos grupos cultos é de facto complexa. Do ponto de vista basilectal o GL é neste respeito mais próximo do PT. Não podemos desviar-nos, no entanto, muito do plano acrolectal no qual se alicerça a noção de língua padrão / língua nacional. Apoio-me, no que concerne a representação de grupos cultos no GL, na doutrina normalizadora de linguistas como Regueira, Monteagudo e outros. Regueira abordou esta questão, magistralmente parece-me, em artigo publicado na Homenagem a Tato Plaza (Lorenzo Ed. 2002). V. http://bit.ly/It9tpn
    • José Brito L Bem dito e bem visto.

      Uma crítica a esta representação fonética do galego deveria ser desnecessária, mas:

      1) "Padroniza-se" o thetacismo ("path", não "pas").
      2) "Padronizam-se" todos os grupos cultos, "objecto", etc.
      3) Deixa-se fora a nasalação (mais leve, menos leve) da vogal final [õ] nas formas em "-ão", "questão" ou "questião".
      4) Não sei por que se utiliza o [i] em lugar de [j] nos ditongos decrescentes ['lej.te]. Tal como representado, seria hiato e então a palavra requeriria acento gráfico: "léite". 
      5)  Algum outro erro: "Portugal" tem aproximante velar, não oclusiva velar [g], mesmo, que eu saiba, no norte de Portugal. O mesmo em "devedor" com as aproximantes biliabial e dental.

      Contudo, estes dados fonéticos não provam absolutamente nada a respeito da unidade linguística. São só fonética.

      -celso

      Celso Alvarez Cáccamo

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

HÁ MUITA FOME NO MUNDO....


QUARTA-FEIRA, 15 DE FEVEREIRO DE 2012

Há muita fome no mundo.

Por José Manuel Barbosa
Uma rapariga adolescente fez-me um comentário de sobremesa o outro dia num jantar: “Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro do que fazê-lo pelo galego? Há gente que passa fome no mundo!!
A rapariga, adolescente lúzida e inteligente tapou a minha boca com uma manifestação rotunda e categórica para além de verídica e real perante a minha paixão galeguizadora acrescentada com uns quantos anos de compromisso linguístico. A sua lógica feita com a visão realista das cousas duma nena de 16 anos que começa a ver o mundo tal qual é trouxe-me à realidade.
A sua ideia simples mas impecável levou-me a cavilar toda a tarde e não pôde mais do que dar-lhe a razão finalmente. Pensei que países como Uganda ou Tanzânia, Zimbabué ou Namíbia têm prioridades mais importantes do que desterrarem o inglês dos seus territórios para fazerem das suas múltiplas línguas nativas instrumentos de cultura, comunicação ou criação literária.
É assim como neste caso o inglês se faz a língua mais poderosa do planeta; porque os pobres orçamentos desses países não vão destinados para a normalização do swahili ou o hotentote mas para erradicar a fome, vacinar as populações contra enfermidades que não conhecemos na Europa pelas nossas condições higiénicas e de salubridade ou ensinar a ler às crianças para elas poderem ver um futuro de maior qualidade de vida nos seus países.
Já o dizia Jordi Pujol a respeito do catalão: “O catalão custa dinheiro”. Tinha razão o velho dirigente catalão, como razão tem a rapariga, mas evidentemente Catalunha não é Uganda e a fome como mal social endémico não existe, como também podemos dizer que o seu sistema de saúde é dos melhores da Europa que é como dizer que está entre os melhores do mundo.
 Catalunha pode portanto permitir-se o luxo de investir na sua língua milhões de Euros e fazer com que o catalão seja uma língua de cultura, arte, comunicação e seja aliás elemento gerador de riqueza material ao existir com isso a possibilidade de que haja um mercado linguístico que crie e agilize o movimento económico e enriqueça os catalães.
Por outra parte o Reino da Espanha ingressa aproximadamente um 15% do seu P.I.B. graças ao castelhano por ser esta a língua oficial de 22 países do mundo e um total de mais de 400 milhões de utentes. A política linguística da Espanha a respeito do espanhol é por isso geradora de riqueza material fazendo da língua de Cervantes uma das mais prósperas do mundo do ponto de vista criativo, cultural, artístico e literário mercê a um mercado amplo que lhe dá umas possibilidades importantes a respeito doutras línguas de países com mais poder político e económico.
No que diz respeito da Galiza podemos dizer com total tranquilidade que também não somos Namíbia; também não passamos fomes, nem andaços embora não sejamos tão desenvolvidos como a Catalunha, pois vivemos numa conjuntura económica europeia que nos faz ricos com referência ao contexto mundial embora pobres dentro do contexto europeu.
Para além de todo isto a Galiza tem uma política linguística que pelo menos na teoria -e digo na teoria, porque é isso o que se diz, não entro no que se faz- vai destinada para fazer do galego essa língua de cultura, arte e comunicação que sonharam os nossos grandes galeguistas e que não só fosse usada por razões de voluntarismo patriótico ou fervor nacionalista mas também por gerar riqueza material com o qual a nossa gente se sentisse achegada a ela por algo mais do que por sentimentalismo neo-romântico.

