quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Português excluído com a cumplicidade do Governo
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Os três círculos da lusofonia * Fernando Cristóvão**
Os três círculos da lusofonia * Fernando Cristóvão** Situa-se a lusofonia na convergência de várias dinâmicas que a História lusa tem despertado ao longo dos séculos: a das utopias de Vieira, Sílvio Romero, Pessoa, Agostinho da Silva e muitos outros, e a dos factos e situações criadas a partir da colonização portuguesa e das opções livres partilhadas pelos novos países que reafirmaram a língua portuguesa como sua língua materna, oficial ou segunda. Actualmente, oito países independentes dialogam em português e o usam como língua materna, língua de comunicação internacional, língua de ciência, cultura, ensino, religião: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor. Na construção de uma utopia de Quinto Império, arquétipo mítico da Lusofonia, Vieira imaginou um império de carácter religioso e universal, como o descreveu visionariamente na História do Futuro: «É conclusão, e de fé, que este Quinto Império de que falamos, anunciado e prometido pelos profetas, é o Império de Cristo e dos cristãos (…) contudo, a sentença comum dos santos e recebida e seguida como certa por todos os expositores é que (…) é Império da Terra e na Terra (…) espiritual no governo, espiritual no uso, nas expressões e no exercício (…) Em qualquer tempo futuro será sempre espiritual.»1 Fortemente inspirado naquele a quem apelidava de “Imperador da Língua Portuguesa”, Pessoa entendeu o Quinto Império não como religioso mas como cultural, uma Pátria, na expressão do heterónimo Bernardo Soares, em que a língua portuguesa seria o cimento da união de vários povos, pois outro sentido não tem o seu “atlantismo”: «Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, contêm, por sistema, uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam. «(…) Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa, (…) Condições imediatas do Império da Cultura é uma língua apta para isso, rica, gramaticalmente completa, fortemente nacional.»2 Língua esta desse Império e dessa Pátria que claramente Pessoa explicou ser a língua portuguesa. Entre os “papéis” da famosa arca dos textos manuscritos de Pessoa, uma das investigadoras da sua obra declara ter encontrado «o plano de um tratado para a defesa e ilustração da Língua Portuguesa», que seria formado por duas partes distintas, uma ortográfica e prosódica, e a outra sobre a sintaxe dos verbos, pois o seu objectivo era «a fixação dos meios materiais do Império.»3 Bem antes de Pessoa, em 1902, e apesar do ambiente antilusista que se vivia então no Brasil, olhando a realidade europeia e mundial com alguma preocupação, o brasileiro Sílvio Romero preconizou que, na base da língua e tradições portuguesas que são raízes do Brasil, e inspirado no exemplo inglês, se organizasse um bloco linguístico, político e cultural. E o seu objectivo seria obstar, à recolonização de potências imperialistas e racistas europeias, inspirada na Conferência de Berlim de 1884. «Uma das ideias mais ousadas, atribuída, creio que a Cecil Rodhes, é a de uma imensa federação de gentes que falam a língua inglesa, e é verdadeiramente um pensamento genial. «(…) Sim, meus senhores: Não é isto uma utopia, nem é um sonho a aliança do Brasil e Portugal, como não será um delírio ver no futuro o Império Português de África unido ao Império Português da América, estimulado pelo espírito da pequena terra de Europa que foi berço de ambos.»4 E, insistindo no papel aglutinador desempenhado pela língua, relembra que Portugal ««que transplantou para aqui a nossa língua (...) teve o intuito superior de aliar-se às raças que encontrou no país, consideradas por ele fundamentalmente coloboradoras e amigas, e às quais, dando-lhes a língua, equiparou a si (...). «Bastaria o facto extraordinário, único, inapreciável, transcendente da língua para marcar ao português o lugar que ele ocupa em nossa vida (…) Ela só por si, na era presente, serve para individualizar a nacionalidade.»5 Agostinho da Silva visionou, por entre sonhos e metáforas, um Quinto Império sob a égide do Espírito Santo, inspirado tanto nas teorias de Joaquim de Floris, como no culto do Divino praticando nos Açores e outras partes do mundo. Caracterizava-se esse reinado pela construção de uma nova sociedade baseada na inocência, de que as crianças são modelo, na partilha dos bens como na das «sopas do Divino», e na liberdade que destruísse todas as prisões. «Com esta religião do Espírito Santo, e nada mostra melhor o eclipse do espírito português do que ter sido ela relegada a uma espécie de curiosidade folclórica, quando representa o essencial da nossa vivência religiosa, ainda se mostrava que se não esquecera aquela palavra do Evangelho que manda tomar por modelo de vida santa a humildade, a fragilidade, a generosa alegria, a capacidade de imaginação, o gosto do jogo e a inocência dos meninos. E chamo inocência à capacidade que eles têm de não separarem seu corpo da sua alma, mas de os viverem num conjunto de espírito. «(…) Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do Império (…), este Quinto Império de que falamos, o Império do Espírito Santo. «(…) Deveremos promover uma cultura geral pluriforme, em que estejam nítidas, bem marcadas, todas as especificidades de cada uma das culturas dos diferentes países, e dentro desses países, as culturas das suas religiões, e dentro das religiões as culturas individuais de cada homem.»6 Não admira, pois, que, tendo absorvido esta ambiência utópica, o linguista brasileiro Sílvio Elia construa o conceito arquetípico da “Lusitânia” como outro nome da Lusofonia mapeando esse grande espaço linguístico-cultural desta forma: Lusitânia Antiga (Portugal), Lusitânia Nova (Brasil), Lusitânia Novíssima (países africanos lusófonos), Lusitânia Perdida (antigos territórios como Goa, Macau, emtrepostos vários na Ásia e África)7, a que deveríamos agora acrescentar Timor como integrante da “Lusitânia Novíssima”. Tem sido neste fundo cultural, simultaneamente místico e pragmático, que a teoria e a prática da Lusofonia se vem construindo, com avanços e recuos, vitórias e derrotas, mas sempre em progressão. Porque a Lusofonia não é só a soma de territórios e populações ligados pela língua. É também um certo património de ideias, sentimentos, monumentos e documentação. Num universo populacional que ultrapassa os duzentos e dez milhões de pessoas, nem é possível nem desejável que uma homogeneização de pensamento e acção se estabeleça, mas tão-somente a tomada de consciência progressiva de muita coisa que une os oito países, na língua, nas tradições históricas e culturais, na religião, numa certa forma de relacionamento humano, afinidades que o passado nos legou, a língua comum facilita, e a vontade dos povos pode fazer avançar, marcando a diferença e o contraste com as características de outros grupos de povos de outras fonias. Porque a Lusofonia está em construção há quem deseje consolidá-la, e quem lhe seja hostil. Há quem a olhe sob “suspeita” de uma “invenção meta-histórica”, como um sucedâneo neocolonialista do império colonial perdido. Há quem veja a língua como pátria, no sentido de uma realização pessoal, ignorando ou esquecendo o muito que Pessoa escreveu sobre ela, como fundamento do Quinto Império. Há os que, alérgicos à francofonia, a receiam como modelo... Mas há os que acreditam nela e a constroem todos os dias, não só na descoberta do património linguístico e cultural comum e anexo, mas sobretudo na multiplicação de laços entre as instituições e grupos profissionais dos oito, em acções de cooperação, na valorização dos afectos. Em consonância com tudo isto, uma realidade funcional é incontestável: os oito países usam e enriquecem com as suas variedades a língua comum de diálogo, e querem ir mais além, em função do tempo e das oportunidades. Quem pode, por isso, sem preconceitos ou má-fé, negar a existência da lusofonia? Na sua construção, algumas realidades começam a tornar-se especialmente visíveis como caminhos a confirmar, aquilo a que chamaremos os “três círculos da lusofonia”. O primeiro círculo, nuclear dos três concêntricos, é o das oito nações lusófonas independentes, e das regiões que, pertencendo a outros Estados independentes, também se consideram lusófonas, sem prejuízo da sua outra identidade e fidelidade nacionais: Galiza, Goa e outros pequenos territórios da Índia, Macau, Casamansa... Se a língua é o elemento aglutinador de pessoas, instituições e nações, e se não se preconiza a existência de uma só cultura e língua, pois são múltiplas as culturas e línguas até dentro de várias das nações lusófonas, há que reconhecer que o principal elo de ligação entre as oito é a língua que lhes é mais comum, a portuguesa. E que ela, não só não é substitutiva das outras línguas nacionais ou regionais, mas com elas convive, pois todas têm funções específicas diferentes. Aliás, uma coisa é a “língua de cultura” comum a toda a Lusofonia, e outras as diversas variantes e normas cultas dos vários países. Com a autoridade que todos lhes reconhecem, Edgar Renault, Celso Cunha, Celso Luft e outros redigiram, em 1986, umas “directrizes” para todos os professores de Português no Brasil, em que recomendavam, entre outas coisas, um entendimento correcto do que se devia entender por “língua de cultura”, e as suas relações com “norma culta” e “língua culta”. «A emergência de variedades linguísticas postulou a existência de duas ou mais normas cultas dentro de uma mesma língua de cultura. É o que ocorre com o nosso idioma no Brasil, em Portugal, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe. O conceito de língua culta, conexo ao de norma culta não coincide, pois, com o de língua de cultura. As línguas de cultura oferecem uma feição universalista aos seus milhões de usuários, cada um dos quais pode preservar, ao mesmo tempo, usos nacionais, locais, regionais, sectoriais, profissionais.»8 Celso Cunha adiantava ainda, em opúsculo especial: «Essa república do português não tem uma capital demarcada. Não está em Lisboa, nem em Coimbra; não está em Brasília, nem no Rio de Janeiro. A capital da língua portuguesa está onde estiver o meridiano da cultura.»9 As oito nações lusófonas só têm a ganhar em pertencerem a esta “República” ou “Império”, quer pelos diversos tipos de diálogo e iniciativa que estabelecem entre elas, quer por melhor poderem resistir às invasões de outros grupos linguísticos de ambições hegemónicas que, agora, são, sobretudo, de carácter comercial e cultural mas poderão voltar a transformar-se em projectos de dominância territorial. A resistência principal é ao inglês, mas o chamado “internautês” pode representar alguma preocupação a ter em conta. É neste grande círculo que se joga o futuro da lusofonia. É nele que se situa a “Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa” (CPLP), criada em 1996, que tarda em impor-se na cena internacional. Não só por circunstância da instabilidade organizativa dos países de África, propondo outras fidelidades estritamente africanas, ou mais vastas de natureza económica, como a do Commonwelth, mas também por ter cometido o gesto precipitado de não ter antes posto a funcionar o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, IILP, criado no papel em 1989. Sendo