quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Platão: a linguagem é um pharmakon


Platão, filósofo que viveu na Grécia entre os anos de 427 e 347 a.C, disse que a linguagem é um pharmakon. O termo grego pharmakon, que originou a palavra pharmáco, daí a nossa palavra pharmácia, possui três sentidos principais. São eles: remédio, veneno e cosmético.
Platão considerava que a linguagem poderia ser um remédio para o conhecimento. Isto por que? Porque é pelo diálogo que trocamos idéias, ouvimos opiniões, descobrimos e aprendemos coisas novas com os outros. É através da comunicação entre semelhantes que podemos ver o quanto ignoramos coisas e assim, ampliar nossos conhecimentos. A linguagem possibilita a comunicação e o diálogo, logo, remedia nossa ignorância. Talvez tenha sido por isto que este filósofo, cujos
pensamentos influenciam até hoje diversas áreas do conhecimento, escreveu sua obra em diálogos.
Disse também ser a linguagem um veneno. Por que veneno? Lembremos agora do discípulo de Platão, Aristóteles, que viveu na Grécia entre o ano de 384 e 322 a.C. Aristóteles disse que os animais possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, expressa o bem e o mal, o justo e o injusto.
Vemos que ao utilizar-se da palavra, o homem pode tanto expressar o bem quanto o mal, o justo e o injusto, e principalmente, criar verdades. As palavras seduzem quando ditas de forma segura à quem ignora o assunto que está sendo tratado. Aqui voltamos a Platão e vemos porque a linguagem, a expressão da palavra, pode ser um veneno. Um veneno que seduz e nos faz aceitar fascinados, o que vimos ou lemos, sem mesmo indagar se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Aqui está uma forma inadequada de utilização da palavra.
Hoje em dia, vemos em vários setores da sociedade, a palavra sendo utilizada como uma linguagem venenosa, pois envolve a quem a ouve, fazendo-o acreditar e seguir, ceder, aceitar, se colocar a disposição de quem as expressa. A classe dos eleitores que o digam...
Seguindo nesta mesma linha de raciocínio, podemos também nos defender deste veneno, quando indagamos, pedimos provas, duvidamos do que ouvimos. Neste caso, aquele que utiliza da palavra como forma de linguagem sedutora, inicia então um novo discurso, utilizando a palavra no outro sentido dado por Platão; o sentido de cosmético, maquiagem, máscara... Espertamente se esquivando, tentando manter uma mentira maquiada, uma ilusão mascarada de verdade.
A palavra como vimos, tem o poder de esclarecer assim como de enganar. De revelar assim como esconder. Palavra com sentimento.
Vejamos o que disse o filósofo francês, Jean Jacques Rosseau (1712-1778), em seu Ensaio sobre a origem das línguas.
Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhe arrancaram as primeiras vozes... Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas.
Vemos aí a relação das palavras com os sentimentos. Esta relação fica bem marcada quando utilizada com o sentido sagrado. Nas orações, nos rituais, quanto mais apaixonadas são pronunciadas as palavras, mas profundamente promovem o encantamento do mundo, levando a quem as expressa ao encontro com o Divino.
As palavras sagradas nos levam a mergulhar na sacralidade, arrastando-nos para seu interior pela força de seu sentido, de sua beleza, de seu apelo afetivo. É uma palavra que encanta a nós e ao mundo que nos cerca, transformando a ambos.
A palavra como instrumento do poder sagrado, pode ser encontrada nas mais diversas religiões. Aqui no ocidente, por exemplo, temos a Bíblia, onde na abertura encontramos a força criadora da palavra na frase: E Deus disse: faça-se!, e assim o mundo foi feito.
Por ele ter dito, foi feito. A palavra aí demonstrada como força divina e criadora.

No nosso dia-a-dia, podemos perceber que as palavras ditas pelo outro nos atingem seja de forma agradável ou não.
O efeito que ela produzirá em nós, dependerá de nossa capacidade de absorvê-la, compreendê-la e manter ou não aquela sintonia.
Um exemplo: o chefe do seu setor reclama com você. As palavras ditas vêm com uma carga de energia muito negativa. Se você responder no mesmo tom, completará este circuito, se sintonizando com esta carga de energia negativa. Mantendo-se em equilíbrio e calado,este circuito não será completado, sendo assim, a carga negativa se manterá em sua origem, produzindo assim posteriormente, uma espécie de curto circuito. Podemos perceber que sempre quando nos mantemos serenos diante destas situações, a pessoa que disse as palavras ofensivas, se sente mal, geralmente logo após o gesto, pede desculpas ou por conta de motivos dos mais diversos, prefere guardar consigo o mal estar (o curto circuito) que é produzido.
Temos de ter sempre em mente que a palavra tem o poder tanto de construir como de destruir, de revelar e esconder, de expressar o bem e o mal. Todos nós temos a capacidade da fala, utilizá-la da melhor maneira para benefício de si mesmo e do outro, cabe a cada um optar...
Lembrando de Caetano: a palavra também tem o poder de construir e destruir coisas belas.
Só para registro e reflexão.
"Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra."

( Chico Buarque)
Ana Lúcia de Mattos Santa Isabel

4 comentários:

  1. Muito obrigada. Bela reflexão.

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  2. Assisti a uma palestra na 5ª feira à noite, onde a palestrante usou trechos mt parecidos desta reflexão. Quero registrar q gostei mt de sua reflexão.

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  3. Reflexão muito significante!

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  4. Então, para platão, o LOGOS está mais ligado a linguagem?

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