Mas também Galiza não ingressa o 15% do seu P.I.B. pela sua língua, mais bem neste caso tem um índice negativo. A Junta da Galiza perde dinheiro por causa do galego de tal jeito que se as nossas instituições deixassem de investir na língua -ou quiçá fosse melhor dito contra ela- o nosso P.I.B. subiria 2 ou 3 pontos. Essa situação dá asas e argumentos a pequenos coletivos kukuxklánicos que se organizam para atacarem o galego, reivindicarem o direito de ignorá-lo e agirem para que este desapareça do nosso país. Hábil política linguística que não mata mas dá para que morra.
Curiosamente, ou por acaso, o galego é reconhecido por linguistas, filólogos e cientistas como uma das três variantes do sistema linguístico galego-português (galego, português lusitano e brasileiro), falado por quase 320 milhões de pessoas por todo o mundo e os cinco continentes; é oficial em 10 países, co-oficial desde o 2007 na antiga Guiné-Equatorial espanhola, segunda língua de Uruguai e oficial lá desde 2008; segunda língua latina em número de utentes depois do espanhol, por acima do francês, do alemám e do italiano em extensão territorial e humana; terceira língua europeia depois do inglês e do espanhol, quinta do mundo depois do chinês, hindi, inglês e espanhol; língua oficial da ONU, da EU, Mercosul, Unidade Africana... Com um futuro importante por ser o Brasil uma nova potência emergente que faz da CPLP uma organização lusófona atrativa para países, mesmo anglo-saxônicos como a Austrália, que quer entrar nela quebrando com ideias quase racistas surgidas no carpeto-vetonismo histórico no que vivemos.
Com uma política linguística acertada e focada não só para a sua sobrevivência mas também para o seu florescimento, com um bom tratamento filológico e linguístico, adaptando a norma a esta realidade científica, política e geoestratégica tão favorável quiçá não chegaríamos a ingressar o 15% do P.I.B., (ou sim?) mas sim o 8% ou o 10% ou o 6%... com o qual a nossa língua geraria riqueza material para além da cultural.
E digo eu: Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro que em eliminar a nossa língua? Em vez de gerar gastos e perdas por causa dum modelo de normalização que mata e inutiliza a língua dos galegos, fornecendo de argumentos a pequenos grupos muito ideologizados e ultras que trabalham para bani-lo da Galiza, não seria melhor fazermos da língua um autêntico setor económico com um mercado prospero que lhe desse o prestígio que teve em épocas medievais? Porque queremos um galego pequeninho e de aldeia em vez de um grande, internacional e concorrente com as grandes línguas do mundo? Não estamos para deitarmos a casa pola janela. Há muita fome no mundo!!!


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Como o falante galego é visto em Portugal?

Como o falante galego é visto em Portugal?

A esta pergunta de um leitor , Carlos Rocha, responde no Ciberdúvidas da língua portuguesa assim:
 
Há realmente um grande desconhecimento em Portugal acerca das afinidades linguísticas com a Galiza. Perante um falante de galego, é típico um português tentar falar castelhano, muitas vezes porque não reconhece o que ouve como língua ainda muito próxima da que fala a sul do rio Minho. Lembro-me, por exemplo, de que, durante a crise do Prestige no final de 2002, os noticiários portugueses normalmente legendavam as respostas das entrevistas feitas aos habitantes do litoral galego; muitos deles falavam um galego que, apesar da “geada” (troca do "g" por um som parecido com o "jota" castelhano), tinha uma entoação familiar para ouvidos portugueses. Este comportamento dos canais de televisão em Portugal parecia obedecer ao atavismo de considerar castelhano tudo o que se fala para lá da fronteira. Penso ainda que a identidade galega nem sempre é clara para o português médio ou popular. Assim, é curioso que, dialetalmente, nem sempre um
 galego é apenas um habitante da Galiza. Por exemplo, no Alentejo um galego pode ser um natural das Beiras (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa). E suspeito que no Norte e no Centro de Portugal, em algumas regiões que não fazem fronteira com a Galiza, um zamorano, um salmantino ou até um estremenho de Cáceres – não sei se de Badajoz – sejam todos galegos (o que pode ter alguma verdade histórica em casos como os de San Martín de Trevejo, Valverde del Fresno e Eljas). É claro que também acontece que alguns (ou muitos?) portugueses ficam baralhados quando começam a ler o que se escreve a norte do Minho. É como se dissessem: «o que se passa, que os espanhóis andam a escrever num português estranho?» Recordo que há cerca de dez anos se dedicou um excelente número da revista Colóquio Letras (Fundação Calouste Gulbenkian) à cultura galega. Nele, a prof.ª Pilar Vázquez Cuesta abordava
 justamente o desconhecimento com que os portugueses (quase sempre não acadêmicos, mas também há acadêmicos) costumam “brindar” os galegos, quando se trata de falar dos laços comuns. Para esta situação contribui certamente o fato de a História ter dificultado desde muito cedo a descoberta ou o reforço desse elo: quando, com D. Dinis, os documentos notariais portugueses passaram a ser escritos na língua que se desenvolvera no Noroeste da Península e a que historicamente poderíamos chamar galego, o reino de Portugal já existia há mais de um século. Assim, ao querer dar nome ao “galego” que se falava do Minho ao Algarve, esse nome foi muito logicamente português, visto que se estava a designar o idioma do Reino de Portugal e do Algarve. Explica-se, deste modo, que se fale em português antigo, não porque se negue a relação ou mesmo a identificação com o galego, mas talvez porque se pensa que o Condado e, depois, Reino de
 Portugal é que deu consciência idiomática coletiva a uma parte dos dialetos galegos – os que eram falados pelos portugueses. Sobre este assunto, recomendaria uma obra que dedica alguns capítulos ao problema da designação da língua na faixa ocidental da Península: Ramón Mariño Paz, Historia da Lingua Galega, Santiago de Compostela, Sotelo Blanco, 1998.

Carlos Rocha :: 30/06/2006 

http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=18099

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

FRASES FEITAS DO GALEGO

A fraseologia galega coincide em parte com a do português europeu e menos com a do português do Brasil
__________________________________________
ALGUMAS FRASES FEITAS DO GALEGO

Alfredo Maceira Rodríguez

1. INTRODUÇÃO

1.1. O ESTADO DA ARTE

A fraseologia galega coincide em grande parte com a do português europeu e, talvez em menor escala, com a do português do Brasil. É sabido que o português e o galego constituíram durante séculos uma única língua, que, mais tarde, veio a cindir-se mais por injunções políticas que por diferenças histórico-culturais. Por esse motivo e pelo contato de línguas e culturas na Península (portuguesa, galega e espanhola) não é de admirar que o discurso repetido incorporado no patrimônio destas três línguas peninsulares tenha muito em comum.