este instituto o da formação e defesa da língua e da cultura, a sua acção poderia contribuir em muito para estimular a base de apoio popular e institucional da sociedade civil que facilitaria os passos seguintes de iniciativas políticas e económicas. O segundo círculo concêntrico deste, que envolve o primeiro, é constituído pelas outras línguas e culturas de cada um dos oito países em que, naturalmente, se estabelece o diálogo e colaboração entre a língua e a cultura comuns e as outras línguas e culturas do país, com vista a estimulá-las e protegê-las, tanto nacionalmente, como internacionalmente. Porque nem a língua de comunicação internacional prejudica as línguas locais, nem estas aquela, pois todas têm o seu espaço e funções próprias, e não é admissível, hoje, o imperialismo linguístico de uma língua dentro de um mesmo território, reprimindo ou enfraquecendo as outras. Entendemos que nas funções do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que melhor se chamaria “Instituto Internacional Lusófono”, está a de apoiar a valorização das outras línguas do país, a sua escolarização, edição, etc. Até porque se não for a “língua de cultura” internacional a proteger as línguas regionais ou locais, em pouco tempo elas desaparecerão, por acção desse grande agente descaracterizador cultural que é a globalização. O terceiro círculo da lusofonia, também concêntrico, e o mais amplo, é formado pelas instituições, pessoas e grupos alheios aos países lusófonos mas que mantêm com a nossa língua comum e com as culturas e literaturas lusófonas um diálogo de erudição, de amizade, de simpatia, de interesses vários. É integrado por professores e alunos dos ensinos universitário, politécnico, secundário, por familiares e conviventes de emigrantes, empresários, religiosos, eruditos, técnicos... São milhares de pessoas de uma qualificação especial, de outros povos, línguas e culturas que se interessam por nós. Estão estes lusófonos especiais, ou lusófilos, em situação de algum dinamismo social e intelectual, em condições de intensificarem o intercâmbio entre os nossos países e os seus, de outras línguas e culturas, por isso, há que encorajá-los. E fazem-no divulgando em suas terras ideias e realizações lusófonas, e entre nós, ideias e realizações suas, dando-nos a conhecer melhor as suas culturas. Intercâmbios estes que se podem traduzir, se estimulados, em acções de cooperação económica, social, turística, técnica. Reconhecer a existência deste terceiro círculo como o de um conjunto de instituições e pessoas abertas à lusofonia devia levar também as instituições lusófonas a uma política de aproximação que não se traduzisse só em reconhecer e premiar os seus méritos mas sobretudo em promover, nos cursos de verão das universidades, programas especiais de interdependência. E para esta tarefa deviam ser especialmente motivadas algumas empresas que cooperam com empresas desses países e, muito em especial, a indústria turística. Conhece a lusofonia avanços e recuos, mas estamos em crer que a sua dinâmica interna irá construindo pacientemente um futuro de solidariedade. 1 História do Futuro, do Padre António Vieira, in Obras Escolhidas, Sá da Costa, Lisboa, 1953, pp. 39, 48, 56 2 Fernando Pessoa, in Sobre Portugal, de Joel Serrão, Lisboa, Tipografia C. Nacional Editora. 1902, p. 11 3 Pessoa Inédito de Teresa Rita Lopes, Livros Horizonte, Lisboa, 1993, p. 240 4 O Elemento Português, de Sílvio Romero, Tipografia C. Nacional Editora, Lisboa, 1902, p. 11 5 Sílvio Romero, ibidem, pp. 12-14 6 Disperso, de Agostinho da Silva, Icalp, Lisboa, 1988, pp. 195, 123 7 A Língua Portuguesa no Mundo, de Sílvio Elia, Ática, S. Paulo, 1989, pp. 16, 17 8 Directrizes para o Aperfeiçoamento do Ensino/Aprendizagem da Língua Portuguesa, de Edgar Renault e Outros, Ministério da Educação, Brasília, 1986, pp. 5, 6 9 Uma Política do Idioma, de Celso Cunha, S. José, Rio, 1964, p. 38 * texto publicado originalmente na revista "Humanidades", Lisboa, Setembro de 2002 ** Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, membro da Academia das Ciências de Lisboa, presidente da Associação de Cultura Lusófona (ACLUS). 2003-04-16
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Egipto ou Egito
| Língua Como se escreve? Egipto ou Egito |
| No âmbito do meu trabalho surgiu-me uma dúvida na aplicação do Novo Acordo Ortográfico. Agradecia que me ajudassem. Segundo as regras a palavra “Egipto” deveria manter-se como tal pois o “p” sempre se leu, correto? A minha dúvida é que há vários meios de comunicação a falar “Egito” mas depois mantêm palavras com “Egípcios”, etc. Outra possibilidade é que na palavra em questão seja aceite a dupla grafia, mas mesmo assim seria o mais correto mantermos o “Egipto”, não? |
|
A alínea b) da Base IV do Acordo Ortográfico de 1990 refere explicitamente o topónimo Egipto como uma das palavras em que o p se elimina porque “o c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt” se eliminam “nos casos em que são invariavelmente mudos nas pronúncias cultas da língua: ação, acionar, afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção; adoção, adotar, batizar, Egito, ótimo” (o destaque é nosso).
Assim sendo, Egipto deverá passar a ser grafado Egito, porque o Acordo Ortográfico considera que o p dessa palavra nunca se pronuncia, ainda que seja notória a oscilação entre a pronúncia e o emudecimento dessa letra entre os falantes do português europeu. Uma vez que o p de egípcio e das suas flexões (egípcios, egípcia, egípcias) é sempre pronunciado, nestes casos não há alteração de grafia, ainda que possa parecer que se institui uma contradição entre a grafia do nome do país (Egito) e a do seu gentílico (egípcio).
A "Nota Explicativa" (ponto 4.3 – Incongruências aparentes) relativa à Base IV tenta justificar a divergência ortográfica entre estas palavras, afirmando que “a aplicação do princípio, baseado no critério da pronúncia, de que as consoantes c e p em certas sequências consonânticas se suprimem, quando não articuladas, conduz a algumas incongruências aparentes [...] De facto, baseando-se a conservação ou supressão daquelas consoantes no critério da pronúncia, o que não faria sentido era mantê-las, em certos casos, por razões de parentesco lexical”. |
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates
Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates
sábado, 5 de fevereiro de 2011
OS NOVOS ARES DA CRIOULIDADE
OS NOVOS ARES DA CRIOULIDADE O contador de histórias africanas também existe no Brasil.As Congadas, tão tradicionais entre os afrodescendentes, tem tudo a ver com as memórias destes. O estudo PALAVRAS AO VENTO: OS NOVOS ARES DA CRIOULIDADE DIANTE DO TURBILHÃO DA NEGRITUDE, de Miriam de Andrade Levy, nos leva a fazer paralelos com a cultura brasileira. Um excelente tema para reflexão! Observa Miriam de Andrade Levy que os anos de escravidão, de subserviência, de humilhação impediam que o negro, antilhano ou africano, se erguesse. A única voz contrária a este sentimento de inferioridade era a do contador crioulo. Este, ao transmitir a palavra do griot africano, o contador de estórias tradicional, apresentava uma forma de resistência ao processo de colonização. Na sociedade ocidental, a luz é uma metáfora recorrente para a razão e para o pensamento lógico. Ralph Ludwig observa que esta imagem é instaurada no Iluminismo, que com seu pensamento analítico procura dissipar as trevas da ignorância (1994, p.18). Expressões como “à luz de”, “clareza”, “elucidar”, “esclarecer” demonstram como este ideal é valorizado. O que podemos pensar de uma literatura da noite, uma estética permeada de obscuridade? Assim se designa a literatura contemporânea antilhana, como La Parole de Nuit. Esta remonta às fogueiras tradicionais, diante das quais os homens se reuniam para ouvir a palavra do contador de estórias (o griot). Neste ambiente mítico, a memória dos antepassados é relembrada, as adivinhas e cantos são proferidos e a sabedoria ancestral é transmitida. A noite, mesmo na visão ocidental, constitui o universo do prazer, quando as obrigações cessam e dão lugar ao descanso e ao lazer. Este momento corresponde ao que Mikhaïl Bakhtin descreve como “tempo alegre” para definir as festas medievais, que se opõem ao “tempo do trabalho” (1987, p.191 Nas Antilhas, durante o período colonial, a oposição ficava ainda mais nítida quando “o tempo alegre” se opunha à jornada de trabalho nos engenhos. Aos negros só restava a noite para escutar o griot, longe da fiscalização e das exigências dos senhores. De acordo com Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, este teria surgido entre os séculos XVII e XVIII, nas seguintes condições: A casa grande, após o jantar iluminado, apaga-se subitamente. Os cães, feitores e capatazes estão mergulhados no reino dos sonhos. [...] Na senzala, um grupo de escravos se reúne embaixo de uma grande árvore. Eles esperam. Aproxima-se outro negro de bengala, com idade avançada, com semblante discreto, tão insignificante, se não mais, que qualquer um deles. Sob suas pálpebras, nenhuma insolência. De dia, ele vive o temor, a revolta engolida. Mas à noite uma força obscura o habita. [...] De insignificante ele se ergue como o centro da senzala, o mestre da dinâmica dos contos, adivinhas, provérbios, cantigas que ele transforma em literatura, ou mais exatamente, em oralitura18. Receptáculo, transmissor ou propagador de uma leitura coletiva do mundo, eis o nosso contador crioulo. (1999, pp.72 e 73). texto adaptado de http://www.letras.ufrj.br/pgneolatinas/media/bancoteses/miriamdandradelvymestrado.pdf Margarida Castro 05.02.11 |
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
E se todas as línguas fossem consideradas crioulas?
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
A HERANÇA DA LÍNGUA PORTUGUESA NO ORIENTE
|
ÁSIA PORTUGUÊSA
Escrito por Marco Ramerini Tradução feita por Márcia Siqueira de Carvalho A língua portuguesa foi, nos séculos XVI, XVII e XVII , a língua dos negócios nas costas do Oceanos Índico, em função da expansão colonial e comercial portuguesa. O português foi usado, naquela época, não somente nas cidades asiáticas conquistadas pelos portugueses, mas também por muitos governantes locais nos seus contatos com outros estrangeiros poderosos (holandeses, ingleses, dinamarqueses, etc). No Ceilão, por exemplo, o português foi usado para todos os contatos entre os europeus e a população nativa; vários reis do Ceilão falavam fluentemente esta língua e nomes portugueses eram comuns na nobreza. Quando os holandeses ocuparam a costa do Ceilão, principalmente sob as ordens de Van Goens, eles tomaram medidas para parar o uso da língua portuguesa. Porém, ele estava tão entranhado entre os habitantes do Ceilão que até mesmo as famílias dos burgueses holandeses começaram a usar a língua portuguesa. Em 1704, o governador Cornelius Jan Simonsz falava que : "se você fala português no Ceilão, você é entendido em todo lugar". Também na cidade de Batávia, capital da Holanda Oriental (atual Jakarta), o português foi a língua falada nos séculos XVII e XVIII.