A fraseologia comum em maior ou menor grau a estas línguas ibéricas está de tal forma inserida em seu inventário lingüístico que muitas vezes não é percebida como tal. O discurso repetido inclui todos os tipos de expressões fixas, que são unidades lingüísticas não substituíveis ou recambiáveis pelas regras da língua atual.i O acervo fraseológico (adágios, máximas, sentenças, ditados e frases feitas em geral) tem origem principalmente nas camadas populares, mas vai gradativamente penetrando nas camadas tidas como elitistas até ser adotado pela língua escrita e registrado nos dicionários.ii O discurso repetido é produzido em todas as épocas, mas boa parte do que já foi incluído na língua ou dialeto dominante, vem de séculos passados. Ele reflete a cultura e o período histórico dos povos que o produziram, embora não se possa dizer que é totalmente original. Assim como as lendas e outras manifestações folclóricas,
encontram-se em diversas culturas, mesmo distantes no tempo e no espaço, frases feitas de vários tipos, muitas vezes com diversas alterações, mas no fundo com a mesma mensagem. Isto implica comunicação oral entre povos desde épocas remotas.

A temática da fraseologia de um povo retrata o homem, suas características, conflitos, modo de vida

e atividades. Como grande parte das frases feitas que chegaram até nós tiveram sua origem na Idade Média, observam-se nelas relações com a agricultura e, em menor grau, com a pesca, possivelmente por haver menos pessoas envolvidas nessa atividade.

De há muito, estudiosos de diversos países têm como objeto de estudo a fraseologia. Ela tem sido abordada de diversas maneiras e com finalidades distintas. Umas vezes como estudo sério, tanto do ponto de vista lingüístico como de outros aspectos culturais: história, folclore, crenças, camadas sociais, etnografia, costumes, etc. Outras vezes sua coleta e publicação só teve por objetivo apontar aspectos curiosos de frases arcaizadas, principalmente as modalidades que têm como característica mais destacada a rima. Não havia muita preocupação com seu estudo sistematizado, porém a análise do discurso repetido é válida porque permite apreender a língua e a cultura de um povo e de uma época fixadas em palavras ou expressões (sintagmas) que permaneceram invariáveis ao longo do tempo.

No Brasil não eram muito comuns as publicações de trabalhos de fraseologia. A maior parte das publicações limitavam-se a recolher a fraseologia oral de uma localidade ou região, geralmente relacionada com lendas, crendices e anedotas do repertório popular. Neste campo vem-se operando uma grande mudança principalmente entre os participantes dos cursos de pós-graduação em Filologia. Interessantes monografias e teses abordando aspectos inéditos da fraseologia brasileira vêm sendo produzidas. Atualmente está em andamento um trabalho de fôlego de recolha, estudo e classificação que tenta abranger tudo o que é possível da fraseologia brasileira. Este trabalho é seguramente o mais abrangente e profundo que se realizou no Brasil. Consta de vários volumes, alguns já terminados, outros bem adiantados, cuja publicação não demorará muito. Este trabalho é da responsabilidade do Prof. José Pereira da Silva, quem escolheu uma equipe de
auxiliares para ajudá-lo a desempenhar tão ampla tarefa. Na certa que será levada a bom termo e preencherá uma grande lacuna na filologia e lexicografia do português.

Na Galiza também está sendo realizado um trabalho semelhante por uma equipe de professores galegos, tendo como objeto de estudo a fraseologia da língua galega.

1.2. O PRESENTE TRABALHO

O que pretendemos apresentar aqui não é mais do que uma pequena amostra de frases feitas do galego. O espaço não nos permite maior amplitude. As frases desta amostra pertencem à língua viva de hoje, usadas na língua oral e escrita, conhecidas e empregadas em todo o domínio do galego. Muitas delas apresentam algumas variantes. Procuramos recolher as que nos pareceram mais divulgadas e mais expressivas. Freqüentemente incluímos também alguma de suas variantes. As frases relacionadas abaixo foram recolhidas no Diccionario Xerais da Língua (1993). Não nos ocupamos com frases originárias da ciência e tecnologia, profissões, etc. Limitamo-nos às de domínio geral, de caráter atemporal. Tampouco consideramos o tipo de frase, rima, mensagem, etc.

Quase todas as expressões fixas que apresentamos dependem de um verbo, que pode flexionar. Também na parte dita fixa pode ocorrer flexão de gênero ou número: Vostede é un botaporela (gabola); vostedes son uns botaporelas. O que não ocorre é a troca dos lexemas que constituem as expressões fixas por outros com o mesmo valor semântico na língua atual. Assim: Vostede é un gabola, não é frase feita. É uma expressão comum da língua galega. A parte fixa pode ser representada por um sintagma (locucional, suboracional, oracional, supra-oracional ou por uma seqüência)iii, que, em muitos casos, pode ser comutado por uma palavra (subtantivo, pronome, adjetivo, advérbio). Exemplos: Se-lo pai da criatura; ti e-lo pai da criatura; el foi o pai da criatura. Ser agudo coma un esquío (esquilo); ti es agudo coma un esquío; eles son agudos coma esquíos. Eles póñense no bico das zocas (zangam-se); ela poñerase no bico das zocas, etc.

O sintagma o pai da criatura pode-se comutar por o culpado, o causador, etc. O mesmo ocorre com agudo coma un esquío = moito esperto, moito vivo, e no bico das zocas = así, desa maneira, etc. A comutação é uma das possibilidades de decodificação das expressões de forma fixa.

Existe também um grande número de frases feitas usadas exclamativamente. Costumam-se empregar isoladas, sem relação com o contexto. Muitas não possuem verbo ou ele também forma parte da frase feita. Colocamo-las num item separado.

1.3. A LÍNGUA

O galego é muito semelhante ao português, por isso nem sempre damos a tradução literal das frases. Quando existe uma frase feita equivalente no português do Brasil, transcrevemo-la. Nos outros casos, oferecemos a tradução que parece denotar melhor seu valor semântico. Palavras que se afastam semanticamente do português do Brasil, esclarecemo-las em nota. Não pretendemos dar nem mesmo um resumo das normas do galego de hoje. Citaremos somente alguns dos aspectos que mais se afastam do português e que devem ajudar.