O que restou hoje é muito pouco. Entretanto é interessante notar que, neste sentido, existem pequenas comunidades de pessoas espalhadas por toda a Ásia que continuam a usar o "creoule" português, embora não tenham mais contatos com Portugal, em alguns casos, durante séculos. Outro aspecto interessante é que durante o período mais importante da presença portuguesa na Ásia, não havia mais do que 12.000 a 14.000 portugueses, incluindo os religiosos. AS COMUNIDADES QUE FALAM PORTUGUÊS ATUALMENTE: Malacca, Malásia: (Portuguese Settlement, Praya Lane, Bandara Hilir). Cerca de 1000 pessoas falam esta espécie de "creole" (Papia Kristang). Cerca de 80 % dos antigos habitantes da colonia portuguesa em Malacca falam Kristang, que também é falado atualmente em Singapora e Kuala Lumpur. Kristang é muito parecido com o malaio local na sua estrutura gramatical, mas 95% do seu vocabulário deriva do português. Não muito tempo tempo atrás o português também era falado em Pulau Tikus (Penang) mas agora é considerado extinto. A comunidade eurasiana tem 12.000 membros na Peninsula Malaia. Activo é MPEA (Malacca Portuguese Eurasian Association) e SPEMA (Secretariat of the Portuguese/Eurasian Malaysian Associations) com 7 associações dos seus membros em Alor Star, Penang, Perak, Malacca (MPEA), Kuala Lumpur, Seremban e Johor Baru. Ha também em Singapura uma associaçao Eurasiatica. Malaca se separou do domínio português em 1641. Korlai, Índia: (perto de Chaul). Cerca de 900 pessoas falam o creole português e esta comunidade tem a sua igreja chamada: "Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo" Chaul se separou do domínio português em 1740. Damão, Índia: (Damão Grande ou Praça, Campo dos Remédios, Jumprim, Damão da Cima). Cerca de 2000 pessoas falam esta espécie de Creole Português. Damão se separou do domínio português em Dezembro de 1961. Ceilão (Sri Lanka): [Burgueses Portugueses em Batticaloa (Koolavaddy, Mamangam, Uppodai, Dutch Bar, Akkaraipattu); Trincomalee (Palayuttu); comunidades Kaffir de Mannar e Puttalam ]. Atualmente é apenas usado entre as 250 famílias em suas casas em Batticaloa até 1984. Muitos emigraram para a Austrália. Ainda há 100 famílias em Batticaloa e Trincomalee e cerca de 80 famílias Afro-Sinhalese (Kaffir) em Puttalam. Quase extinta. Em Batticaloa existe o Clube de Recreio"Shamrock" or "Batticaloa Catholic Burgher Union". Ha uma pequena comunidade de descendentes portugues na aldeia de WahaKotte (circa 7°42'N. - 80°36'E) (Centro do Sri Lanka, seis quilometros de Galewala estrada entre Galewala e Matale), eles são Catolicos Romanos, mas são acerca de dois geracão que Creole Português não é falado. Ceilão se separou do domínio português em 1658. Macau: Cerca de 2.000 pessoas fala o português como sua primeira língua, e perto de 11.500 como sua segunda língua. Apenas poucas mulheres idosas falam o Macauense um Creole Macau-Português. O "Instituto Cultural de Macau" e a "Fundação do Oriente" estão funcionando. Existe também um canal de TV e vários jornais voltados inteiramente para o português. Macau em 20 de Dezembro de 1999 voltou a fazer parte da China. Hong Kong: Centenas de pessoas falam o MACAUENSE. Quase todas são emigrantes de Macau. Nunca foi colonia portuguesa. Goa, Índia: O idioma português está desaparecendo rapidamente de Goa. Atualmente ele é falado por um pequeno setor das famílias mais abastadas e apenas 3 a 5 % da populaçãio continua falando-o (estima-se de 30.000 a 50.000 pessoas). Atualmente 35% da população de Goa são imigraantes de outros estados indianos. Nas escolas da Índia ele é ensinado como a terceira língua (não obrigatória). Existe um departamento de Português na Universidade de Goa, mas a "Fundação do Oriente" e a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa ainda estão em funcionamento. O último jornal em língua protuguesa foi publicado na década de 80. Em Panaji muitos cartazes em português ainda são visíveis em lojas, edifícios públicos, etc. Goa se separou do domínio português em Dezembro de 1961. Diu, Índia: Aqui o idioma creole protuguês está quase extinto. Diu se separou do domínio português em Dezembro de 1961. Timor Leste: Os que falavam o português em 1950 não ultrapassavam a 10.000 pessoas e em 1974 apenas 10% a 20% da população. Em 1975: O Timor Leste tinha 700 000 habitantes dos quais : 35 a 70 000 sabiam ler e escrever em português e 100 a 140 000 podiam falar e entender esta língua. Até1981, o português foi a língua da Igreja de Timor, quando foi substituído pelo Tetum. Entretanto ele é comumente usado como idioma de negócios na cidade de Dili. O português permaneceu como a língua da resistência anti-Indonésia e de comunicação externa da Igreja Católica. O português criole de Timor (Português de Bidau) hoje está praticamente extinto. Ele é falado próximo a Dili, Lifau e Bidau. Indonesia invadiu o Timor Leste em 1975. Entretanto, nenhuma nação reconheceu esta anexação militar. Timor Leste tornou-se um estado independente, 