Algumas diferenças entre o galego e o português:iv

a) As grafias do galego ñ e ll correspondem, respectivamente, às portuguesas nh e lh: baño, palla.

b) Não existem no galego os grafemas do português ç, ss e j, devido à não-equivalência dos fonemas correspondentes: moza, paso, hoxe.

c) A regra de acentuação dos hiatos aproxima-se da norma do espanhol: día, súa, fililoxía.

d) Os pronomes átonos enclíticos não se separam por hífen: Visiteinos onte; démoslle os libros.

e) Os artigos não se ligam foneticamente ao substantivo e sim ao verbo precedente e ligam-se graficamente a ele por hífen, quando terminam em -r ou em -s: Compramo-los coches; mandou face-la casa nova.

f) O pronome indefinido galego un eqüivale em português ao indefinido a gente: Un non sabe que facer; danlle a un o mellor

g) No galego, como no espanhol, existe um fonema africado representado graficamente pelo dígrafo ch (não corresponde ao ch do português). Nos dicionários espanhóis e galegos tem entrada independente (depois da letra c). Seguimos essa ordem na relação que segue.

2. FRASES FEITAS E EXPRESSÕES GALEGAS

2.1. SINTAGMAS RELACIONADOS A UM VERBO:

Abrir

Abrir a porta e a arca. (Receber as pessoas com os braços abertos.)

Non abri-lo bico; pecha-lo bico. ¡Cala-lo bico! (Não falar; fechar a boca. Boca calada!)

Actuar

Actuar por debaixo da corda; baixo corda. (Agir por debaixo dos panos; às escondidas.)

Afogar

Afogarse en pouca auga. (Ver dificuldades em qualquer coisa; por pouco motivo.)

Agarrar

Agarrar alguén polo rabo. (Indica dificuldade para alcançar o que já passou, o que fugiu.)

Andar

Andar a máis; andar a paso de can. (Andar com pressa.)

Andar a mal; andar ás malas. (Dar-se mal com alguém, estar de mal.)

Andar coa lúa. (Estar algo doido; ser lunático.)

Andar coa area na zoca. (Andar com a pulga atrás da orelha; andar desconfiado.)

Andar daquela maneira; andar de mes; andar a mal; andar á mala. (Estar menstruada.)

Andar de cacho para cribo. (Andar de ceca em meca; andar dum lugar para outro sem fazer nada.)

Andar en canelas. (Andar sem meias.)

Andar ó rabo. (Andar atrás.)

Andar sen arrendo. (Viver com inteira liberdade; andar com a rédea solta.).

Andar con pés de manteiga. (Andar com cautela.)

Andar nos bicos dos pés. (Andar nas pontas dos pés.)

Andar cun pé calzo e outro descalzo. (Fazer algo com pressa; ser muito pobre.)

Andar teso; andar teso coma un pao. (Andar muito direito; andar empertigado, com jeito arrogante.)

Andar no conto. (Andar fofocando; interferir em algum assunto.)

Anda o demo na casa. (Diz-se quando na casa há muita confusão ou dissensões.)

Anda o demo ceibov. (Diz-se quando há revoltas ou problemas graves em vários lugares ao mesmo tempo.)

Andar polas mans do demo. (Ir ou andar de mal a pior.)

Andar na boca de alguén. (Ser objeto de comentários maldosos.)

Aí anda o diaño. (Diz-se de um assunto que não se consegue solucionar devido a forças desconhecidas.)

Apelar

Apelar ós pés. (Passar sebo nas canelas; fugir às pressas.)

Aprender

Aprendeu co demo. (Diz-se de quem só tem habilidade para o mal.)

Arrimar (se) (encostar-(se)

Arrimarse ó sol que mais quenta. (Servir ao mais poderoso; ficar do lado do vencedor.)

Atar

Atar moscas polo rabo. (Fazer trabalhos inúteis; fingir que se trabalha.)

Baixar

Baixa-las orellas; agacha-las orellas. (Baixar a crista; agüentar; obedecer; ceder.)

Bater

Bater coas zocas no cu; bater cos pés no cu. (Fugir às pressas.)

Botar

Bota-la língua a pacer; bota-la língua ó sol. (Falar demais; falar o quem não se deve; falar mal dos outros.)

Botar chispas. (Estar furioso.)

Botarse un á auga. (Decidir-se a enfrentar um perigo; atirar-se a algo.)

Botar un xerro de auga fría. (Deixar alguém desenganado de alguma coisa.)

Botar bo pelo; botar pelo novo. (Prosperar financeiramente.)

Botarlle os cans a alguén. (Receber mal alguém.)

Buscar

Buscar cinco pés ó gato. (Tentar a paciência de alguém com risco de irritá-lo.)

Buscar tres pés ó gato. (Empenhar-se em algo impossível.)

Caer (cair)

Caer auga a xerros; caer auga coma quen a emborca; caer auga a Deus dar. (Chover muito; chover a cântaros.)

Caer de pé coma o gato. (Ter muita sorte num empreendimento.)

Caer do burro. (Reconhecer um erro.)

Cagar

Cagar nos pantalóns. (Ter muito medo.)

Calcar

Calcarlle as costelas a alguén; medirlle as costelas. (Bater muito em alguém.)

Cantar

Cantarlle as corenta a alguén. (Dizer-lhe poucas e boas; adverti-lo severamente.)

Coma se cantase un carro. (Entrar por um ouvido e sair pelo outro; como se nada tivesse sido dito.)

Marchar cantando baixiño. (Sair com o rabo entre as pernas; envergonhado; humilhado.)

Casar

Casar por detrás da igrexa; casar por detrás da silveiravi. (Amancebar-se.)

Colgar

Colga-los libros. (Deixar de estudar.)

Coller

Coller auga nun cesto. (Trabalhar inutilmente.)

Coller unha monavii (Pegar uma carraspana; embebedar-se.)

Comer

Comerlle o pan a alguén. (Estar sendo sustentado por alguém.)

Comer alguén a bicosviii. (Beijar alguém repetida e intensamente.)

Comerlle a porca os libros. (Diz-se do mau estudante.)

Poder come-lo pan coa codia. (Já estar restabelecido de uma doença.)

Non comer por non cagar. (Aplica-se a uma pessoa avarenta.)

Coñecer

Coñecer a alguén coma se se parira. (Conhecer as manhas, os maus procedimentos de alguém.)

Coñecer ben a agulla de marear. (Conhecer bem a maneira de comportar-se.)

Contar

Contarlle os pelos a un can. (Perseguir alguém; acusá-lo.)

Poder contarlle a un as costelas. (Estar muito magro.)

Custar

Custarlle a bola un pan. (Custar os olhos da cara; custar mais do que se pensava.)

Chamar

Chamarlle ós pés compañeiros. (Fugir a toda pressa.)

Chegar

Chegar e bica-lo santo. (Conseguir algo só com intentá-lo; sem esforço nem demora.)

Chorar

Chorar ás cuncas; chorar coma unha veiga tallada; chorar os sete chorares. (Chorar muito.)

Chorar coma unha Madalena. (Chorar desconsoladamente.)

Chover

Nunca choveu que non escampara. (Depois da tormenta vem a bonança; tudo tem remédio.)

A este chóvelle. (Diz-se de quem tem pouco juízo; é pouco esperto.)

Xa choveu dende aquela. (Já passou muita água por baixo da ponte; já passou muito tempo.)

Dar

Dar couces contra o aguillón. (Dar murros em ponta de faca; lutar inutilmente.)

Dar ó rabo. (Mostrar-se; exibir-se; pavonear-se.)

Non dar pé con bola. (Não acertar uma; dar-lhe tudo errado a alguém.)

Darlle a alguén polo pao. (Dar razão a alguém, mesmo que não a tenha.)

Derrear

Derrear a alguén a paos. (Deixar alguém meio morto com uma surra.)

Durmir

Durmi-la mona. (Dormir a bebedeira.)

Enganar

Engana-lo demo. (Ser muito astuto.)

Ensinar

Ensina-la orella. (Deixar escapar a intenção interesseira por palavras ditas inadvertidamente.)

Escribir

Escribir cos pés. (Escrever mal.)

Escribir na auga. (Fazer algum trabalho realmente inútil.)

Espertar

Esperta-lo can que dorme. (Empenhar-se em coisas impossíveis.)

Estar

Estar coma unha cabra. (Não estar bem da cabeça.)

Estar de lúa. (Estar meio louco.)

Estar a velas vir. (Estar ocioso.)

Estar de punta en branco. (Estar nos trinques; estar impecável.)

Estar ó cabo do conto. (Estar bem informado sobre o assunto.)

Estar coma o rei nunha cesta. (Ter muito conforto; estar rodeado de comodidades.)

Estar contento coma un cuco (Estar muito contente.)

Estar calado coma na misa. (Estar em silêncio total.)

Estar coma ós cans na misa; facer falta coma os cans na misa. (Ser desnecessário; inconveniente.)

Estaría o demo a cagar. (Diz-se quando uma pessoa mesquinha resolve dar alguma coisa.)

Estar coa auga deicaix boca; estar coa auga ó pescozo (Estar em situação muito apertada.)

Estar con un pé aquí e outro acolá. (Ir num pé e voltar no outro.)

Facer

Facer rabos ás culleres. (Fingir que se trabalha; trabalhar sem interesse.)

Facer chorar as pedras. (Mover a compaixão.)

Facerse a gata morta (Fingir-se humilde)

Face-lo cartox. (Ganhar dinheiro.)

Face-la mona; pinta-la mona. (Querer ser engraçado; ser ridículo.)

Falar

Falar coma un libro aberto. (Falar bem e com clareza.)

Gañar

Non gaña-la auga que bebe. (Diz-se de quem ganha pouco no trabalho.)

Gaña-lo que gañan os cans na misa. (Sair-se mal em alguma coisa; não obter qualquer vantagem.)

Haber

Haber gato encerrado. (Existir um motivo suspeito ou misterioso.)

Hai zocas alleas debaixo da cama. (Já não estamos em família; cuidado com o que se fala.)

Ir Aínda vai a misa no credo.(Ainda fica muito por fazer.)

Ir coma o gato polas ascuas. (Andar com muito cuidado num assunto perigoso.)

Irse da língua. (Não ser capaz de guardar um segredo)

Írselle a alguén o santo ó ceo. (Ficar distraído; esquecer o que se ia fazer ou dizer.)

Ladrar

Ladrarlle á lúa. (Insultar alguém a quem não é afetado pelos insultos.)

Lamber

Lamber os pés a alguén; lamberlle o cu. (Ser muito servil; adulador; puxa-sacos.)

¡Vas lamber unhas! (Vais apanhar; vais levar uma surra.)

Levar

Levar que lamber. (Receber a resposta adequada; receber o troco; ter o que se merece.)

Levarse coma o pan e o leite. (Ser amigos íntimos; dar-se muito bem; ser unha e carne.)

Leva-lo gato á auga .(Conseguir um triunfo em disputa com outros competidores.)

Esa pera rabo leva. (Diz-se da frase que tem segundas intenções.)

Lucir (brilhar, luzir)

Lucirlle o pelo a alguén. (Estar com aparência saudável; estar contente com a marcha de algum negócio.)

Mandar

Mandar alguén a pedir. (Deixar alguém na miséria.)

Meter

Mete-los cans na bouzaxi; mete-las cabras na horta. (Semear a discórdia.)

Meter un chasco a alguén. (Enganar alguém.)

Meter alguén nun puño. (Dominar alguém.)

Mete-la língua na boca; morde-la língua. (Engolir em seco; conter-se e calar quando se é atacado.)

Meterlle os dedos na boca. (Puxar pela língua a alguém; experimentar alguém para saber sua intenção.)