20 de maio de 2002. A lingua oficial de Timor-Leste está o português. Flores, Indonésia: (Larantuka, Sikka) Aqui o português sobrevive nas tradições religiosas e na comunidadeTopasses (os descendentes dos homens portugueses com as mulheres nativas) utilizam-no nas suas preces. Aos sábados, as mulheres de Larantuka rezam o rosário numa forma corrompida de português. Na área de Sikka, no Leste de Flores, muitas pessoas são descendentes de portugueses e ainda (???) usam esta língua. Existe uma Confraria chamada de "Reinja Rosari". Portugal retirou-se em 1859. ATÉ POUCOS ANOS ATRÁS, COMUNIDADES QUE FALAVAM O PORTUGUÊS EXISTIAM EM: Ceilão (Sri Lanka): (O Creole Português era falado pela comunidade burguesa holandesa ) Até o início do século XX, o creole português era falado pelos membros desta comunidade. Até depois da Segunda Guerra Mundial, os católicos do Sri Lanka, em Colombo se reuniam nas missas faladas em português (como a igreja de Santo Antônio, em Dematagoda). Após a segunda metade deste século, parte destes católicos tão antigos começaram a freqüentar missas em grupos cada vez menores nas igrejas católicas na cidade (Dematagoda, Hulftsdorp, Kotahena, Kotte, Nugegoda e Wellawatte). Embora era uma língua falada, o português estáva perdendo rapidamente a sua importância original nos serviços religiosos nas igrejas católicas (sendo substituído pelo inglês mais moderno e mais procurado). Jakarta-Batavia-Tugu, Indonésia: (um subúrbio de Jakarta). Aqui, até o início do século XX uma espécie de português corrompido ainda era falado pela população cristã em Tugu. O último habitante que falava creole morreu em 1978. Nunca esteve sob domínio de Portugal. Cochim, Índia: (Vypeen). Desapareceu nos últimos 20 anos. A comunidade portuguesa/hindu (2.000 pessoas) frequenta a velha igeja de Nossa Senhora da Esperança. Portugal retirou-se de Cochim em 1663.
|
domingo, 16 de janeiro de 2011
PORTUGUÊS MEDIEVAL OU GALEGO PORTUGUÊS?

Vaiamos, irmãa, vaiamos dormir
(en) nas ribas do lago, u eu andar vi
a las aves meu amigo.
Vaiamos, irmãa, vaiamos folgar
(en) nas ribas do lago, u eu vi andar
a las aves meu amigo.
En nas ribas do lago, u eu andar vi,
seu arco na mãao as aves ferir,
a las aves meu amigo.
En nas ribas do lago, u eu vi andar,
Seu arco na mãao as aves tirar,
a las aves meu amigo.
Seu arco na mãao as aves ferir,
a las que cantavam leixa-las guarir,
a las aves meu amigo.
Seu arco na mãao as aves tirar,
a las que cantavam non nas quer matar,
a las aves meu amigo.
O aluno brasileiro que aprender esta cantiga e outras poucas nas aulas de literatura não terá dificuldade em identificar a passagem abaixo, tirada d’A demanda do Santo Graal, como galego-português, por mais que ele aprenda em outro lugar (como no painel cronológico do Museu da Língua Portuguesa) que se trata de um texto escrito "português medieval".
Entom se saio Lançarot do paaço e sobio em seu cavallo e a dozella em seu palafrem. E forom com a donzella dous cavalleiros e duas donzellas. E quando ella tornou a elles, disse-lhes: “Sabede que adubei-o, porque v[e]m dom Lançarot do Lago sem ir comnosco”. Entom se filharom [a] andar e entrarom na foresta;e nom andarom muito por ella, que chegarom a [a]casa do ermitam que saia a falar com Gallaaz. E quando el vio Lançarot ir e a donzella, logo soube que ia para fazer Gallaaz cavalleiro e leixou sua irmida por ir ao mosteiro das donas. Ca nom queria que se fosse Gallaaz ante que o el visse.; ca bem sabia que pois se ele partia dali que nom tornaria i, ca lhe convenria, tanto que fosse cavalleiro, entrar aas venturas do regno de Logres. E por esto lhe semelhava, que o avaia perdudo e que nom veeria a meude e temia. Ca avai em elle mui grande sabor, porque era santa cousa e santa creatura.
Mensagem de Marcelo Pereira, S.Paulo Brasil, no Fórum http://www.pglingua.org/foros/viewtopic.php?f=1&t=716&start=30
JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS E A LÍNGUA PORTUGUESA
Fronteiras Perdidas
José Eduardo Agualusa
PUBLICO - 24.9.06
Foi apenas um breve parágrafo num longo (e raro) discurso sobre política cultural - mas creio que ficará na História. É uma pena que em Portugal ninguém tenha reparado nele. Refiro-me ao texto que o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, leu no passado dia 11 de Setembro, em Luanda, na abertura do 3° Simpósio sobre Cultura Nacional.
Cito: "Devemos ter a coragem de assumir que a Língua Portuguesa, adoptada desde a nossa Independência como língua oficial do país e que já é hoje a língua materna de mais de um terço dos cidadãos angolanos, se afirma tendencialmente como uma língua de dimensão nacional em Angola. Isso não significa de maneira nenhuma, bem pelo contrário, que nos devemos alhear da preservação e constante valorização das diferentes Línguas Africanas de Angola, até aqui designadas de "línguas nacionais", talvez indevidamente, pois quase nunca ultrapassam o âmbito regional e muitas vezes se estendem para além das nossas fronteiras".