Mete-la pata. (Dar mancada; interferir num assunto de maneira inoportuna.)

Meterlle algo polos ollos a alguén. (Enganar alguém com facilidade.)

Mexar (mijar, urinar)

Mexar por alguén. (Humilhar alguém.)

Mexar polas rocas. (Ser muito idoso.)

Mexar por un e ter que dicir que chove. (Ter que agüentar o que outros querem; ter que dizer amém.)

Mexarse de medo. (Ser muito medroso.)

Mexar fóra do caldeiro; mexar fóra do testo. (Referir-se ao que não vem a propósito na conversa.)

Oír

Oír con orellas xordas. (Fingir que não se ouve porque não convém.)

Xa oíu cantar máis de catro cucos. (Já tem muitos anos, já é muito idoso.)

Pasar

Pasarlle a alguén o sol pola porta. (Deixar escapar uma oportunidade que não volta mais.)

Pedir

Pedi-la lúa. (Pedir o impossível.)

Non pedir pan para o camiño. (Fugir às pressas.)

Pillar (pegar, agarrar, pilhar)

Pillar unha mona. (Pegar uma carraspana; embebedar-se.)

O meu can pillou unha lebre. (Acertar em alguma coisa por puro acaso; só acontece uma vez na vida.)

Poñer (pôr)

Poñer alguén nos cornos da lúa. (Pôr alguém nas nuvens; elogiar alguém em excesso.)

Poñe-los cornos. (Faltar à fidelidade conjugal.)

Poñerse de cornos. (Aborrecer-se; zangar-se.)

Poñer alguén a pan pedir. (Ofender ou maltratar verbalmente alguém.)

Poñer alguén a parir. (Insultar muito alguém, envergonhá-lo.)

Poñerlle a alguén o pao no lombo. (Bater muito em alguém com uma estaca ou pedaço de pau.)

Poñer tódolos santos en procesión; baixar do ceo cantos santos hai. (Blasfemar muito.)

Ninguén lle pon o pé diante. (É muito seguro de si; muito decidido e inteligente.)

Prometer

Promete-la lúa. (Prometer o que não se sabe se se pode cumprir.)

Quecer, quentar

Quecérenlle a alguén as orellas. (Não ter sossego; estar muito preocupado.)

Quecerlle as orellas; quentarlle as orellas a alguén (Bater-lhe; repreendê-lo severamente.)

Quentárselle a boca a alguén. (Falar demasiado sobre algo; não poder calar.)

Quedar (ficar, quedar)

Quedar á altura do betume. (Ficar muito mal moralmente em alguma empreitada; ficar com a cara no chão.)

Quitar (tirar)

Coma se lle quitasen as moasxii. (Como se lhe tirassem os dentes. Diz-se do que se faz à força.)

Quitar a cobra da parede coa man doutro. (Atirar a pedra e esconder a mão.)

Quitar o pelello. (Meter o malho em alguém; difamar; caluniar; criticar mordazmente.)

Quitarlle o pao ó tolo. (Tirar-lhe a alguém o instrumento com que pode causar dano: estaca, arma, etc.)

Quitarlle os bríos a alguén. (Reprimir alguém; contê-lo.)

Quitarlle os fociños a alguén. (Bater muito em alguém.)

Quitarllo das unllasxiii. (Indica o difícil que é tirar o poder das mãos de outrem.)

Non quitar nen poñer rei. (Diz-se de quem não toma decisão nem tem parte num negócio.)

Non quita-las zocasxiv. (Não se incomodar; não dar importância.)

Roer

Roer corda. (Agüentar; sofrer por não poder solucionar um problema.)

Saber

Saber de que pé coxea. (Conhecer-lhe os defeitos, as fraquezas.)

Saír

Saír a tódolos aguillóns. (Ser valente, destemido ao extremo.)

Saír as contas furadas; saír a porca mal capada; sair a galiña choca; sair a pascua na sexta feira; sair a pascua ó venres. (Sair tudo mal; sair tudo ao contrário do que se esperava; dar tudo errado).

Saí-la cadela can. (Ser enganado, iludido.)

Non saír do rabo de alguén. (Não deixar alguém nem a sol nem a sombra; andar colado a alguém.)

Semellar

Semellar unha gata parida. (Diz-se da pessoa fraca e extenuada.)

Ser

Ser agudo coma o pé de un muíño. (Não ser nada esperto; ser bobo; que custa a reagir.)

Ser avogado das silveiras. (Diz-se de quem sem título nem estudos pretende saber de leis.)

Ser coma a virxe do puño. (Ser tacanho, mesquinho.)

Ser coma unha zoca. (Ser bobo; ser retardado; ser uma mala.)

Ser persoa de pouco pelo. (Ser pessoa humilde ou de poucos recursos.)

Ser tres pés para un banco. (Ser três pessoas preguiçosas ou pouco aptas para o esporte.)

Ser coma un cuco. (Ser habilidoso.)

Ser capaz de contarlle os pelos ó demo. (Ser capaz de indagar tudo, com todos os detalhes.)

Ser outro conto. (Ser outra questão.)

É conto calado. (É um assunto onde há algum mistério.)

Non ser unha persoa santa da devoción doutra. (Ser uma pessoa que inspira antipatia ou desconfiança.)

Non ser rei nin Roque. (Indica que determinada pessoa não representa nada no tema em discussão.)

Non ser da mesma corda. (Não ter a mesma opinião.)

Ser unha chispa. (Ser muito experto; ativo.)

Ser cariñento coma un can. (Ser muito carinhoso.)

Ser lixeiro de língua. (Dizer o que primeiro vem à boca, sem pensar.)

Ser irmán de detrás da silveira. (Ser irmão bastardo.)

Ser cu de mal asento. (Diz-se de quem não tem parada em nenhum lugar.)

Ser unha cadela coma un can. (Ser muito ruim.)

Ser corrido coma unha mona. (Ficar envergonhado.)

Ser unha xogada de libro. (Ser uma jogada de mestre.)