Mesmo de forma tímida - aquele assustado "tendencialmente" - o facto é que, pela primeira vez, um dirigente angolano reconheceu o carácter nacional da variante angolana da língua portuguesa; foi mesmo além, ao sugerir que o português deveria ser reconhecido como a única língua verdadeiramente nacional de Angola.
O tema, diga-se, é espinhoso. Em privado, muitos altos dirigentes angolanos, assim como um grande número de intelectuais próximos do poder, vêm, há anos, a defender posições semelhantes. Nunca, porém, se atreveram a publicitar tais opiniões. Após o discurso de José Eduardo dos Santos será interessante saber como reagirá a corrente conservadora, de matriz rural, no seio do seu próprio partido.
Quanto à oposição, não me parece difícil adivinhar as reacções: há anos que os pequenos partidos do norte, tradicionalmente antilusófonos, se esforçam por apresentar José Eduardo dos Santos como um falso africano. No principal partido da oposição, também ele conservador, largamente antilusófono e de matriz rural, a linguagem pode ser (e, infelizmente, nem sempre é) um pouco mais sofisticada, mas, em substância, pouco difere.
Não obstante todas estas eventuais vozes contrárias, José Eduardo dos Santos rema claramente a favor da História. Não é crível que quem quer que seja consiga travar a extraordinária expansão da língua
portuguesa em Angola. Falada por uma pequena minoria de angolanos, enquanto idioma materna, antes da independência, o português enraizou-se depois disso, sendo hoje dominante na capital, cidade com mais de três milhões de habitantes, bem como nas principais urbes do país.
Não ocorreu no continente africano, tanto quanto sei, nada semelhante: uma língua europeia, instrumento de dominação colonial, que se fez africana. O bom domínio do português revela-se cada vez
mais importante para a ascensão política e social. Seria interessante, a propósito, comparar a qualidade do português no discurso dos políticos, hoje e há trinta anos. Apesar da extrema fragilidade do sistema de ensino, a qualidade do português falado em Angola melhorou consideravelmente, desde a independência, inclusive nos meios rurais.
O sucesso da língua portuguesa pode ser medido por um divertido paradoxo: é em português que o português é atacado. Mais: mesmo quem se opõe ao português esforça-se por o falar com elegância, sob pena de ser humilhado na praça pública.
Como recorda o linguista brasileiro Marcos Bagno num interessantíssimo ensaio, "A Norma Oculta - Língua & Poder na Sociedade Brasileira" (Parábola Editorial, 2003), "o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua". Bagno, curiosamente, escreveu o referido ensaio com o objectivo "de desvendar o jogo ideológico por trás da defesa de um conjunto padronizado de regras linguísticas". Traduza-se: o linguista pretendeu socorrer o presidente Lula da Silva, atacado por uma boa parte da intelectualidade brasileira, que o acusa de não dominar o idioma português.
É uma outra discussão - e é a mesma. Lula representa, afinal, o triunfo desse mesmo mundo rural que, em Angola, perdeu a guerra e o poder.
__________
NOTA: Isto é mais uma achega para se aferir que a "colonização" portuguesa foi diferente da praticada pelos outros países, não estando a fazer juízos de valor.
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/09/lngua_e_poder.html
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
da Presidenta do Brasil a lendas de África...
mas com a língua de Camões, não se brinca
| Com a palavra os professores de língua portuguesa: Antonio Oirmes Ferrari, Maria Helena e Rita Pascale Presidenta ??? Vale a pena ler pela aula de português ... Queridos Amigos, Tenho notado, assim como aqueles mais atentos também devem tê-lo feito, que a candidata Dilma Roussef e seus sequazes, pretendem que ela venha a ser a primeira presidenta do Brasil, tal como atesta toda a propaganda política veiculada pelo PT na mídia. Presidenta??? Mas, afinal, que palavra é essa totalmente inexistente em nossa língua? Bem, vejamos: No português existem os particípios ativos como derivativos verbais.Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante... Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha. Se diz capela ardente,e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta". Um bom exemplo seria: "A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta." |
|
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
morreu o crioulo de cochim
As línguas minoritárias estão a extinguir-se a uma taxa alarmante. Os linguistas acreditam que uma língua indígena desaparece a cada duas semanas. Portanto, o comprometimento com um idioma é uma preocupação séria, diz o Dr. Hugo Canelas Cardoso, pesquisador pós-doutorado no Centro de Investigação em Estudos Luso-Asiáticos do Departamento de Português da Universidade de Macau. Ele esteve recentemente envolvido na descrição e documentação dos crioulos Indo-Portugueses de Diu, como parte do seu doutoramento em Linguística Geral pela Universidade de Amesterdão. Durante uma das suas muitas visitas a Diu, Cardoso chegou a Cochim, onde contactou Rosário. Foi o início de uma amizade que se estendeu para além da linguagem.Cardoso lembra o seu estimado amigo Rosário e lamenta a sua morte e a morte do Crioulo Português de Cochim, uma língua materna falada por muitas famílias desde há cinco séculos. Numa entrevista por email, da qual apresentamos alguns excertos, Cardoso partilha os seus pensamentos sobre as linguagens, o amigo Rosário e o impacto da sua morte.
Sobre William Rosário
William Rosário cresceu numa fazenda em Wayanad mas as origens da sua família são Cochim e Cananor, pelo que a sua língua materna era o crioulo. Ele disse-me que, na infância, esta era a única língua falada em sua casa e pelo resto da extensa família. Em 2007, enquanto eu estava em Diu, fiz uma curta viagem a Kerala. Na época, vários membros da comunidade Indo-Portuguesa em Fort Cochim disseram-me que Rosário era o último orador fluente do crioulo na área de Cochim, por isso eu visitei-o na sua casa em Vypeen. Era um homem extremamente generoso e afável, e ficou muito feliz por poder falar a sua língua-mãe de novo; a última vez que o praticou tinha sido com o seu amigo Paynter, falecido alguns anos antes. Fiquei extremamente sensibilizado com o calor com que era sempre recebido por Rosário e restante família. Na última vez que o visitei, no passado mês de Janeiro, Rosário concordou em passar algum tempo ensinando-me a língua.
Porque é que a língua não passou para os descendentes?
No caso específico da família de Rosário, pode ter tido a ver com o facto de que a sua esposa não a fala, mas penso que, naquela época, o uso do Crioulo Português de Cochim já estava em declínio. O processo de abandono da língua, a nível comunitário, deve ter começado há muito tempo. As línguas são centrais para a identidade de cada comunidade, mas só sobrevivem a longo prazo se houver domínios da vida quotidiana em que possam ser utilizadas: no trabalho, na educação, na religião, etc. Eu acredito que o uso do Crioulo Português de Cochim pela comunidade católica foi gradualmente invadido por outros idiomas, o que originou uma quebra na transmissão do crioulo de pais para filhos.
Sobre o Crioulo Português de Cochim
Quando o idioma Português chegou à Ásia, em fins do século XV, entrou em contacto com as línguas locais, dando origem a uma série de novas línguas, uma vez que pontilhavam a costa da Índia, Sri Lanka e outras paragens. Tais linguagens, nascidas do contacto intenso entre duas ou mais línguas, são o que os linguistas chamam de crioulos. Em Cochim, o caldo linguístico envolvia Malayalam, Português e, provavelmente, um grande número de outras línguas faladas por várias comunidades locais. Como esse foi o primeiro local onde o Português estabeleceu uma presença estável no Sul da Ásia, é geralmente aceite que o Crioulo Português de Cochim seja o mais antigo de todos os Crioulos Indo-Portugueses a ser formado. Sendo assim, terá certamente determinado, em certa medida, o desenvolvimento de outras variantes. Essa linguagem, desenvolvida paralelamente à formação de famílias católicas e Indo-Portuguesas, foi vital no momento em que os holandeses assumiram o controlo de Cochim, tendo prosperado sob a nova administração.
Características da linguagem
Em termos gerais, muitas das palavras do Crioulo de Cochim são de origem Portuguesa, mas a gramática é muito diferente e reflecte a influência do malaiala. Por exemplo, onde o Português (tal como o Inglês) tem preposições, o Crioulo de Cochim tem posposições, que aparecem depois do verbo. E há também uma forte tendência para colocar o verbo no final da frase, que é contrário à gramática de Português mas não à do malaiala. O sistema verbal funciona de maneira diferente, e há também diferenças marcantes na formação das palavras e até mesmo nos sons das duas línguas. Mesmo sendo localmente conhecido simplesmente como “Português” ou “Português de Cochim”, este crioulo é na realidade uma nova linguagem autónoma, que deve muito ao Português, como acontece com outras línguas da Índia. Este crioulo foi a língua de grande parte da população de Cochim durante cinco séculos. Era um monumento a um período crucial da história da cidade.
Será que a morte das línguas tornou-se frequente?
As línguas surgem e desapareceram ao longo da história, é um processo natural, mas há algo no mundo moderno que está a fazer com que as línguas morram a uma taxa sem precedentes. Portugal, uma vez que é o lar de imensa diversidade linguística, também tem sofrido alguns desses desaparecimentos. No início deste ano, por exemplo, a morte de uma mulher de 80 anos nas ilhas Andaman marcou o fim da linguagem Bo.
Torná-mo-nos insensíveis à história, ao património inestimável?
Eu não diria que nós nos tornámos totalmente insensíveis; na verdade, quando se passeia por Cochim encontram-se muitos casos exemplares de preservação do património. Mas eu sinto que nós não damos a mesma atenção a todos os tipos de património. As linguagens, bem como outros tipos de património cultural imaterial, são muitas vezes negligenciadas, em comparação com heranças construídas, por exemplo. Por outro lado, existe sempre o perigo da preservação selectiva com base em convicções políticas ou ideológicas. E assim, ouso dizer, tudo o que seja percebido como tendo alguma ligação com o colonialismo estará em desvantagem na Índia actual. No entanto, o país desperta para o problema da extinção das línguas, como se verifica em algumas iniciativas do governo para documentar as línguas indígenas, o que é muito positivo. Mas seria importante para o público e para as autoridades perceber que os Crioulos Indo-Portugueses – ainda falados em lugares como Diu, Damão, Korlai ou Cananor – não são línguas estrangeiras. Pelo contrário, elas são, por definição, línguas da Índia e exclusivas da Índia.
Fonte: The Hindu – 26/09/2010
http://www.hojelusofonia.com/morreu-o-crioulo-portugues-de-cochim/