Ser un can vello. (Ser uma velha raposa; ser astuto e precavido.)

Ser máis vello que andar a pé. (Ser muito velho; velho e relho; mais velho que a Sé de Braga.)

Ser un carto no cu; termar dos cartos. (Ser unha de fome; ser avarento; segurar o dinheiro; ser tacanho.)

É o libro das corenta follas. (É o baralho.)

Ter

Ter montes e moreas; ter moita terra na Habana. (Expressão irônica sobre quem se gaba de ter muitos bens.)

Ter cara de can. (Ter cara de poucos amigos; ser mal encarado.)

Ter mala uva. (Ter mau gênio.)

Ter palabriñas de santo e unllas de gato. (Ter discurso diferente do procedimento; ser hipócrita.)

Ter mala chispa. (Ter mau gênio.)

Ter unha boa chispa; te-la língua grosa. (Estar bêbado.)

Ter moito rabo. (Ser sonso; ser uma raposa.)

Te-la meigaxv; ter mala pata. (Ter má sorte; ser azarado.)

Ter muito bico. (Ter muita língua; muita lábia; falar demais.)

Non ter que limpar; non ter unha cadela. (Ser muito pobre; não ter um tostão.)

Non as ter todas consigo. (Estar intranqüilo ou temeroso.)

Ter pauto co demo. (Diz-se quando a uma pessoa lhe sai tudo bem.)

Ter pelos un asunto. (Diz-se de um assunto que apresentar dificuldades.)

O demo nunca ten sono. (As desgraças não se acabam.)

Tanto ten; tanto ten azoutar coma no cu dar. (Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.)

Tanto ten Xan coma seu irmán. (Tanto faz um como o outro; nenhum deles é melhor que o outro.)

Tocar

Tocarlle o santo a alguén. (Bater em alguém; dar-lhe uma surra.)

Tomar

Tomar a alguén unha meiga. (Sair-lhe tudo mal a alguém.)

Tomarlle o pelo a alguén. (Fazer gozação; fazer chacota de alguém.)

Traer

Traer rabo unha cousa. (Diz-se de algo que pode causar graves complicações.)

Traer ó conto. (Trazer à baila; citar oportunamente.)

Untar

Untar as uñas a alguén; untar o carro. (Subornar alguém; dar gratificação para obter vantagem.)

Untarlle o lombo a alguém. (Dar-lhe uma forte surra.)

Valer

Valer un conto calado. (Ser algo de muito valor.)

Ver

Verlle as trazas a alguén. (Descobrir-lhe as intenções.)

Verse en calzas pretas. (Estar em apuros.)

Verlle as orellas a alguén (Descobrir-lhe as más intenções)

Verlle as orellas ó lobo. (Estar à beira dum grande perigo.)

Coma quen ve chover. (Não prestar atenção; não ligar; entrar por um ouvido e sair pelo outro.)

Non ver un burro a tres pasos. (Ter vista fraca; não perceber com facilidade.)

Vestir

Vestirse polos pés. (Ser do sexo masculino.)

Vir

Vir co conto de algo. (Vir com o pretexto ou com a desculpa de alguma coisa.)

Vir ó pelo. (Vir a calhar; chegar no momento apropriado.)

2.2. FRASES EXCLAMATIVAS:

¡Acabaramos de parir! (Até que enfim! Diz-se quando finalmente se resolve algo de há muito esperado.)

¡Aí está o conto! (Eis a questão!)

¡Morra o conto! (Acabou-se a história; não se fale mais nisso.)

¡Quen te chora! (Choras de barriga cheia! Aplica-se a quem não tem falta de nada.)

¡Quen te pariu que te arrolexvi! (Quem não te conheça que te compre.)

¡Quita de aí! (Para com isso! Denota incredulidade no que alguém diz.)

¿A santo de que? (Por que motivo? Por quê? Indica desaprovação.)

¡Por tódolos santos! (Pelo amor de Deus! Expressão com que se quer que alguém pare de dizer disparates.)

¡Pídechas o corpo! (Andas procurando briga! Procuras sarna para te coçar.)

¡Naceu un corvo branco! (Ocorreu uma raridade; uma casualidade.)

¡Que me coma o demo! (Juramento com que se reforça a verdade do que se afirma.)

¡Por min, que chova! ¡Xa pode chover! ¡Chova que neve! (Para mim tanto faz; pouco me importa.)

¡Cata que diaño! (¡Claro que sim! ¡Bem o vejo!)

¡Arre demo! (Exclamação que denota surpresa ou assombro.)

¡Inda o diaño ten cara de coello! (Diz-se quando as coisas saem mal.)

¡Meigas fóra! (Expressão de surpresa desagradável quando se supõe que há interferência de bruxas.)

3. CONCLUSÃO

Podemos verificar que, em geral, parte da fraseologia do galego não difere muito da do português. Os verbos que admitem maior número de frases feitas são os que têm grande circulação e que se referem a qualidades e atitudes do ser humano: ser, estar, andar, ter, poñer, quitar, dar, etc. Da mesma forma há lexemas nominais que comparecem com mais freqüência nas frases feitas. No nosso corpus, apesar de reduzido, podemos verificar a ocorrência freqüente de alguns. Entre eles, geralmente com sentido metafórico, observamos os seguintes: can, gato, mona, demo ou diaño, meiga, fociño, uñas ou unllas, rabo, pan, rei, etc.

A maior parte das frases feitas inclui-se na linguagem figurada. Assim, no corpus encontramos figuras pertencentes ao eixo metafórico como metáforas: El é unha chispa; símiles: É unha cadela coma un can; hipérboles: Poñer alguén nos cornos da lúa, etc. A metonímia também comparece em boa parte da frases aqui relacionadas: Hai zocas alleas debaixo da cama; é o libro das corenta follas, etc.

Observando o corpus acima é fácil concluir que, embora o galego seja a língua mais próxima do português, sendo considerado por diversos lingüistas como co-dialeto deste, ao menos na fraseologia notam-se bastantes diferenças, o que prova que tem que ser estudada em separado, embora todos tenhamos muito a lucrar com estudos comparativos, não só na fraseologia como nos demais aspectos lingüísticos. Os grandes trabalhos que estão sendo desenvolvidos no campo da fraseologia irão contribuir muito para o melhor conhecimento das línguas e culturas românicas originárias da Península Ibérica. O campo para estes e outros estudos é muito vasto e esta pequena amostra já nos indica que falta muito por fazer.

4.RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS

4.1. RESUMO

A fraseologia do galego não difere muito da do português. Verbos relacionados com o ser humano, suas características e atividades admitem a maior parte das frases feitas. Há também alguns lexemas muito freqüentes na frases estudadas. Grande parte das frases feitas pertence à linguagem figurada, tanto no eixo da metáfora como no da metonímia. Há no corpus bastantes diferenças entre a fraseologia galega e a portuguesa. É preciso estudar as duas em separado. Trabalhos comparativos serão úteis para todos. Estão sendo realizados trabalhos importantes, mas ainda há muito o que fazer.

4.2. ABSTRACT

The Galician phraseology does not differ so much from that of Portuguese. Verbs related to the human being, his caracteristics and activities admit the majority of idioms. There are also some very frequent lexical items in the studied expressions. A large part of the idioms belongs to figures of speech, as much in the metaphorical axis as in the metonymical one. In the corpus there are enough differences between Galician and Portuguese phraseology. It is necessary study both of them under separate cover. Comparative works will be useful for all. There are being performed important works, but there are still a lot for doing.

5. BIBLIOGRAFIA

CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de lingüística e gramática. 13. ed. Petrópolis, Vozes, 1986.

DICCIONARIO XERAIS da língua. 4. ed. corrix. Vigo: Xerais, 1993.

DICIONÁRIO AURELIO Eletrônico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, /1996/.

NORMAS ORTOGRÁFICAS E MORFOLÓXICAS do idioma galego: Santiago de Compostela: Real Academia Galega / Instituto da Língua Galega, 1982.

SILVA, José Pereira da. As “frases feitas” de João Ribeiro. Rio de Janeiro: UERJ / Faculdade de Letras (mimeo), 1985.

6. NOTAS

i. SILVA, J. Pereira da. As “frases feitas”..., p. 9
ii. XERAIS e AURÉLIO. Passim
iii. CÂMARA, J. Mattoso. Dicionário..., p. 223
iv. NORMAS..., passim
v. ceibo (solto
vi. silveira (silvado, sarçal, tapume de silvas
vii. mona (macaca; fig. bebedeira
viii. bico (beijo, também bico = ponta
ix. deica (até
x. carto (dinheiro, m. us. no plural
xi. bouza (mata, capoeira, capão
xii. moa (dente molar
xiii. unlla, uña (unha
xiv. zoca (espécie de tamanco todo de madeira)
xv. meiga (bruxa)
xvi. arrolar (ninar, arrulhar)

http://www.filologia.org.br/revista/artigo/3(8)39-49.html

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eu, galego do sul

Eu, galego do sul
(jn, 2011-07-11)

Lisboa, no canto do cisne que nos atirou para o buraco negro em que sobrevivemos, persiste em agredir cegamente a cidade onde Portugal foi buscar o nome e a região que foi o seu berço.
Acho que todos nós, pelo menos uma vez na vida, nos interrogámos porque raio é que o bom do D. Afonso Henriques se virou para Sul, e não para o Norte, quando se tratou de dar forma e assegurar o espaço vital ao país que fundou a partir do Condado Portucalense.
Tenho boas razões para desconfiar que seríamos bem mais prósperos e felizes se o fundador e seus sucessores tivessem seguido a direcção indicada pela bússola em vez de terem ido por aí abaixo, de espada em punho, a fazer guerra aos mouros, só se detendo quando chegaram às praias algarvias.
O problema é que, apesar de imensamente sedutora, esta opção era desadequada, talvez até mesmo irrealista, à luz dos equilíbrios políticos da Península em meados do século XII.
A passividade com que o seu primo Afonso VII e a monarquia leonesa [???: galega!] observaram a emancipação do Condado Portucalense [anos antes "emancipara"-se o condado castelhano, cedo reconvertido em reino] deve-se ao facto de Afonso Henriques ter optado por combater o império almorávida, conduzindo os seus exércitos para além do Tejo.
Tivesse o fundador ousado atravessar o rio Minho, em vez de fazer guerra aos muçulmanos, e a realidade política da Península Ibérica seria hoje radicalmente diferente.
Por muito que nos custe, esse pecado original a que o nosso primeiro rei foi impelido deve-se a um pragmatismo que não lhe podemos censurar.
Hoje, quase nove séculos volvidos sobre o seu nascimento, Portugal combina uma invejável unidade linguística e as fronteiras mais estáveis e antigas da Europa com uma enorme diversidade de culturas, caracteres e paisagens.
Não é preciso ser antropólogo (basta ter olhos na cara) para constatar que um minhoto é muito parecido com um galego - e muito diferente de um alentejano ou algarvio. E não é preciso ser um geógrafo para observar, à vista desarmada, que a serra dos Candeeiros é a fronteira que cose dois países diferentes unidos há séculos pela política mas separados pela geografia e costumes.
Ignorante da história e da realidade do país que a sustenta, Lisboa, no canto do cisne do centralismo que nos atirou para o buraco negro em que sobrevivemos, persiste em agredir cegamente a cidade onde Portugal foi buscar o nome e região que foi o seu berço.
Quando se trata de portajar as Scuts, não começa pela mais antigas - mas pelas do Norte. E quando se trata de pôr em prática o criminoso plano de liquidação da rede ferroviária, começa por fechar a ligação Porto-Vigo - enquanto reabilita a linha das Vendas Novas.
É nestes momentos de revoltas, cada vez mais frequentes, que questiono a opção geográfica de Afonso Henriques - e me sinto mais um galego do sul do que um português do Norte.